terça-feira, 29 de abril de 2014

João Paulo II e os jovens


Entrevista com Daniele Venturi, presidente da Associação dos Papaboys nascida do amor de João Paulo II para com os leigos e as novas gerações
Por Nicola Rosetti

ROMA, 28 de Abril de 2014 (Zenit.org) - 
João Paulo II sempre teve um grande amor para com o laicato católico, e de modo especial para com os jovens. Essa predileção pelos jovens o levou a dar a vida à Jornada Mundial da Juventude. O sentimento de benevolência para com as novas gerações foi correspondido. Deste nasceu a Assossiação Papaboys. Por ocasião da canonização de João Paulo II, entrevistamos Daniele Venturi, presidente nacional dos “Papaboys”.
Como e quando nasceram os “Papaboys”?
Venturi: O site www.papaboys.org nasceu em 2001. A Associação Nacional Papaboys foi fundada em 2004, mas nós não queremos ser um Movimento. É principalmente uma associação para servir a Igreja e os jovens.
Quantos membros tem a Associação e quais são as principais atividades?
Venturi: Atualmente cerca de 15.000. Os Papaboys se comprometem a apoiar todas as atividades de oração propostas pela Igreja. Muitas vezes animamos as celebrações eucarísticas. Eu gosto de dizer que a nossa tarefa é ser “abridores de portas da igreja": abrir as paróquias e levar os fiéis a rezar, com Jesus no centro do altar, e é a Ele que nós confiamos todas as nossas invocações.
Os “Papaboys” nasceram com o Papa João Paulo II. Qual é a relação com os sucessores Papa Bento XVI e Francisco?
Venturi: A Associação nasceu com o Papa João Paulo II, cresceu com Bento XVI, e continua a crescer com Francisco. Dois meses depois da eleição de Bento XVI, 28 de junho de 2005, participamos do encontro "Muitos corações ao redor do Papa. Mensageiro da Paz" na Aula Paulo VI. Durante o período de intercessão pela paz que tínhamos organizado em fevereiro de 2013, chegou a notícia da renúncia de Bento XVI. Naquela ocasião, Bento XVI enviou pelo arcebispo Konrad Krajewski, centenas de rosários. Com Francisco o relacionamento teve início na Terra Santa: seguimos o Santo Padre com uma série de iniciativas. Para a ocasião, criamos o site www.terrasanctapax.org, com momentos ‘ao vivo’ e de oração.
Que aspecto do carisma de João Paulo II mais fascina os “Papaboys”?
Venturi: Destacaria os principais motivos que me convenceram a ‘entrar no jogo’: a confirmação constante de sua credibilidade. João Paulo II pregou o perdão e perdoou; pregou o amor aos jovens e os jovens o amaram; pregava o doar-se até o fim e até o último momento se entregou generosamente.
Você conheceu pessoalmente o Papa João Paulo II? Quais são as suas lembranças?
Venturi: Conheci João Paulo II por ocasião do último concerto de Natal no Vaticano, em 2004. Eu pude ver de perto o rosto do sofrimento e, em seu rosto, eu pude vislumbrar o rosto de Jesus. Em poucas palavras disse o que eu estava fazendo e me comprometi, naquele momento, em continuar no futuro.
Como foi a sua participação na Jornada Mundial da Juventude? Qual delas marcou o seu coração?
Venturi: Na Jornada Mundial da Juventude do Jubileu, no ano 2000, eu cheguei no último minuto. Depois, participei em Colonia 2005, com Bento XVI. Em Toronto e no Rio fui coordenando alguns grupos de jovens. Na JMJ Rio ganhei um convite, mas seguindo o Papa Francisco, decidi transferi-lo para alguém que tinham mais mérito para estar lá. A JMJ que marcará meu coração será a de Cracóvia 2016.
Mais informações: Ancora online

