sábado, 27 de dezembro de 2014

VIVER COM COERÊNCIA



Na festa de Santo Estêvão, o primeiro mártir da Igreja, o Papa Francisco rezou a oração do Angelus da janela do seu escritório no Palácio Apostólico, diante de uma multidão que o esperava na Praça de São Pedro.
Dirigindo-se aos fieis e peregrinos vindos de todo o mundo, que o acolheram com um demorado e caloroso aplauso, o Pontífice argentino lhes disse:

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje a liturgia recorda o testemunho de Santo Estêvão. Escolhido dos apóstolos, junto a outros seis, para a diaconia da caridade, isso é, para ajudar os pobres, os órfãos, as viúvas na comunidade de Jerusalém, ele se torna o primeiro mártir da Igreja. Com o seu martírio, Estêvão honra a vinda no mundo do Rei dos reis, dá testemunho Dele e oferece em doação a sua própria vida, como fazia no serviço aos mais necessitados. E assim nos mostra como viver em plenitude este mistério do Natal.
O Evangelho desta festa reporta uma parte do discurso de Jesus aos seus discípulos no momento em que os envia em missão. Diz entre outros: “Sereis odiados por todos, por causa do meu nome. Mas quem perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 10, 22). Estas palavras do Senhor não perturbam a celebração do Natal, mas a despojam daquele falso revestimento adocicado que não lhe pertence. Fazem-nos compreender que nas provas aceitas por causa da fé, a violência é derrotada pelo amor, a morte pela vida. E para acolher verdadeiramente Jesus na nossa existência e prolongar a alegria da Noite Santa, o caminho é justamente aquele indicado por esse Evangelho, isso é, dar testemunho de Jesus na humildade, no serviço silencioso, sem medo de ir contracorrente e de pagar pessoalmente. E se não todos são chamados, como Santo Estêvão, a derramar o próprio sangue, a cada cristão, porém, é pedido ser coerente em cada circunstância com a fé que professa. E a coerência cristã é uma graça que devemos pedir ao Senhor. Ser coerentes, viver como cristãos e não dizer: “sou cristão” e viver como pagão. A coerência é uma graça a pedir hoje.
Seguir o Evangelho é, de certo modo, um caminho exigente, mas belo, belíssimo, e quem o percorre com fidelidade e coragem recebe o presente prometido pelo Senhor aos homens e às mulheres de boa vontade. Como cantavam os anjos no dia do Natal: “Paz! Paz!”. Esta paz dada por Deus é capaz de tranquilizar a consciência daqueles que, através das provações da vida, sabem acolher a Palavra de Deus e se empenham em observá-la com perseverança até o fim (cfr Mt 10, 22).
Hoje, irmãos e irmãs, rezemos de modo particular por quantos são discriminados, perseguidos e mortos pelo testemunho dado de Cristo. Gostaria de dizer a cada um deles: se vocês levam esta cruz com amor, entram no mistério do Natal, estão no coração de Cristo e da Igreja.
Rezemos, além disso, para que, graças também ao sacrifício destes mártires de hoje – são tantos, tantíssimos! – se reforce em cada parte do mundo o empenho para reconhecer e assegurar concretamente a liberdade religiosa, que é um direito inalienável de cada pessoa humana.
Queridos irmãos e irmãs, desejo-vos transcorrer serenamente as festas natalícias. Santo Estêvão, diácono e primeiro mártir, nos apoie no nosso caminho cotidiano, que esperamos coroar, no fim, na festiva assembleia dos santos no Paraíso.
VIA ZENIT

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

ELE CHEGOU









D. José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)

Deus cumpriu a promessa e mandou seu Filho. Ele chegou. Está entre nós, como um de nós, para nos ensinar a viver como Ele. Assim consertamos o convívio, com a prática de seus ensinamentos.

