quinta-feira, 2 de abril de 2015

O Lava-Pés e São Francisco de Assis


Por Dom Aloísio A. Dilli Ofm 
Bispo de Uruguaiana
02/04/2015
Ao escrever a tese de mestrado, em Liturgia, sobre o Rito do Lava-Pés, estudando sua origem, evolução e teologia-litúrgica, foi possível dar-se conta da complexidade, mas também da profunda riqueza do tema. Além de já estar presente no mundo cultural bíblico-judaico, como rito de acolhida e de hospitalidade, o Lava-Pés recebeu novo sentido com o gesto de Jesus, na Quinta-feira Santa; e através da história, tanto em âmbito litúrgico como extra-litúrgico (monástico), são muitas as interpretações dadas ao rito. Variam também os modos, contextos, freqüências de realizá-lo, dependendo da interpretação, do lugar e da época.
Através do título, acima colocado, queremos ocupar-nos mais com o sentido do Lava-Pés na Sagrada Escritura, especialmente o de Jesus, no contexto da véspera de sua Paixão (Jo 13, 1-17), e relacioná-lo com S. Francisco de Assis e sua espiritualidade. Para tal, teremos que tecer rápidos traços históricos do rito e analisar significados que recebeu. Assim, poderemos entender melhor as poucas, mas significativas, referências do Santo ao Lava-Pés e o sentido que lhe atribuiu.

O sentido do Lava-Pés de Jesus e S. Francisco (Jo 13, 1-17)
A maioria dos exegetas vê no Lava-Pés um gesto de humildade [Katábasis: Katá = de cima de(descer) e basis = base (plano do pé)], de esvaziamento (Kénosis) em que Jesus, chegada “sua hora”, simbolizou e prefigurou a entrega total com a morte na cruz: o extremo ato de amor e obediência ao Pai : ...esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo... tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz!” (Flp 2, 6-8). Havia chegado “sua hora” (Kairós), em que Jesus fez uma opção livre, ou seja, dar a vida: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10). É “a hora” qualitativa, não cronológica (Krónos), do amor extremo (cf. Jo 13, 1), do serviço máximo (Leitourgía = serviço público, para todos), do despojamento total para salvar a humanidade. Ele mesmo é o Cordeiro da nova Páscoa, a ser imolado no altar da cruz.
O Lava-Pés, portanto, pode ser visto como um “Seméion” (sinal) joanino, ato simbólico que demonstra o que está para acontecer: sua entrega total = morte na cruz.
Certamente, descobrimos, dentro desta contextualização, porque S. Francisco escolheu o Evangelho do Lava-Pés para ser lido na hora de sua morte e porque pediu para ser colocado nu sobre a terra nua, despojado, pobre, sem nada nas mãos, a não ser as chagas do Crucificado... Havia aprendido do Evangelho a ser menor e estar em tudo no seguimento do Cristo pobre, humilde e crucificado. Nos Mistérios da Encarnação (Presépio) , da Cruz (chagas) e da Eucaristia, os que mais contemplou em sua vida, descobriu o amor de Deus que se fez pequeno, humilde, solidário, próximo, para realizar sua missão que possibilitou a nossa comunhão com a vida divina. É o que fez o Santo exclamar: “O amor não é amado” (ou expressões semelhantes) e não cansou de anunciar a todos a infinita misericórdia de Deus, que se fez servo, que lavou os pés dos discípulos... Francisco também quis ser menor, pobre, despojado até o fim, por palavras e obras.
O Lava-Pés no contexto dos Mistérios da Quinta-Feira Santa e a morte de S.Francisco
Já percebemos acima, que o Lava-Pés de Jesus não foi um ato isolado, mas fez parte do contexto da “sua hora”, da hora do amor máximo pela nossa redenção. O ambiente da Quinta-feira Santa, véspera da morte na cruz, foi de despedida, de deixar o essencial, o testamento: o mandamento do amor = dar a vida: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos (Jo 15, 13). Jesus falou e o tornou real no dia seguinte. Quando havia chegado “sua hora”, na véspera, no contexto da Ceia pascal, Jesus realizou o Lava-Pés e instituiu a Eucaristia(Sacerdócio). Ambos indicam para o dia seguinte e relacionam-se com o dar a vida por amor (serviço, caridade); fazem parte do mesmo Mistério. Ambos, embora de modo diverso, indicam profeticamente para a Cruz da Sexta-feira Santa , que se tornará sinal de vida, de vitória, na ressurreição. O Lava-Pés é um gesto simbólico-profético, explicativo, catequético da cruz e da própria Eucaristia (Sacerdócio), que torna presente o Sacrifício da cruz. A Eucaristia (Sacerdócio) é mais do que gesto explicativo: é a presença do próprio Mistério, ou seja, é a antecipação sacramental da Morte-Ressurreição de Jesus: “Isto é o meu Corpo que será entregue por vós... Este é o cálice do meu Sangue... que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados”. E o próprio Sacerdócio também é entendido como serviço que atua, torna presente o Mistério pascal.
É admirável a unidade teológica dos últimos gestos de Jesus, na véspera de sua paixão e morte: o Lava-Pés (Mandamento novo), a Eucaristia, o Sacerdócio indicam profeticamente na mesma direção. E S. Francisco bebeu profundamente desse cálice e quis, também no final de sua vida, “seguir” o Senhor. É dentro deste contexto que devemos ler seus últimos pedidos e gestos: nusobre a terra, leitura do Evangelho do lava-pés, oração do Salmo 142 (141), bênção do pão a ser distribuído, inclusive os estigmas, os quais depois de sua morte se tornaram conhecidos. O Santo de Assis percebeu a unidade dos acontecimentos da Quinta-feira Santa e os quis evocar, celebrar, tornar presente no momento de “sua hora”, do seu passar deste mundo ao Pai. Para quem seguiu o Senhor, tão de perto, tentando identificar-se em tudo com ele, os Mistérios da Encarnação, da Eucaristia (Sacerdócio), da Cruz, do Lava-Pés e Mandamento novo se encontram e formam unidade: Deus é amor = dá a vida. Francisco também a entrega e a chama de “irmã” (cf. Cântico do Irmão Sol, in FFC, o. c., pp. 104-105, n.12).