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Época de canonizações


Caros diocesanos. No mês de junho de 2013 escrevemos diversas mensagens sobre o Culto dos Santos e nos damos conta que a celebração dos santos começou lentamente na Igreja, primeiramente ligada aos mártires, e depois foi se alargando. O culto era cristocêntrico, com características de louvor, de alegria, de vitória, de esperança. Cristo é o centro do culto; os santos, discípulos coerentes. A transladação das relíquias iniciou a universalização do culto e motivou mudanças no sentido teológico. 
Os santos e santas relacionados no calendário da Igreja católica (beatificados e canonizados) não são os únicos que participam da santidade de Deus, mas neles a Páscoa eterna já se tornou uma realidade plena: nasceram (dies natalis) para a nova e eterna vida com Deus. Através deles, Deus é glorificado e a Igreja é santificada, atingindo sua vocação mais profunda. Deus, no seu infinito amor, quis a pessoa humana participante de sua santidade, criando-a segundo sua imagem e semelhança. Assim se estabelece o sonho de Deus e a vocação fundamental do ser humano: tornar-nos filhos, santos como Ele é santo (1Pd 1, 16). A santidade, portanto, entendida como chamado para identificação com Deus, em Jesus Cristo, é o desafio maior de todos nós. Em meio à situação de santo e pecador, o ser humano vive um processo contínuo de santificação.

Assim, podemos dizer que o santo não é uma exceção, mas modelo de um processo normal de vida cristã. Uma vida cristã que tem o desfecho coerente diante da obra da salvação de Cristo: “A santidade, pois, não é um luxo, uma exceção, um privilégio de alguns. É uma vocação de todo cristão” (A. Burin). Isto é motivo de júbilo, de vitória, de esperança, de louvor a Deus. Portanto, a vocação à santidade não é apenas para aqueles e aquelas que praticam “virtude em grau heróico” e são elevados aos altares, como modelos e intercessores oficiais, mas para todos os batizados em Cristo. O Concílio Ecumênico Vaticano II, através da Constituição Dogmática Lumen Gentium (LG), nos lembra: “Um é o povo eleito de Deus: ‘um só Senhor, uma só fé, um só batismo’ (Ef 4, 5). Comum a dignidade dos membros pela regeneração 
em Cristo. Comum a graça de filhos. Comum a vocação à perfeição... Se, pois, na Igreja nem todos seguem o mesmo caminho, todos, no entanto, são chamados à santidade e receberam a mesma fé pela justiça de Deus (2Pdr 1,1)” (LG 32).
Como pudemos perceber, o santo é um sinal que aponta para a identidade da própria Igreja, chamada a ser santa (Ef 2, 19-22; LG 39), graças aos méritos de Jesus Cristo. Tendo presente esta reflexão, a Igreja vive um tempo de feliz anúncio de canonizações: Santos João XXIII, João Paulo II e José de Anchieta. Neles a santidade de Deus pôde refulgir, tornando realidade em sua vida o mistério pascal do Senhor. Os primeiros, em seus pontificados e testemunhos pessoais exemplares; o segundo, como Apóstolo do Brasil: figura importante da cultura de nosso país, aproximando a fé cristã dos nativos da terra, ou seja, lançando os fundamentos da catequese em nosso país e, por que não dizer, dos valores cristãos de nossa Nação. Os novos canonizados inspirem nossa vida cristã, nos encoragem e intercedam por nós: “Nos vossos santos e santas ofereceis um exemplo para a nossa vida, a comunhão que nos une, a intercessão que nos ajuda” (Prefácio dos Santos I). Somos todos convidados à santidade, caminho normal dos discípulos missionários, pois ela faz parte do ser Igreja: “A santidade não é fuga para o intimismo ou para o individualismo religioso, tampouco abandono da realidade urgente dos grandes problemas... e muito menos fuga da realidade para um mundo exclusivamente espiritual” (DAp 148). Que as canonizações dos últimos tempos incentivem a busca da santidade em nossa vida.
Dom Aloísio A. Dilli – Bispo de Uruguaiana

Wojtyla é um santo da família, da paz e da defesa da vida

Missa de ação de graças: Wojtyla é um santo da família, da paz e da defesa da vida

Cidade do Vaticano (RV) – “S. João Paulo II, reze pela Igreja que você tanto amou e impulsionou corajosamente na senda da fidelidade heroica a Jesus”: palavras do Arcipreste da Basílica Vaticana, Card. Angelo Comastri, na missa de ação de graças presidida esta manhã, na Praça S. Pedro, com a participação de cerca de 80 mil fiéis e peregrinos, sobretudo oriundos da Polônia.

