domingo, 17 de agosto de 2014

Viver é confiar



Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)
O Evangelho do décimo nono domingo do tempo Comum nos apresenta o tema da fé. E o faz de uma maneira bastante visual, com um exemplo que todos podemos entender. Crer é parecido, de alguma maneira, a sair da segurança de um barco durante uma tempestade e lançar-se às águas. É isto que Jesus pede que Pedro faça. De alguma forma, o desafia a confiar nele. No entanto, Pedro vacila porque se sente inseguro.
É possível que nós, em muitas ocasiões, nos sintamos inseguros como Pedro e, assim, busquemos por uma segurança que – como ele – não encontraremos.
Muitas vezes desejaríamos que a fé fosse o resultado de uma demonstração científica. Ou, talvez, que um milagre ou algo extraordinário provocasse a nossa fé. No fundo, supõe-se que a fé nos coloque em relação com Deus. E Deus é considerado, nesses casos, como um ser distante, poderoso e, até mesmo, perigoso para a vida das pessoas. Como não nos sentimos seguros diante dele, queremos provas convincentes.
Na realidade, a fé é a atitude básica sobre a qual é estabelecida qualquer relação.
Um exemplo bem claro disso encontra-se na relação de amor de um casal. Nenhum dos dois jamais poderá dizer que está certo do amor do outro ou da outra. Ele ou ela apenas tem sinais: sorrisos, palavras, carícias, telefonemas... Mas nada mais. Esses indícios confirmam o amor, mas nunca são provas concludentes. No final, cada um ou cada uma deve dar um passo a frente e confiar. E acreditar no outro.
Com Deus acontece exatamente o mesmo. Não há outro caminho senão confiarmos nenê porque não temos e não teremos jamais provas cabais de sua existência. Apenas obteremos testemunhos. Um testemunho maior: Jesus, que passou a vida fazendo o bem, curando os enfermos e amando a todos que encontrava pelo caminho, precisamente em nome de Deus, nos disse que o seu amor era fruto do amor de Deus e que devemos confiar nele. E temos muitos outros testemunhos. Os homens e mulheres que o seguiram confiaram nele e viveram amando e realizando o bem. Mas não temos provas desse amor. Devemos confiar. No Evangelho deste domingo, Jesus nos convida a nos lançarmos nas águas, a vivermos sem medo e a confiar no amor de Deus. Convida-nos a acreditar nele e confiar que com Ele podemos evitar os perigos da vida, porque o seu amor está sempre conosco. E isto não se prova com testes científicos, mas com a sensibilidade, a confiança e a fé. Quero, por fim, abraçar todos os pais em seu dia e rezar ao Senhor da Vida para que os senhores sejam autênticos transmissores dos valores e da confiança na Santíssima Trindade. Deus abençoe nossos pais!