É preciso entender porquê, como, para que e para quem Ele veio. Sua presença entre nós, além de salutar, é educativa e transformadora, mesmo não sendo conhecido e até não aceito por muitos. A incidência de sua missão tem efeito saneador para toda a humanidade, em sentido contrário ao estrago feito por nossos primeiros ancestrais e continuado pela humanidade no decorrer dos tempos.
Ele chegou como criança. Sem a malícia danosa do adulto que julga, peca, estraga o convívio, torna-se muito injusto, usa a inteligência e a ciência para privilegiar alguns em detrimento da maioria, discrimina, diminui o valor da família, explora os mais frágeis, faz guerra e armas para ganhar dinheiro e domínio sobre outros, desperdiça alimento enquanto grande parte passa fome... O Deus feito criança nos ensina as virtudes da verdade, do bem, da pureza de intenção, da doação de si pelo bem do outro, da simplicidade, da atitude de servir e não ser servido, da disponibilidade para ajudar a convivência fraterna e amiga. Ensina o tornar-se criança para se alcançar o Reino do céu...
Ele chegou porque nos criou à sua imagem e semelhança. O ser humano desqualificou a habitação de Deus em si e se endeusou. Quando isso acontece, um explora o outro, julga-se com o poder divino deturpado. Nenhum ser humano é Deus. Sem Deus ele se auto-destrói e arrasa o convívio com o semelhante e com a natureza. O Emanuel veio implantar uma nova ordem social. O instrumento necessário por Ele usado e ensinado é o amor. Só o verdadeiro amor, provindo de Deus, constrói.
Sua chegada se dá para dar força à relação salvadora do divino com o humano. Uma vez desfeita essa relação com o pecado da autossuficiência humana, só a vinda do alto pode pontificar a passagem do relativo humano ao absoluto divino. A religião puramente humana não é capaz de fazer isso. O humano, contando só com suas forças, não é capaz de fazer a transposição do natural ao sobrenatural. Foi preciso Deus vir até nós para o entrecruzamento do liame indelével das duas naturezas do Filho de Deus para unir o divino com o humano. A própria fé religiosa, para ter seu efeito de benefício pleno a nós, precisa fazer a ligação das hastes vertical e horizontal, ou seja, de nossa relação com Deus e com o semelhante, na prática da justiça e do amor.
Ele veio para quem é carente, caído, deserdado, pobre, desesperançoso, incapaz de encontrar sozinho o sentido da vida e da solução para seus problemas e limites, para quem se sente e é desumano, buscando socorro para seus limites... Ele é quem precisamos: um de nós com o poder de nos tornar verdadeiramente humanos, cumulando-nos com sua realidade divina! É o Deus-conosco!


FELIZ NATAL 2014

A TODOS DESEJO QUE O MENINO JESUS NASÇA EM CADA CORAÇÃO. . .
E QUE A SUA PAZ SE ESPALHE POR TODA A HUMANIDADE.
FELIZ NATAL!
SAÚDE
AMOR
PAZ