  • Evolução Bíblica e Litúrgica do Rito do Lava-Pés e o tempo de S. Francisco
Francisco foi um homem inserido no seu tempo, enriquecendo-o com seu carisma, recebido como dom do Espírito, para responder, com valores do Evangelho, a necessidades do seu tempo. Sentiu-se profundamente ligado à Sagrada Escritura e à Liturgia da Igreja, através da qual, sobretudo, encontrou-se com a primeira. Portanto, o Poverello conheceu o uso litúrgico e extra-litúrgico, assim como o sentido do Lava-Pés, difundido na passagem do séc. XII-XIII. O rito, para chegar ao tempo de S. Francisco, já havia percorrido um longo caminho bíblico-cultural, litúrgico, extra-litúrgico e teológico. Vejamos um pouco dessa evolução.
1.Síntese histórica do Rito do Lava-Pés

O Lava-Pés, além de Jo 13, 1-17, é citado várias vezes na Sagrada Escritura. Destacaremos apenas os textos mais importantes. Faremos também rápidas considerações sobre o rito na era patrística, no monaquismo e na Liturgia oficial da Igreja, até o séc. XIII.
  • Gn 18, 4: O Lava-Pés aparece como primeiro e elementar dever de hospitalidade oriental; serviço que competia, normalmente, aos escravos não-judeus. A esposa também podia lavar os pés do esposo; os filhos ao pai e os discípulos ao mestre. Sempre o inferior ao superior. Jesus inverte esta ordem social, cultural, em vista da igualdade, da fraternidade, como já vimos, anteriormente.