No início de sua homilia, o Card. Comastri recordou uma das imagens mais marcantes do dia do funeral de Karol Wojtyla, com o vento que esfolheava o Evangeliário sobre o seu caixão. Nesta imagem, afirmou, está a resposta do porquê este Papa foi tão amado, “pois toda a sua vida foi uma contínua obediência ao Evangelho de Jesus.

Citando o próprio João Paulo II, que dizia que os santos não devem ser aplaudidos, mas imitados, o Card. Comastri identificou alguns aspectos que devem servir hoje de inspiração a todos os católicos. O primeiro deles, a coragem que teve Wojtyla de defender a família, com inúmeros documentos, discursos e ações.

Depois, o Arcipreste ressaltou a luta em defesa da vida humana de João Paulo II, “numa época em que está se difundindo a cultura do descartável, como mais vezes se expressou o Papa Francisco. Sim, na atual penúria de amor, os mais fracos são descartados porque o egoísmo não os suporta, mas os sente como um peso. Fato terrível: sinal de uma regressão de civilidade”.

A fé corajosa de João Paulo II, ressaltou ainda o Cardeal, não parou aqui. O Papa polonês teve a coragem de defender a paz, enquanto sopravam ventos de guerra, como nas duas guerras do Golfo.

Teve a coragem também de ir ao encontro dos jovens “para libertá-los da cultura do vazio e do efêmero, e para convidá-los a acolher Cristo, única luz da vida. Os jovens de todo o mundo reconheceram em João Paulo II um verdadeiro pai, um guia autêntico, um educador leal”.

E a coragem de viver diante de todo o mundo a alegria de ser sacerdote, de pertencer a Cristo e de viver totalmente pela causa do seu Reino.

Por fim, João Paulo II teve a coragem de enfrentar “o inverno mariano” que caracterizou a primeira fase pós-conciliar.

O Card. Comastri então concluiu: “S. João Paulo II, reze pela Igreja que você tanto amou e impulsionou corajosamente na senda da fidelidade heroica a Jesus. São João Paulo reze por nós, para que unidos com o Papa Francisco formemos um só coração e uma só alma, para que o mundo creia”.

Já na saudação aos fiéis, o Arcebispo de Cracóvia, Card. Stanislao Dziwisz, definiu João Paulo II “filho da terra polonesa, o Papa da Divina Misericórdia" que, "que deu vida às decisões do Concílio e introduziu a Igreja no terceiro milênio da fé cristã”. O Card. Dziwisz, que durante 40 anos foi secretário de Karol Wojtyla, concluiu recordando que para o Papa polonês a Itália “se tornou uma segunda pátria. Hoje, certamente, João Paulo II a abençoa do alto, assim como abençoa a Polônia e o mundo inteiro. No seu coração, encontraram lugar todas as nações, as culturas e as línguas".

João XXIII tinha o dom de tornar as pessoas melhores

Dom Beschi: João XXIII tinha o dom de tornar as pessoas melhores


Cidade do Vaticano (RV) - Muitos fiéis de Bérgamo – norte da Itália – participaram na manhã desta segunda-feira, na igreja romana de "San Carlo al Corso" – onde o Papa Roncalli foi ordenado bispo –, da celebração eucarística em ação de graça pela Canonização de João XXIII.

A santa missa foi concelebrada pelo bispo de Bérgamo, Dom Francesco Beschi, e pelo arcebispo emérito de Milão, Cardeal Dionigi Tettamanzi.

João XXIII é Santo. "A proclamação deste dom diante da Igreja e do mundo alimenta a esperança que brota do Evangelho e daqueles que o testemunham de modo luminoso", disse Dom Beschi.

