Reflexões de Dom Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ
Por Dom Orani Tempesta, O.Cist.
RIO DE JANEIRO, 05 de Março de 2014 (Zenit.org) - Quando iniciamos a Quaresma, na
Quarta-feira de Cinzas recebendo-as sobre as nossas cabeças como sinal de
reconhecimento do nosso pecado e a necessidade de conversão, a Palavra de Deus
nos lembrava do jejum, esmola e a oração (Mt 6, 1-6.16-18). “Quando jejuares
perfuma a cabeça e lava o rosto... e o teu Pai que vê o que está escondido, te
dará a recompensa. Encontramos também Jesus lembrando que “quando o esposo for
tirado, então jejuarão”, na clara alusão tanto à Sexta-feira Santa, como também
à nossa separação d’Ele pelo pecado.
Sim, oração, jejum, esmola, lectio divina, confissão e tantas outras práticas
quaresmais se juntam ao tema da Campanha da Fraternidade, neste ano sobre o
Tráfico Humano para nos ajudar a vivenciar a nossa vida cristã e renová-la neste
tempo favorável.
O apelo de Cristo visa a nossa mudança interior, à transformação de nossas
vidas, à conversão do coração e à conversão e à penitência interior,
reorientando nossa vida para Deus e rompendo com o pecado. É a busca de acolher
o coração novo! Para isso as atitudes de reconciliação, cuidado dos
necessitados, confissão de nossas faltas, revisão de vida e outras atitudes nos
ajudam, assim como algumas atitudes que fazem o nosso corpo também participar
dessa renovação espiritual.
Somos chamados a sempre buscar uma vida de conversão, e, para isso, ao
acolher a graça de Deus ter também práticas de ascese que nos ajudem nessa
caminhada. “O Cristão é, de modos e formas diferentes, asceta e místico,
virtuoso e espiritual ao mesmo tempo, operante por capacidade própria e dirigido
pelo influxo do Espírito do Ressuscitado. Com esse princípio, a vida cristã
propõe também uma ascese que se funda na caridade, em virtude da qual o cristão
renuncia a tudo o que impede de tender à perfeição evangélica.”
A caminhada quaresmal conduz-nos a renovar a vida cristã, que no fundo é uma
busca de recolocar-nos no caminho da santidade, atitude que deve ser constante,
mas que recebe um incremento especial neste tempo favorável. “O aspecto mais
sublime da dignidade humana consiste em sua vocação para a comunhão com Deus.
Desde o seu nascimento o homem é convidado ao diálogo com Deus.” (GS, 19)
É nesse contexto que a Igreja propõe como um dos seus mandamentos “Jejuar e
abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja” (CIC 2043), contribuindo
para nos ajudar a preparar para as festas litúrgicas e a adquirir domínio sobre
nossos instintos e a liberdade de coração.
A Igreja convida-nos, durante o tempo da Quaresma e depois também todas as
sextas-feiras do ano (em memória da Sexta-feira Santa) a termos momentos fortes
de prática penitencial.
O Diretório Litúrgico da Igreja no Brasil resume a questão do Jejum e
Abstinência lembrando que estão obrigados à abstinência os maiores de quatorze
anos de idade e ao jejum os que estão entre os dezoito e os sessenta anos. E
ainda aí nos recorda: dias de penitência são todas as sextas-feiras do ano, que
pode ser com abstinência de carne ou outro alimento, ou ainda alguma outra
forma, como obra de caridade ou exercício de piedade.
Dias de Jejum e Abstinência são apenas a Quarta-feira de Cinzas e a
Sexta-feira Santa. E também aqui “a abstinência pode ser substituída pelos
próprios fiéis por outra prática de penitência, caridade ou piedade,
particularmente pela participação nesses dias na Sagrada Liturgia.”
Parece muito pouco o que a Igreja nos pede para tão grandes resultados, mas a
intenção é que, dentro de uma orientação bastante aberta, possamos andar no
caminho sincero de conversão, como, aliás, é o espírito dessa norma, pois
lembra, à luz dos documentos, que mesmo os que não estão sujeitos a essas
práticas, sejam formados no sentido genuíno da vida em conversão.
Somos convidados a levar a sério este tempo que se abriu par anos refazendo o
caminho do Êxodo e estando unidos a Cristo viver esses abençoados 40 dias de
renovação interior, de vida de conversão para chegarmos purificado e renovados à
Páscoa da Ressurreição, quando, no sábado santo, iremos solenemente renovar os
nossos compromissos batismais.
Uma Santa Quaresma para todos nós.
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro,
RJ.
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