  • 1Tim 5, 10: ...a mulher só será aceita no grupo das viúvas... se tiver sido hospitaleira, lavado os pés dos fiéis”. Trata-se, aqui, de um gesto de acolhida, de humilde serviço de hospitalidade, de caridade aos peregrinos cristãos e, sobretudo, aos missionários itinerantes (cf. Rm 10, 15). Portanto, já com novo sentido, a partir de Jesus Cristo. Este texto terá muita influência na era patrística e nos ritos litúrgicos do primeiro Milênio.
  • Era Patrística: Interpretou-se o Lava-Pés, sobretudo, como gesto de caridade (cf. 1Tim 5, 10). Mas, a partir de Jo 13, 10 (texto longo: “...quem tomou banho não tem necessidade de lavar-se, senão os pés, pois está totalmente puro”), aos poucos, deu-se chance a novas interpretações, acrescentando-o junto ao rito do batismo, ou até confundindo-o com o mesmo, dando-lhe caráter sacramental que apaga pecados (purificação: banho = batismo ; lava-pés = perdão dos pecados).

  • Monaquismo: Inicialmente, o Lava-Pés foi feito a todos os hóspedes. Com o crescimento dos Mosteiros e a ligação com o mundo civil (séc. IX), esse “Mandatum Ospitum” (Mandato dos Hóspedes) cedeu lugar ao “Mandatum Pauperum Quotidianum” (Mandato Cotidiano dos Pobres), e deste, mais tarde, chegou-se ao “Mandatum Pauperum in Cena Domini (Mandato dos Pobres na Quinta-feira Santa).
            Do “Mandatum Fratrum” (Mandato dos Irmãos), diário ou semanal, nos Mosteiros, se passa ao “Mandatum Fratrum in Cena Domini” (Mandato dos Irmãos na Quinta-feira Santa).
  • Liturgia Oficial: Os costumes monacais passaram a ser assumidos pelaLiturgia das Catedrais e, aos poucos, recebem relativa uniformização nas diversas Igrejas locais, através dos Pontificais romanos(Livros usados pelo Papa e pelos Bispos). Há uma influência recíproca entre o oficial romano e o local.

Duas tendências interpretativas se destacam:
- Gesto de caridade, de amor: Mandato do Senhor.
- Purificação dos pecados: Presença, durante a realização do rito, de salmos penitenciais, do ósculo da paz e do perdão e de orações, especialmente, da oração “Adesto, domine...” , que surgiu no séc. VIII e permaneceu até às vésperas do Vaticano II.
Percebemos, assim, que referir-se ao Lava-Pés não é privilégio só de S. Francisco. No seu tempo o rito era muito conhecido, com formas e interpretações diversificadas, tanto nos Mosteiros (entre os monges, aos peregrinos, aos pobres...) como na Liturgia oficial, nesta época, já mais sóbria e formal, com tendência a solenizar-se e a perder o rico sentido de serviço humilde (Katábasis). Mas o que nos interessa, no momento, é o sentido que Francisco dá ao Lava-Pés.
2. O sentido do Lava-pés nos escritos de S.Francisco
Surpreende-nos que Francisco, em seus Escritos, não tenha feito nenhuma recomendação direta, solicitando o rito sistemático do Lava-Pés entre os frades e dos frades para os outros. Seria porque não é tão importante o rito repetitivo, como tal (ritualismo), mas sim o seu sentido e a concretização do significado na minoridade – todos irmãos menores – e no serviço humilde, pobre, aos crucificados de seu tempo (os confrades doentes, os pobres, os leprosos...) ? .
            Vejamos os dois textos em que S. Francisco fez referência direta ao Lava-Pés:
  • ‘Não vim para ser servido, mas para servir’ (cf. Mt 20, 28), diz o Senhor. Aqueles que foram constituídos acima dos outros se vangloriem tanto deste ofício de prelado como se tivessem sido destinados para o ofício de lavar os pés dos irmãos. E se mais se perturbam por causa do ofício de prelado que lhes foi tirado do que por causa do ofício de lavar os pés, tanto mais ajuntam para si bolsas para perigo da alma (Adm 4, in FFC, o. c., p. 98).