PAPA FRANCISCO - MENSAGEM DE NATAL 2014





«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles» (Is 9, 1). «Um anjo do Senhor apareceu [aos pastores], e a glória do Senhor refulgiu em volta deles» (Lc 2, 9). É assim que a Liturgia desta santa noite de Natal nos apresenta o nascimento do Salvador: como luz que penetra e dissolve a mais densa escuridão. A presença do Senhor no meio do seu povo cancela o peso da derrota e a tristeza da escravidão e restabelece o júbilo e a alegria.
Também nós, nesta noite abençoada, viemos à casa de Deus atravessando as trevas que envolvem a terra, mas guiados pela chama da fé que ilumina os nossos passos e animados pela esperança de encontrar a «grande luz». Abrindo o nosso coração, temos, também nós, a possibilidade de contemplar o milagre daquele menino-sol que, surgindo do alto, ilumina o horizonte.
A origem das trevas que envolvem o mundo perde-se na noite dos tempos. Pensemos no obscuro momento em que foi cometido o primeiro crime da humanidade, quando a mão de Caim, cego pela inveja, feriu de morte o irmão Abel (cf. Gn 4, 8). Assim, o curso dos séculos tem sido marcado por violências, guerras, ódio, prepotência. Mas Deus, que havia posto suas expectativas no homem feito à sua imagem e semelhança, esperava. Deus esperava. O tempo de espera fez-se tão longo que a certo momento, quiçá, deveria renunciar; mas Ele não podia renunciar, não podia negar-Se a Si mesmo (cf. 2 Tm 2, 13). Por isso, continuou a esperar pacientemente face à corrupção de homens e povos. A paciência de Deus... Como é difícil compreender isto: a paciência de Deus para connosco!
Ao longo do caminho da história, a luz que rasga a escuridão revela-nos que Deus é Pai e que a sua paciente fidelidade é mais forte do que as trevas e do que a corrupção. Nisto consiste o anúncio da noite de Natal. Deus não conhece a explosão de ira nem a impaciência; permanece lá, como o pai da parábola do filho pródigo, à espera de vislumbrar ao longe o regresso do filho perdido; e todos os dias, com paciência. A paciência de Deus!
A profecia de Isaías anuncia a aurora duma luz imensa que rasga a escuridão. Ela nasce em Belém e é acolhida pelas mãos amorosas de Maria, pelo afecto de José, pela maravilha dos pastores. Quando os anjos anunciaram aos pastores o nascimento do Redentor, fizeram-no com estas palavras: «Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12). O «sinal» é precisamente a humildade de Deus, a humildade de Deus levada ao extremo; é o amor com que Ele, naquela noite, assumiu a nossa fragilidade, o nosso sofrimento, as nossas angústias, os nossos desejos e as nossas limitações. A mensagem que todos esperavam, que todos procuravam nas profundezas da própria alma, mais não era que a ternura de Deus: Deus que nos fixa com olhos cheios de afecto, que aceita a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequenez.
Nesta noite santa, ao mesmo tempo que contemplamos o Menino Jesus recém-nascido e reclinado numa manjedoura, somos convidados a reflectir. Como acolhemos a ternura de Deus? Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe de aproximar-Se? «Oh não, eu procuro o Senhor!» – poderíamos replicar. Porém a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que seja Ele a procurar-me, a encontrar-me e a cobrir-me amorosamente das suas carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito a Deus que me queira bem?
E ainda: temos a coragem de acolher, com ternura, as situações difíceis e os problemas de quem vive ao nosso lado, ou preferimos as soluções impessoais, talvez eficientes mas desprovidas do calor do Evangelho? Quão grande é a necessidade que o mundo tem hoje de ternura! Paciência de Deus, proximidade de Deus, ternura de Deus.
A resposta do cristão não pode ser diferente da que Deus dá à nossa pequenez. A vida deve ser enfrentada com bondade, com mansidão. Quando nos damos conta de que Deus Se enamorou da nossa pequenez, de que Ele mesmo Se faz pequeno para melhor nos encontrar, não podemos deixar de Lhe abrir o nosso coração pedindo-Lhe: «Senhor, ajudai-me a ser como Vós, concedei-me a graça da ternura nas circunstâncias mais duras da vida, dai-me a graça de me aproximar ao ver qualquer necessidade, a graça da mansidão em qualquer conflito».
Queridos irmãos e irmãs, nesta noite santa, contemplamos o presépio: nele, «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9, 1). Viram-na as pessoas simples, as pessoas dispostas a acolher o dom de Deus. Pelo contrário, não a viram os arrogantes, os soberbos, aqueles que estabelecem as leis segundo os próprios critérios pessoais, aqueles que assumem atitudes de fechamento. Contemplemos o presépio e façamos este pedido à Virgem Mãe: «Ó Maria, mostrai-nos Jesus!»