"Queremos acolher esse dom que é, em primeiro lugar, a consciência da riqueza, do tesouro de fé da terra em que ele nasceu. Um tesouro que, devemos reconhecer, se conservou, embora sintamos todo o compromisso de renovar e de alimentar essa fé. Além disso – acrescentou Dom Beschi –, um dom por demais precioso nos é dado pelos traços do Papa João XXIII, por essa sua capacidade de encontrar o coração de toda pessoa: cada pessoa que ele encontrou se sentiu reconhecida."

O bispo de Bérgamo ressaltou que o Papa Roncalli tinha o dom de fazer brotar, nas pessoas, as sementes da fraternidade e da solidariedade:

"O Papa Roncalli tinha o dom de suscitar a parte melhor de cada pessoa que entrasse em contato com a sua palavra, o seu gesto, o seu magistério. Ademais, parece-me absolutamente imperioso – no sentido que é um dever moral – colher a relação entre essa grande intuição espiritual do Papa João XXIII – docilidade ao Espírito Santo, como disse o Papa Francisco – e o Concílio. Portanto, falar sobre o Papa João XXIII significa também haurir continuamente dessa grande experiência de Igreja que traça o caminho para o futuro."

Durante a homilia Dom Beschi leu a mensagem que este domingo entregou ao Papa Francisco em resposta à que o Santo Padre dirigira à comunidade bergamasca, exortada a conservar a memória do terreno em que nasceu a santidade do Papa Roncalli, a acolher a mudança e a trilhar com convicção ao longo do caminho tra
Visualizar blogçado pelo Concílio.

Trata-se – explicou o prelado – de um convite que requer como resposta um autêntico testemunho:

"O convite é multíplice. Creio poder dizer que a comunidade bergamasca, também na história atual, esteja disposta a acolher esse convite. Trata-se, efetivamente, de não relegar esse fato somente à beleza da celebração, mas carregá-lo, depois, em nossa vida cotidiana. É o que desejo. Confio nisso com grande convicção."

Por sua vez, o Cardeal Tettamanzi recordou que a vocação à santidade interpela todo cristão:

"Demos graças ao Senhor por esta santidade que é uma riqueza para a Igreja e para a humanidade. Mas o verdadeiro problema é cada um de nós, que tem um desígnio grandioso da parte de Deus: o de tornar-nos todos santos. Transformaria a Igreja, porque seria mais evangélica. Mas transformaria também a nossa sociedade, no signo de uma maior solidariedade e justiça, com uma particular atenção para quem sofre." (RL)

Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/news/2014/04/28/dom_beschi:_jo%C3%A3o_xxiii_tinha_o_dom_de_tornar_as_pessoas_melhores/bra-794811
do site da Rádio Vaticano 

Carta ao papa Francisco



        José Antonio Pagola
      (Padre e Teólogo)
"Quase sem dar-nos conta, você está introduzindo no mundo a Boa Notícia de Jesus Cristo. Você está criando na Igreja um clima novo, mais evangélico e mais humano. Você está nos oferecendo o Espírito de Jesus Cristo...”