sábado, 16 de agosto de 2014

Papa Francisco pede uma formação mais completa dos fiéis-leigos




Seul, 16 de agosto de 2014

Sinto-me grato por ter esta oportunidade de me encontrar convosco, que representais as múltiplas expressões do florescente apostolado dos leigos na Coreia. Agradeço ao Presidente do Conselho do Apostolado Laical Católico, o Senhor Paul Kwon Kil-joog, as amáveis palavras de boas-vindas que me dirigiu da vossa parte.
Como sabemos, a Igreja na Coreia é herdeira da fé de gerações de leigos que perseveraram no amor de Jesus Cristo e na comunhão com a Igreja, apesar da escassez de sacerdotes e da ameaça de graves perseguições. O Beato Paul Yun Ji-chung e demais mártires hoje beatificados representam um capítulo extraordinário desta história. Eles deram testemunho da fé não só através dos seus sofrimentos e da morte, mas também com a sua vida de mútua solidariedade amorosa nas comunidades cristãs, caracterizadas por uma caridade exemplar.
Esta preciosa herança prolonga-se nas vossas obras de fé, de caridade e de serviço. Hoje, como sempre, a Igreja precisa que os leigos prestem um testemunho credível à verdade salvífica do Evangelho, ao seu poder de purificar e transformar o coração humano e à sua fecundidade na edificação da família humana na unidade, justiça e paz. Sabemos que há uma única missão da Igreja de Deus, e cada cristão baptizado tem um papel vital nesta missão. Os vossos dons de fiéis-leigos, homens e mulheres, são múltiplos, tal como é variado o vosso apostolado; e tudo o que fazeis destina-se à promoção da missão da Igreja, garantindo que a ordem temporal seja permeada e aperfeiçoada pelo Espírito de Cristo e orientada para a vinda do seu Reino.
De modo particular, desejo agradecer a obra de tantas associações diretamente empenhadas em ir ao encontro dos pobres e necessitados. Como demonstra o exemplo dos primeiros cristãos coreanos, a fecundidade da fé expressa-se na solidariedade concreta para com os nossos irmãos e irmãs, independentemente da sua cultura ou condição social, porque em Cristo «não há judeu nem grego» (Gal 3, 28). Sinto-me profundamente grato a quantos de vós, com o trabalho e o testemunho, levam a presença consoladora do Senhor às pessoas que vivem nas periferias da nossa sociedade. Esta atividade não se limita à assistência caritativa, mas deve estender-se também a um compromisso com o crescimento humano. Dar assistência aos pobres é coisa boa e necessária, mas não é suficiente. Encorajo-vos a multiplicar os vossos esforços no campo da promoção humana, de modo que cada homem e cada mulher possa conhecer a alegria que deriva da dignidade de ganhar o pão de cada dia, sustentando assim a própria família. Esta dignidade neste momento está ameaçada de ser eliminada pela cultura do dinheiro, deixando muitas pessoas sem trabalho. Podeis dizer: 'padre, damos-lhes comida’. Mas não é o suficiente. Ele e ela, quem está sem trabalho deve sentir em seu coração a dignidade de levar o pão para casa. E confio a vós este trabalho.
Desejo ainda agradecer a preciosa contribuição das mulheres católicas coreanas para a vida e a missão da Igreja neste país, como mães de família, catequistas e professoras, e de vários outros modos. Da mesma forma, não posso deixar de destacar a importância do testemunho prestado pelas famílias cristãs. Numa época de crise da vida familiar, as nossas comunidades cristãs são chamadas a apoiar os casais e as famílias no cumprimento da sua missão na vida da Igreja e da sociedade. A família permanece a unidade basilar da sociedade e a primeira escola onde as crianças aprendem os valores humanos, espirituais e morais que as tornam capazes de ser faróis de bondade, integridade e justiça nas nossas comunidades.
Queridos amigos, qualquer que seja a contribuição particular que dais à missão da Igreja, peço-vos que continueis a promover nas vossas comunidades uma formação mais completa dos fiéis-leigos, através duma catequese permanente e da direcção espiritual. Em tudo o que fizerdes, peço-vos que actueis em completa harmonia de mente e coração com os vossos pastores, procurando colocar as vossas intuições, talentos e carismas ao serviço do crescimento da Igreja na unidade e no espírito missionário. A vossa contribuição é essencial, pois o futuro da Igreja na Coreia, como aliás em toda a Ásia, dependerá em grande parte do desenvolvimento duma visão eclesiológica alicerçada numa espiritualidade de comunhão, participação e partilha dos dons (cf. Ecclesia in Asia, 45).
Uma vez mais exprimo a minha gratidão por tudo o que fazeis pela edificação da Igreja na Coreia na santidade e no zelo. Possais vós obter constante inspiração e força para o vosso apostolado do Sacrifício Eucarístico, onde é comunicado e alimentado o amor de Deus e da humanidade, que é a alma do apostolado, (cf. Lumen gentium, 33). Sobre vós, vossas famílias e quantos participam nas obras corporais e espirituais das vossas paróquias, das associações e dos movimentos, invoco alegria e paz no Senhor Jesus Cristo e na carinhosa protecção de Maria, nossa Mãe. Por favor, peço que rezem por mim. E agora, todos juntos, rezemos para a Virgem e depois eu vos concedo a bênção.
Via Zennit

