terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

LAICIDADE OU LAICISMO?


 
          Nos últimos tempos assistimos a manifestações, muitas vezes de grupos minoritários, em que é usada, indistintamente, uma linguagem que confunde laicidade e laicismo para justificar qualquer forma ou atitude de vida, criando confusões e perplexidade em muitas pessoas, sobretudo para quem segue por caminhos de inspiração religiosa. A Congregação para a Doutrina da fé nos ajuda a esclarecer a questão: “A laicidade entendida como autonomia da esfera civil e política em relação à esfera religiosa e eclesiástica, nunca na esfera moral, é um valor adquirido e reconhecido pela Igreja” (As Razões da Fé na Ação Evangelizadora – CNBB – Subsídios Doutrinais 7, p. 80). Portanto, a Igreja reconhece a laicidade com sua autonomia de expressão, porém não se anulam com isso as responsabilidades morais. E é provado também que a ética, sendo acompanhada por valores como a fé e a caridade, possui bem mais condições de responder eficazmente aos problemas da vida humana. Neste contexto da chamada laicidade, surgem facilmente afirmações e comportamentos que, a pretexto de laicidade, podem ser identificados claramente como laicismo, entendido este, habitualmente, como atitude hostil à religião, a qualquer manifestação religiosa, como a presença de símbolos religiosos em espaços públicos. O que nos faz lembrar a recente movimentação contra a presença da cruz em repartições públicas. Estas pessoas ou grupos desejarão tirar o Cristo do Corcovado ou mudar o nome dos Estados de São Paulo, Santa Catarina e do Espírito Santo? O laicismo não somente demonstra antipatia pela religião, mas quer erradicá-la da vida pública, por vezes com atitudes radicais e agressivas que até contradizem as bandeiras minoritárias que defendem.
          Da parte da Igreja há o reconhecimento da autonomia do Estado em relação a todas as religiões. Mas o Estado democrático, mesmo sendo multicultural, eleito legitimamente, não pode ser considerado ateu, pois os cidadãos que representa, professam credos religiosos e merecem respeito e não podem ser influenciados ou manipulados por minorias, pois referir-se a Deus não significa priorizar alguma religião, mas se trata de defender o direito das religiões professarem sua crença e celebrarem seus ritos. Não basta, portanto, a simples liberdade religiosa para garantir a plena liberdade de todos os cidadãos, que está baseada em valores universais comuns a todo gênero humano. Dessa forma a religião deixa de ser tratada exclusivamente no mundo do privado e do subjetivo, como tantas vezes se pretende difundir e generalizar, sobretudo, através da grande mídia.
          A laicidade deve ser compreendida hoje como busca de uma interação equilibrada entre pensamento religioso e secular. Pelo fato de ser democrático, o Estado não pode excluir a religião das grandes questões que envolvem a vida da sociedade como, por exemplo, a bioética, a natureza humana, a família, a educação, a secularização, inclusive a finalidade da própria política, como serviço ao bem comum.
          Como afirmou Bento XVI: “Não impomos a fé a ninguém. Um semelhante gênero de proselitismo é contrário ao cristianismo. A fé pode desenvolver-se unicamente na liberdade. Mas é à liberdade dos homens que apelamos para que se abram a Deus, o procurem, o ouçam” (Idem, p. 80). A Igreja recebeu a graça e o dever de tornar a fé em Jesus Cristo acessível a todos os que estão à procura de Deus, ou estão abertos para o diálogo a respeito da fé. E lembremo-nos sempre que o cristianismo se difunde, não por proselitismo, mas pelo testemunho de vida no amor.
Dom Aloísio A. Dilli
Bispo de Uruguaiana

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