Querido irmão Francisco:
Desde que foste eleito para ser a humilde ‘Rocha’ sobre a qual Jesus quer continuar construindo hoje sua Igreja, acompanhei com atenção tuas palavras. Agora, acabo de chegar de Roma, onde pude te ver abraçando crianças, bendizendo enfermos e inválidos e saudando a multidão.
Dizem que és vizinho, simples, humilde, simpático... E não sei quantas coisas mais. Penso que há em você alguma coisa mais, muito mais. Pude ver a Praça de São Pedro e a Via dela Conciliazione cheias de gente entusiasmada. Não creio que essa multidão se sinta atraída somente por tua simplicidade e simpatia. Em poucos meses você se converteu em uma ‘boa notícia’ para a Igreja e, também, para além da Igreja. Por quê?
Quase sem dar-nos conta, você está introduzindo no mundo a Boa Notícia de Jesus Cristo. Você está criando na Igreja um clima novo, mais evangélico e mais humano. Você está nos oferecendo o Espírito de Jesus Cristo. Pessoas afastadas da fé cristã me dizem que as ajudas a confiar mais na vida e na bondade do ser humano. Alguns que vivem sem um caminho para Deus me confessam que acordou em seu interior uma pequena luz que os convida a revisar sua atitude frente ao mistério último da existência.
Eu sei que na Igreja precisamos de reformas muito profundas para corrigir desvios alimentados durante muitos séculos, porém, nestes últimos anos, foi crescendo dentro de mim uma convicção. Para que se possam realizar estas reformas, precisamos, previamente, de uma conversão num nível mais profundo e radical. Precisamos, sinceramente, voltar a Jesus, colocar as raízes de nosso cristianismo com mais verdade e mais fidelidade em sua pessoa, sua mensagem e seu projeto do Reino de Deus. Por isso, quero exprimir-te que é isso o que mais me atrai de seu serviço como Bispo de Roma neste começo de tua tarefa.
Eu te agradeço que abraces as crianças e as apertes ao teu peito. Estás nos ajudando a recuperar aquele gesto profético de Jesus, tão esquecido na Igreja, porém tão importante para entender o que esperava de seus seguidores. Segundo relatam os Evangelhos, Jesus chamou os doze, pôs uma criança no meio deles, o apertou entre seus braços e lhes disse: "O que acolhe a uma criança como esta em meu nome, está acolhendo a mim.”
Tínhamos esquecido que no centro da Igreja, atraindo a atenção de todos, devem estar sempre os pequenos, os mais frágeis e vulneráveis. É importante que estejas entre nós como ‘Rocha’ sobre a qual Jesus constrói sua Igreja, porém é tão importante ou mais que estejas em nosso meio abraçando os pequenos e bendizendo aos enfermos e os que não têm valor, para nos lembrar como acolher a Jesus. Este gesto me parece decisivo nestes momentos em que o mundo corre o risco de se desumanizar criando incompreensão com os últimos.
Eu te agradeço que nos chames de forma tão repetida a sair da Igreja para entrar na vida onde sofremos e nos alegramos, lutamos e trabalhamos: esse mundo onde Deus quer construir uma convivência mais humana, justa e solidária. Creio que a heresia mais grave e sutil que penetrou no cristianismo é de ter feito da Igreja o centro de tudo, afastando do horizonte o projeto do Reino de Deus.