  • E ninguém se denomine prior, mas todos, sem exceção, sejam chamados de irmãos menores. E um lave os pés do outro (cf. Jo 13, 14)” (RnB VI, 3-4, in FFC, p. 170).
Os dois textos não precisam ser analisados separadamente, pois ambos relacionam o sentido do Lava-Pés com o serviço humilde, a minoridade e a vida fraterna: todos sejam “irmãos menores”, e ninguém receba o título de “prior”. Vivam como Irmãos, sem que uns se considerem mais do que os outros, mesmo na função de Ministros, pois estes “sejam servos de todos os irmãos” (RB X, 6). O “ser constituído acima dos outros” seja um serviço humilde, como o Lava-Pés . Do contrário, vai-se contra a pobreza e o “ser servo” do Evangelho, pois o Senhor não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos (cf. Mt 20, 28).
Dois elementos importantes se destacam nos textos de S. Francisco:
  • O serviço humilde (Katábasis, minoridade)
  • O ser fraterno (Mandamento novo).

Chama-nos atenção que Francisco não se deixou contagiar com outras interpretações do Lava-Pés, surgidas através da história, como a purificação, o perdão dos pecados, o pedido de misericórdia, e outros... Ele fica com o essencial: aquilo que claramente o Evangelho revela, sem glosas.
CONCLUSÃO
Mesmo com poucas referências diretas de S. Francisco ao Lava-Pés, podemos concluir que ele, assim como a maioria dos exegetas do nosso tempo, vê no Lava-Pés de Jesus um gesto simbólico, um “semeion” joanino que significa Katábasis – Kénosis = abaixamento, esvaziamento, humildade, pobreza, encarnação(presépio), minoridade (irmãos menores), serviço(ministros e servos)... e que indica para o amor máximo, para a doação total da vida na Cruz redentora, do dia seguinte, que se tornará a “árvore da vida” nova. A Eucaristia (Sacerdócio), de forma sacramental, converge para a mesma direção, pois antecipa, torna presente o Mistério pascal.Lava-Pés e Eucaristia(Sacerdócio), embora de modos diferentes, fazem parte do mesmo Mistério.
Assim entendendo o Lava-Pés, o Santo de Assis, ao chegar “sua hora”, a sua morte, quer ouvir exatamente esse Evangelho de S. João (cf. Jo 13, 1ss.) e ser colocado nu sobre a terra nua, despojado e pobre de tudo, como o Senhor na cruz. Une o Lava-Pés e a morte de Jesus com a sua. Em tudo quer seguir o seu Senhor, até o fim.
As duas frases de seus Escritos, citadas anteriormente, retomam as conseqüências dessa rica espiritualidade e a concretizam no ser menor e no ser irmão, nas relações dentro e para fora desse gênero de vida. Os Ministros são servos, como quem lava os pés dos outros. Ninguém é “prior”, “superior”. Todos são, indistintamente, “irmãos menores”.
Percebe-se que Francisco não se preocupa muito com o rito como tal, ou com o modo e freqüência de realizá-lo, mas com o sentido original, que vem do próprio Evangelho, aquele que manda (Mandatum) realizar o serviço humilde de lavar os pés uns dos outros, ou seja, amar e servir solidariamente como menores entre os menores.

ORAÇÃO
Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor.
Vós sois todo-poderoso, sobretudo na gratuidade de vossa misericórdia, 
manifestada na plenitude dos tempos, por vosso Filho Jesus Cristo.
Ele, para conduzir-nos à comunhão do vosso amor, assumiu nossa condição humana: tornando-se criança no presépio, pois ‘nasceu por nós no caminho’; priorizando os pequenos e sofredores, em sua missão evangelizadora e, chegada ‘a sua hora’, se fez servo humilde no gesto simbólico do lava-pés e entregou-se em comunhão sacramental na Eucaristia, prefigurando por ambos o amor total da morte na cruz, a ‘árvore da vida’.
Fazei que nós, iluminados/as pelo ‘Espírito e seu santo modo de operar’, aprendamos a seguir, na minoridade, o exemplo de vosso Filho Jesus Cristo, pobre, humilde e crucificado, para sermos sinais de esperança e vida entre os menores de nosso tempo.
Pelo mesmo Cristo, nosso Senhor. Amém.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Arte de escutar



Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)

A capacidade de escutar, além de ser uma arte, é uma importante virtude, muito necessária para os novos tempos. Hoje falamos mais do que escutamos, principalmente ao que não nos interessa, mas nos compromete e exige atitudes sinceras de doação e desprendimento. Por isso, muitos não querem ouvir a Palavra de Deus, porque ela implica postura de justiça e honestidade.