João Paulo II nos lembrou que a igreja não é um fim em si mesma, mas somente ‘semente, sinal e instrumento do Reino de Deus’, porém suas palavras se perderam no meio de muitos outros discursos. Agora desperta em mim uma alegria grande quando nos chamas a sair da ‘autorreferência’ para caminhar em direção às ‘periferias existenciais’.
Aproveito sublinhando tuas palavras: "Devemos construir pontes, não muros para defender a fé”; precisamos de "uma igreja de portas abertas, não de controladores da fé”; "a igreja não cresce com o proselitismo, mas com a atração, o testemunho e a pregação”. Parece-me escutar a voz de Jesus que, do Vaticano, nos empurra: "Ide anunciar que o Reino de Deus está perto”, "ide e curai os enfermos”, "o que há recebido de graça, devolva-o de graça”.
Também te agradeço pelos teus apelos contínuos a converter-nos ao Evangelho. Como bem conhece à Igreja. Surpreende-me tua liberdade em dar nomes aos nossos pecados. Não o fazes com linguagem de moralista, mas com a força do Evangelho: as invejas, a ansiedade de fazer carreira e o desejo do dinheiro; "a desinformação, a difamação e a calúnia”; a arrogância e a hipocrisia clerical; "a espiritualidade mundana” e a "burguesia do espírito”; os "cristãos de salão”, os ‘crentes de museu’, os cristãos com ‘cara de funeral’. Preocupa-te muito ‘um sal sem sabor’, ‘um sal que não sabe de nada’, e nos chamas a sermos discípulos que aprendem a viver com o estilo de Jesus.
Não nos chamas só a uma conversão individual. Empurra-nos a uma renovação eclesial, estrutural. Não estamos acostumados a escutar essa linguagem. Surdos ao chamado renovador do Vaticano II, esquecemos que Jesus convidava seus seguidores a ‘por o vinho novo em odres novos’. Por isso, me enche de esperança tua homilia da festa de Pentecostes: "A novidade nos da sempre um pouco de medo porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós os que constroem, programamos e planificamos nossa vida segundo nossos esquemas, seguranças e gostos... Temos medo que Deus nos leve por caminhos novos, nos tire de nossos horizontes, muitas vezes bem limitados, fechados, egoístas, para abrir-nos aos seus”.
Por isso nos pedes que nos perguntemos sinceramente: "Estamos abertos às surpresas de Deus ou nos fechamos com medo às novidades do Espírito Santo? Estamos decididos a percorrer os novos caminhos que a novidade de Deus nos apresenta ou nos entrincheiramos em estruturas caducas que perderam a capacidade de dar respostas?” Tua mensagem e teu espírito estão anunciando um futuro novo para a Igreja.
Quero terminar estas linhas expressando-te humildemente um desejo. Talvez não poderás fazer grandes reformas, porém podes dar um impulso à renovação evangélica em toda a Igreja. Com certeza podes tomar as medidas oportunas para que os futuros bispos das dioceses do mundo inteiro tenham um perfil e um estilo pastoral capaz de promover esta conversão a Jesus que tu queres encorajar desde Roma.
Francisco, és um presente de Deus. Obrigado!
via internet

domingo, 27 de abril de 2014

João XXIII e João Paulo II agora santos

Francisco e Bento XVI se cumprimentam na praça de São Pedro. Quase um milhão de pessoas em Roma testemunhas da canonização
Por Rocio Lancho García

ROMA, 27 de Abril de 2014 (Zenit.org) -
 Com a alegria que caracteriza uma celebração importante como a de hoje, concluiu-se a missa em que Francisco canonizou os seus antecessores, agora sim, São João XXIII e São João Paulo II. Umas 800.000 pessoas - 500.000 na praça, Via da Conciliação e em outras partes, e o resto em outros pontos da cidade – celebraram em Roma esta festa da fé.
A celebração vai entrar para a história como "o dia dos quatro papas" começou por volta das 9 da manhã, com orações em preparação para a Eucaristia, que começou às 10h. Na chegada do Papa Francisco o mundo testemunhou um dos momentos mais esperados do dia, a saudação entre o Santo Padre e o papa emérito. Emoção e aplausos na entrada de Bento XVI na praça, que chegou às 9h30 acompanhado por monsenhor Ganswein, seu secretário pessoal e prefeito da Casa Pontifícia.
A canonização ocorreu no início da celebração eucarística, quando o cardeal Amato perguntou três vezes ao Santo Padre se procedia. Com a fórmula estabelecida, Francisco canonizou João XXIII e João Paulo II. Em seguida Francisco beijou e venerou as relíquias. Os relicários dos novos santos foram colocados em uma mesa à esquerda do altar. Ambas relíquias são de primeiro grau: a relíquia do “Papa Bom” é um pedaço de péle, tirado no ano 2000 na exumação para a beatificação e do Papa Wojtyla uma gotas do seu sangue.
Ao finalizar o rito de canonização, o Cardeal Amato fez um agradecimento e retomou a missa no Gloria. O Evangelho do dia, foi cantado em latim e grego. De outras confissões religiosas, haviam ortodoxos, anglicanos e judeus.
A celebração eucarística foi presidida pelo Santo Padre e concelebrada por uns 150 cardeais e uns 1000 bispos, todos eles à esquerda do altar. Também nessa área, porém mais abaixo do átrio, havia uns 6000 sacerdotes. No altar, junto ao Santo Padre, concelebraram o cardeal Vallini, o cardeal Stanislaw, monsenhor Francisco Beschi, o cardeal Re e o cardeal Sodano.
Na homilia, o Santo Padre indicou que “João XXIII e João Paulo II tiveram a coragem de olhar as feridas de Jesus, de tocas as suas mãos chagadas e o seu lado transpassado. Não se envergonharam da carne de Cristo, não se escandalizaram dele, da sua cruz; não se envergonharam da carne do irmão, porque em cada pessoa que sofria viam Jesus”. Reconheceu que “foram dois homens corajosos, cheios de parresia do Espírito Santo, e deram testemunho perante a Igreja e o mundo da bondade de Deus, da sua misericórdia".
Da mesma forma afirmou que “foram sacerdotes, bispos e papas do século XX. Conheceram as suas tragédias, mas não se oprimiram. Neles, Deus foi mais forte”.
João XXIII e João Paulo II – observou o Pontífice – “colaboraram com o Espírito Santo para restaurar e atualizar a Igreja segundo a sua fisionomia original, a fisionomia que lhe deram os santos ao longo dos séculos. Não esqueçamos que são precisamente os santos que levam adiante e fazem crescer a Igreja”.
Por outro lado, destacou que “são João XXIII demonstrou uma delicada docilidade ao Espírito Santo” e “João Paulo II foi o Papa da família”.
Seis mil sacerdotes distribuíram a comunhão aos fieis que estavam na Praça de São Pedro e na Praça Pio XII, 70 diáconos para dar a comunhão aos concelebrantes e finalmente 200 diáconos para os fieis que estavam na Via da Conciliação. E também chegou a comunhão ao Media Center do Vaticano, onde chegaram alguns sacerdotes para os jornalistas que quisessem pudessem comungar.
A missa terminou com a oração do Regina Coeli. Na introdução à oração mariana, o Papa agradeceu a todos aqueles que tornaram possível a realização deste dia, incluindo os meios de comunicação, graças aos quais muita gente pôde acompanhar a celebração.
Em seguida, o Santo Padre começou a cumprimentar as delegações presentes no átrio. Haviam 120 delegações procedente de todo o mundo que quiseram participar hoje na canonização. De todos eles, havia 24 entre reis e chefes de Estado, e 10 chefes de governo. Enquanto o Papa cumprimentava os membros das delegações, se escutava música e cantos. Entre eles, a canção do jovem ítalo-argentino Odino Faccia, intitulada “Busca a Paz”, um reflexo de um poema de João Paulo II.
Às 12h45 Francisco subiu no Papamóvel, o que causou os aplausos dos peregrinos já que sabiam que o momento de vê-lo passar perto estava se aproximando. Enquanto isso os sinos da Basílica tocaram para recordar que hoje a Igreja está em festa, porque dois grandes pontífices subiram aos altares e agora os fieis podem venerá-los como santos.
O acesso à Basílica estará aberto a partir das 14h para a veneração dos túmulos dos novos santos. Por esta razão, hoje a Basílica de São Pedro permanecerá aberta até às 22h.

Francisco: João XXIII e João Paulo II colaboraram com o Espírito Santo para restaurar e atualizar a Igreja



Texto completo da homilia do Santo Padre na missa de canonização de João XXIII e de João Paulo II
Por Redacao