É inadmissível, entre pessoas que falam e escutam, que criam diálogo fraterno, mesmo tenso, acontecer ameaça à vida. O diálogo deve ser construtor de relacionamento saudável e não um artífice e motivo de morte. Não podemos concordar e nem aceitar sacrifícios humanos, muito mais sem motivos que sejam realmente justificáveis, como é o caso de uma defesa da própria vida.
Temos que abrir os ouvidos para escutar e colocar em prática os princípios anunciados pelos textos da Palavra de Deus. Ali encontramos o necessário para construir uma vida de respeito, de paz, de esperança e de humanização da nova cultura. Temos assistido práticas abomináveis de desrespeito à vida humana, indicando que não respeitamos mais as pessoas como dons de Deus.
O diálogo precisa construir verdadeira humanidade. Parece que temos facilidade de ouvir as notícias televisivas, músicas, discursos diversos, mas não conseguimos escutar o outro. Uma multidão de ruídos povoa nossos ouvidos e nos impede de ouvir atentamente as necessidades dos irmãos e irmãs.
Está muito claro que somos consumidores de ruídos e, não ouvindo os sons da fraternidade, tornamo-nos escravos de nós mesmos. É a cultura da falta de tempo, porque não conseguimos priorizar aquilo que é mais importante e cedemo-nos ao irrisório, que massifica e dificulta atitudes de maior comprometimento.
Não podemos viver numa situação de neutralidade na vida social. O cristão, em meio aos conflitos emergentes, tem que ter posturas de solidariedade e de transfigurar as atitudes. Seu espaço é o cotidiano da vida, é a convivência com todos que o redeiam, sendo instrumento de transformação das pessoas que não conseguem vivenciar a fraternidade tão necessária para construir uma vida feliz.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Fortalecei os vossos corações

 

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz

Bispo de Campos (RJ)

Com este versículo da Carta de Tiago Apóstolo, o Papa Francisco nos apresenta a sua mensagem para o tempo da Quaresma. Tempo favorável de graça que nos leva a experimentar o amor de Deus por nós, porque Ele nos amou primeiro (1 Jo. 4,19). Esse amor nos desinstala e nos faz superar a atitude egoísta da indiferença.

Hoje o mundo está submergido na globalização da indiferença que nos torna complacentes e cúmplices com as injustiças e atentados contra os pobres e as pessoas mais frágeis. A Quaresma nos lembra que "se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros, (1 Cor. 12,26) ".
Neste percurso espiritual da Quaresma somos revestidos da bondade e misericórdia divinas, que nos impele para o serviço gratuito e desprendido do lava-pés. Cristo nos ensina a servir para sermos e vivermos a comunhão dos santos, partilhando os dons e participando como Corpo de Cristo da ternura fraterna da comunidade cristã, tratando de incluir e alcançar a todos/as. Esta solicitude nos conduz a deixarmo-nos interpelar pela Palavra: " onde está teu irmão? (Gn. 4,9)."
Devemos concretizar este amor-comunhão em todas as comunidades, unindo-nos com toda Igreja através da oração e da intercessão dos santos, pois eles nos incentivam e lutam conosco. Mas esta caridade operante e eficaz nos põe em relação com toda a sociedade circundante que deve ser atingida e envolvida por este amor transformante, fazendo emergir uma humanidade nova mergulhada na Páscoa de Jesus Ressuscitado.
Por isso na Quaresma queremos atender este apelo do Apóstolo Tiago: "Fortalecei os vossos corações" (Tg. 5,8). Sim, porque com um coração forte e renovado podemos desenvolver o poder da oração da comunhão eclesial colocando na prática a proposta das 24 horas para o Senhor a ser realizada nos dias 13 e 14 de março em todas as Dioceses do mundo.
Também poderemos com gestos caritativos e solidários abraçar de modo concreto e pessoal aos irmãos necessitados. Finamente o tornar-se próximo do sofrimento nos seus diversos rostos nos levará a conversão de vida, pois reconheceremos a nossa fragilidade, a nossa dependência do Pai e a necessidade da graça salvadora.
Que consigamos percorrer esta estrada com um coração que se deixa impregnar pelo Espírito e nos abre aos caminhos do amor que liberta e nos faz servir aos irmãos e irmãs, gastando-nos e entregando-nos totalmente pelo outro que sofre na miséria e na pobreza. Deus seja louvado!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2015

            Caros diocesanos. Vivemos um tempo especial do Ano Litúrgico. Depois das celebrações natalinas - em que tornamos mais presente o mistério da Encarnação de Jesus Cristo - agora nós já estamos vivendo a Quaresma. Este tempo litúrgico, com características de penitência e conversão de vida, foi introduzido, já no IV século da era cristã, com o objetivo de preparar bem a celebração da Páscoa. Para nós brasileiros, desde 1964, estamos acostumados a viver neste tempo a Campanha da Fraternidade. É a forma original, brasileira, de viver o mandamento da caridade, do amor ao próximo. A partir do centro do Evangelho, nós queremos fazer a campanha de sermos mais Irmãos, ou seja, uma campanha de fraternidade. A palavra “frater”, proveniente do latim, significa “irmão”. É a retomada de consciência do que aconteceu no Batismo: tornamo-nos irmãos e irmãs, em Jesus Cristo, filhos e filhas do mesmo Pai. Na Campanha da Fraternidade, em todos os anos, a Igreja do Brasil, através da Conferência Nacional dos Bispos, nos aponta para um dos aspectos concretos da nossa relação fraterna. Em 2015, o tema central é: Igreja e Sociedade, com o lema bíblico: “Eu vim para servir” (cf. Mc 10, 45). Somos convidados a refletir, meditar, rezar e agir a partir desta relação. O texto-base da Campanha da Fraternidade 2015 propõe o seguinte objetivo a ser alcançado: “Aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus” (Texto-Base, n. 13). 

O próprio Filho de Deus encarnou-se na realidade concreta de seu tempo, assumindo e vivendo a cultura de seu povo, participando ativamente na solução dos problemas e injustiças daquela época, propondo novo modo de viver. Com suas ações, mostrou como deveria ser a vida dos homens e mulheres no Reino de Deus, dando preferência aos marginalizados (cf. Texto-Base, n. 127). Inspirada no Evangelho, a Igreja tentou viver a relação Igreja-Estado através dos tempos, prestando os mais diversos serviços, com a finalidade última de edificar o Reino de Deus neste mundo. 
Hoje vivemos tempos de Estados laicos e, segundo a doutrina da laicidade, os mesmos não optam por uma determinada religião. Não cabe também à Igreja definir e determinar os destinos de uma sociedade, pois sua missão não é de cunho propriamente político, econômico ou social, mas lhe compete o direito de manifestações e intervenção, com a exposição de suas doutrinas e posicionamentos éticos. Inspirada em Jesus Cristo e seu modo de servir, a participação da Igreja se caracteriza em prol dos valores da vida, da dignidade das pessoas, do bem comum e da justiça social. Estes são, portanto, os critérios a partir dos quais a Igreja discerne a oportunidade e o estilo de seu diálogo e de sua colaboração com a sociedade. Convém ainda frisar que a Igreja respeita a laicidade, mas repudia o laicismo, que se caracteriza pelo preconceito contra tudo o que tem a ver com religião (cf. Texto-Base, nn. 100-101 e 226).

O lema: “Eu vim para servir” remete ao Cristo servo, Aquele que nasceu numa gruta, que lavou os pés dos apóstolos, que se doou na cruz para que todos tivessem vida... Os discípulos não podem ser diferentes (cf. Mc 10, 43-45), pois o cristão é chamado a servir como o Mestre. 

Ao concluir, convidamos todos para refletir, neste tempo quaresmal e de Campanha da Fraternidade, sobre as sábias palavras do Concílio Vaticano II: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1).