ROMA, 27 de Abril de 2014 (Zenit.org) -
No centro deste domingo, que encerra a Oitava de Páscoa e que São João Paulo II quis dedicar à Misericórdia Divina, encontramosas chagas gloriosas de Jesus ressuscitado.
Já as mostrara quando apareceu pela primeira vez aos Apóstolos, ao anoitecer do dia depois do sábado, o dia da Ressurreição. Mas, naquela noite – como ouvimos –, Tomé não estava; e quando os outros lhe disseram que tinham visto o Senhor, respondeu que, se não visse e tocasse aquelas feridas, não acreditaria. Oito dias depois, Jesus apareceu de novo no meio dos discípulos, no Cenáculo, encontrando-se presente também Tomé; dirigindo-Se a ele, convidou-o a tocar as suas chagas. E então aquele homem sincero, aquele homem habituado a verificar tudo pessoalmente, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28).
Se as chagas de Jesus podem ser de escândalo para a fé, são também a verificação da fé. Por isso, no corpo de Cristo ressuscitado, as chagas não desaparecem, continuam, porque aquelas chagas são o sinal permanente do amor de Deus por nós, sendo indispensáveis para crer em Deus: não para crer que Deus existe, mas sim que Deus é amor, misericórdia, fidelidade. Citando Isaías, São Pedro escreve aos cristãos: «pelas suas chagas, fostes curados» (1 Ped 2, 24; cf. Is 53, 5).
São João XXIII e SãoJoão Paulo II tiveram a coragem de contemplar as feridas de Jesus, tocar as suas mãos chagadas e o seu lado trespassado. Não tiveram vergonha da carne de Cristo, não se escandalizaram d’Ele, da sua cruz; não tiveram vergonha da carne do irmão (cf. Is 58, 7), porque em cada pessoa atribulada viam Jesus. Foram dois homens corajosos, cheios da parresia do Espírito Santo, e deram testemunho da bondade de Deus, da sua misericórdia, à Igreja e ao mundo.
Foram sacerdotes, bispos e papas do século XX. Conheceram as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas. Mais forte, neles, era Deus; mais forte era a fé em Jesus Cristo, Redentor do homem e Senhor da história; mais forte, neles, era a misericórdia de Deus que se manifesta nestas cinco chagas; mais forte era a proximidade materna de Maria.
Nestes dois homens contemplativos das chagas de Cristo e testemunhas da sua misericórdia, habitava «uma esperança viva», juntamente com «uma alegria indescritível e irradiante» (1 Ped 1, 3.8). A esperança e a alegria que Cristo ressuscitado dá aos seus discípulos, e de que nada e ninguém os pode privar. A esperança e a alegria pascais, passadas pelo crisol do despojamento, do aniquilamento, da proximidade aos pecadores levada até ao extremo, até à náusea pela amargura daquele cálice. Estas são a esperança e a alegria que os dois santos Papas receberam como dom do Senhor ressuscitado, tendo-as, por sua vez, doado em abundância ao Povo de Deus, recebendo sua eterna gratidão.
Esta esperança e esta alegria respiravam-se na primeira comunidade dos crentes, em Jerusalém, de que falam os Actos dos Apóstolos (cf. 2, 42-47), que ouvimos na segunda Leitura. É uma comunidade onde se viveo essencial do Evangelho, isto é, o amor, a misericórdia, com simplicidade e fraternidade.
E esta é a imagem de Igreja que o Concílio Vaticano II teve diante de si.João XXIII e João Paulo II colaboraram com o Espírito Santo para restabelecer e actualizar a Igreja segundo a sua fisionomia originária, a fisionomia que lhe deram os santos ao longo dos séculos. Não esqueçamos que são precisamente os santos que levam avante e fazem crescer a Igreja. Na convocação do Concílio,São João XXIII demonstrou uma delicada docilidade ao Espírito Santo, deixou-se conduzir e foi para a Igreja um pastor, um guia-guiado, guiado pelo Espírito. Este foi o seu grande serviço à Igreja; por isso gosto de pensar nele como o Papa da docilidade ao Espírito Santo.
Neste serviço ao Povo de Deus, São João Paulo II foi o Papa da família. Ele mesmo disse uma vez que assim gostaria de ser lembrado: como o Papa da família. Apraz-me sublinhá-lo no momento em que estamos a viver um caminho sinodal sobre a família e com as famílias, um caminho que ele seguramente acompanha e sustenta do Céu.
Que estes doisnovos santos Pastores do Povode Deus intercedam pela Igreja para que, durante estes doisanos de caminho sinodal, seja dócilao Espírito Santono serviço pastoral à família. Que ambos nos ensinem a não nos escandalizarmos das chagas de Cristo, a penetrarmos no mistério da misericórdia divina que sempre espera, sempre perdoa, porque sempre ama.