Papa envia mensagem aos brasileiros por ocasião da Campanha da Fraternidade

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Francisco convida a examinar a consciência sobre o compromisso concreto de cada um na construção de uma sociedade mais justa
Por Redacao
CIDADE DO VATICANO, 18 de Fevereiro de 2015 (Zenit.org) - 
 Queridos irmãos e irmãs do Brasil!
Aproxima-se a Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa: tempo de penitência, oração e caridade, tempo de renovar nossas vidas, identificando-nos com Jesus através da sua entrega generosa aos irmãos, sobretudo aos mais necessitados. Neste ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, inspirando-se nas palavras d’Ele «O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos» (Mc 10,45), propõe como tema de sua habitual Campanha «Fraternidade: Igreja e Sociedade».
De fato a Igreja, enquanto «comunidade congregada por aqueles que, crendo, voltam o seu olhar a Jesus, autor da salvação e princípio da unidade» (Const. Dogmática Lumen gentium, 3), não pode ser indiferente às necessidades daqueles que estão ao seu redor, pois, «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo» (Const. PastoralGaudium et spes, 1). Mas, o que fazer? Durante os quarenta dias em que Deus chama o seu povo à conversão, a Campanha da Fraternidade quer ajudar a aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a Sociedade - propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II - como serviço de edificação do Reino de Deus, no coração e na vida do povo brasileiro.
A contribuição da Igreja, no respeito pela laicidade do Estado (cfr. Idem, 76) e sem esquecer a autonomia das realidades terrenas (cfr. Idem, 36), encontra forma concreta na sua Doutrina Social, com a qual quer «assumir evangelicamente e a partir da perspectiva do Reino as tarefas prioritárias que contribuem para a dignificação do ser humano e a trabalhar junto com os demais cidadãos e instituições para o bem do ser humano» (Documento de Aparecida, 384). Isso não é uma tarefa exclusiva das instituições: cada um deve fazer a sua parte, começando pela minha casa, no meu trabalho, junto das pessoas com quem me relaciono. E de modo concreto, é preciso ajudar aqueles que são mais pobres e necessitados. Lembremo-nos que «cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo» (Exort. Apost. Evangelii gaudium, 187), sobretudo sabendo acolher, «porque quando somos generosos acolhendo uma pessoa e partilhamos algo com ela – um pouco de comida, um lugar na nossa casa, o nosso tempo - não ficamos mais pobres, mas enriquecemos» (Discurso na Comunidade de Varginha, 25/7/2013). Assim, examinemos a consciência sobre o compromisso concreto e efetivo de cada um na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e pacífica.
Queridos irmãos e irmãs, quando Jesus nos diz «Eu vim para servir» (cf. Mc 10, 45), nos ensina aquilo que resume a identidade do cristão: amar servindo. Por isso, faço votos que o caminho quaresmal deste ano, à luz das propostas da Campanha da Fraternidade, predisponha os corações para a vida nova que Cristo nos oferece, e que a força transformadora que brota da sua Ressureição alcance a todos em sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural e fortaleça em cada coração sentimentos de fraternidade e de viva cooperação. A todos e a cada um, pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida, envio de todo coração a Bênção Apostólica, pedindo que nunca deixem de rezar por mim.
Vaticano, 2 de fevereiro de 2015.
Franciscus PP.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

IGREJA E SOCIEDADE

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 Dom Canísio Klaus
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

Na quarta-feira de cinzas, dia 18 de fevereiro, a Igreja Católica estará lançando a 51ª Campanha da Fraternidade em terras brasileiras. O objetivo é aprofundar os laços de fraternidade entre as pessoas e comunidades, com o intuito de melhorar as condições de vida do povo. O tema deste ano é: “Fraternidade – Igreja e Sociedade”. O lema indica a diretriz que orienta a reflexão: “Eu vim para servir” (Mc 14,45). A Igreja entende que ela está no mundo para, assim como Jesus Cristo, servir e não para ser servida. A visualização deste serviço vem retratada no cartaz, onde encontramos o papa Francisco lavando os pés de um fiel na quinta-feira santa de 2014.

O caminho para que a Igreja possa cumprir com sua missão de servidora é o diálogo com as diversas instituições e organizações da sociedade. Isso para evitar três perigos, que poderíamos também chamar de três tentações presentes no relacionamento entre a Igreja e a Sociedade.
O primeiro é a Igreja agir como detentora absoluta da verdade, impondo a sua doutrina e concepção de organização a toda a sociedade sem se importar com a diversidade de ideologias, culturas e credos que compõem o conjunto da população do Brasil.
O segundo perigo é a sociedade ignorar totalmente a presença da Igreja, não levando em consideração a sua existência e a fé dos seus fiéis. Já em 1962, o então arcebispo de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer, afirmava que “a doutrina cristã tem repercussões irreprimíveis em todos os atos e setores da vida humana. Jamais os poderosos da terra encontrarão na Igreja um instrumento dócil e submisso para seus desígnios de mando irrestrito”.
Um outro perigo ainda é o de a sociedade perseguir a Igreja ou cobrar dela serviços que ela não consegue executar ou que não fazem parte da sua missão, que é de cunho religioso. “Sua ação evangélica repercute, porém, na organização e no fortalecimento da comunidade humana” (Texto Base da CF, n. 154).
Por causa da sua missão “em favor do bem integral da pessoa humana”, ganha importância o “diálogo cooperativo fraterno e enriquecedor com a realidade social e as instâncias representativas da ordem social” (Idem n. 59). Os critérios “a partir dos quais a Igreja discerne a oportunidade e o estilo de seu diálogo e de sua colaboração com a sociedade, são a dignidade da pessoa humana, o bem comum e a justiça social”.
Convido, pois, os grupos de família, as comunidades e os diversos grupos de Igreja a aproveitarem este tempo de graça que a Campanha da Fraternidade oferece para aprofundarem os laços de diálogo e cooperação com as organizações da sociedade. Tomem o Texto Base em suas mãos. Rezem muitas vezes a oração da Campanha da Fraternidade e cantem o Hino da Campanha. Levem a temática proposta para os Meios de Comunicação Social e para as organizações da sociedade civil. Mostrem para todos que a Igreja quer ser servidora, assumindo funções concretas na defesa e promoção da vida das pessoas que são pobres, estão enfermas ou sendo marginalizadas pelos detentores do poder.
Que o Senhor nos ensine a servir todos e nos abençoe nesta caminhada quaresmal!

EU VIM PARA SERVIR


 Resultado de imagem para eu vim para servir cf 2015Dom Raimundo  Damasceno
A Campanha da Fraternidade deste ano se realiza dentro do contexto das celebrações dos 50 anos do Concílio Vaticano II e tem como tema: “Igreja e Sociedade” e o lema: “Eu vim para servir” (Mc 10,45).
Com a CF deste ano, a Igreja deseja “aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a Sociedade propostos pelo Vaticano II, para melhor servir ao povo brasileiro no atual momento e contribuir com a construção do reino de Deus”.
A Igreja no Brasil, fiel à sua missão evangelizadora, tem participado, desde a chegada dos primeiros missionários, em 1500, da história da sociedade brasileira.
A presença dos missionários, leigos e leigas, inspirados no amor de Jesus, suscitou, desde o início, várias obras de assistência social aos mais necessitados, de promoção humana. Em todos os momentos importantes da vida de nosso país, a Igreja nunca deixou de participar e de colaborar com a construção de uma sociedade mais justa, humana e fraterna. A Igreja nunca se manteve indiferente às situações vividas pelo povo brasileiro.
As alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo, dos pobres, são também as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Constituição Pastoral Gaudim et Spes, n. 1).
“Eu vim para servir” é a resposta de Jesus aos discípulos quando se perguntavam quem seria o maior, o primeiro dentre eles. Foi uma oportunidade para Jesus lhes dar uma lição sobre o poder como serviço (Mc 8,34-35). Jesus veio não para ser servido e sim para servir e dar a vida pela salvação de muitos.
A missão da Igreja é evangelizar, que implica também libertar as pessoas de situações de exclusão e injustiça que atentam contra a dignidade da pessoa humana e o bem comum.
Com a CF de 2015, a Igreja reafirma à sociedade seu compromisso, a exemplo de Jesus, de colocar-se a serviço de todos os brasileiros na sua missão espiritual e religiosa que lhe é própria e de colaborar com todos na promoção da dignidade da pessoa humana, de seus direitos e do bem comum de todos os brasileiros.