Tempo de opções




Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

Ao tratar o tema da paz/violência, o ser humano se defronta com o mais profundo de si mesmo. Defronta-se com forças obscuras, instintivas que o processo de humanização foi domesticando, domando. Tema que a psicanálise e a antropologia desenvolveram e que a filosofia de Nietzsche sistematizou. O preço pago pela civilização foi a repressão das forças biológicas primárias: a luta pelo alimento e pelo parceiro sexual e a imposição violenta sobre o mais fraco. A civilização, fruto da repressão, dependia desta para se manter. 
Do ponto de vista político, Engels via na violência “a parteira da história”, a força que move as relações sociais marcadas pelo conflito de interesses. Visão frequentemente associada à de Marx, que, entretanto, segundo algumas hermenêuticas não defendia a violência como arma política (nem todos interpretam assim). Porém, quem pensou assim com certeza foi a nova esquerda dos anos 60 e 70, fortemente influenciada pelo pensamento de Mao-Tse-Tung, que vinculava poder e violência. Para ele, o poder estava “no cano de uma arma”.
Uma defesa apaixonada da violência como arma política revolucionária foi feita por Sartre no prefácio do livro-manifesto: Os condenados da terra, de Frantz Fanon. Originário da ilha de Martinica, Fanon formou-se médico em Paris e testemunhou a violência colonialista na Argélia. A violência do colonizador tornava “bela” a violência heroica do colonizado. No prefácio do livro, Sartre diz: Essa violência irreprimível, ele (Fanon) o demonstra cabalmente, não é uma tempestade absurda nem a ressurreição dos instintos selvagens e nem mesmo um efeito do ressentimento: é o próprio homem que se recompõe.  
Era uma apologia da violência, que ia além da simples análise política, fazendo dela a expressão da humanidade do ser humano, o qual afirma sua dignidade e liberdade no enfrentamento com o opressor. Era a voz do colonizado argelino que, em nome dos próprios ideais (na realidade, ideologia) do colonizador se opunha a ele. Não percamos tempo com litanias estéreis ou mimetismos nauseabundos. Deixemos essa Europa que não cessa de falar do homem enquanto o massacra por toda a parte onde o encontra, em todas as esquinas de suas próprias ruas, em todas as esquinas do mundo. Há séculos… que em nome de uma suposta aventura espiritual vem asfixiando a quase totalidade da humanidade.
É uma linguagem passional, explosiva, panfletária, expressão do clima emocional dos franceses na guerra colonial argelina. A seu modo, Fanon expressava um pensamento substitutivo à visão puramente moralista que justificava (ou não) a violência em nome de um homem abstrato, idealizado. Agora contava o homem real, concreto, situado, relacionado com a natureza e com os outros pelo trabalho. Relações que se fundavam na exploração do homem pelo homem e o impediam de ser ele mesmo. A violência “constituía” esse mundo. Dessa forma, a violência dos oprimidos era, na realidade, uma contra violência. A guerra do Vietnã exacerbou ao máximo esse “sentimento”: era a luta de Davi contra Golias.
Com a mudança das condições sociais, essa violência “costumeira” cedeu lugar a uma violência inovadora que se manifestou, por exemplo, na Guerra do Contestado. A violência se inseria num quadro em que os desiguais se tratavam como pessoas, num gênero de vida que não contemplava o controle direto dos subordinados. Dominadores e dominados eram vistos como iguais dentro de um mundo homogêneo e indiferenciado.
A violência mais óbvia e, ao mesmo tempo, a mais escondida é a cotidiana. Falar de violência urbana é quase redundância, uma vez que, nos centros urbanos, o medo é a sensação dominante. Há a violência manifesta, visível — assalto, roubo, agressão, ofensas, palavras e gestos obscenos no trânsito… —, mas também há a invisível, insidiosa, perversa, que se expressa na necessidade de se proteger, que torna o “confiar no outro” num risco. A desconfiança com relação ao policial, ao vendedor, ao produto é uma forma “necessária” de se resguardar. Quando o vigia pode ser apenas informante, quando o policial pode ser o braço invisível do criminoso, o que se tem é um quadro de destruição do tecido social.
No interior de uma descrença generalizada nas instituições, o “quem pode mais” e o “cada um por si” tornam-se leis. A vida social tende a reduzir-se à formação de pequenos grupos aos quais se adere por interesses comuns. Às vezes eles mesmos violentos: as gangues, os pitboys, as torcidas organizadas, os skinheads. A xenofobia — ódio ao outro, ao diferente (étnico, sexual, cultural) — vai além do simples preconceito discriminatório passivo. No limite, leva à eliminação física, como o assassinato de homossexuais. É a violência oculta no desemprego que faz o sem-trabalho sentir-se inútil, “ninguém”, até mesmo para os próprios familiares. É interessante notar que o vocabulário ligado ao trabalho, no capitalismo, tem conotação “violenta”: de exploração passa a direito; de direito, a privilégio.  
Uma espécie de “cultura da informalidade” produz a sensação de se viver em meio a forças clandestinas e incontroláveis, à ameaça de um mundo à margem: a falsificação, o trabalho informal, a lavagem de dinheiro, o terrorismo, o tráfico de drogas, de órgãos, os paraísos fiscais… constituem uma “sociedade” dentro da sociedade. O crime organizado torna-se forma “necessária” de sobrevivência; o traficante pode aparecer como o protetor indispensável, o “assistente dos desvalidos” para as populações marginalizadas; a guerrilha política e o narcotráfico trocam favores entre si em certos países.
Em um mundo religioso fluido, a busca de identidade torna-se crucial. Pluralismo religioso implica conflito. Afloram percepções e vivências contraditórias do fenômeno: a sensação de liberdade — escolher a própria crença — soma-se à necessidade de certezas. A “era do relativo” suscita inquietações e resistências. Põe em questão identidades até aqui aparentemente estáveis, confiáveis, reconhecidas, garantidas por instituições religiosas ou não. E estas estão em crise, com muita dificuldade para dizer a verdade — e, quando o fazem, são ouvidas como portadoras de uma opinião entre outras. Apresentar-se como “a verdade” deslegitima mais do que qualifica uma instituição.
Eis as questões que nos são colocadas como pano de fundo de nosso caminhar nos tempos atuais. Cabe a nós o discernimento e a prática de atividades eivadas de uma profunda reflexão sobre os rumos da sociedade. Um tempo que nos questiona e que exige de todos uma resposta da qual não nos podemos eximir. Isso poderá direcionar o nosso futuro.

Como Maria, responder com generosidade a Deus é o ato mais digno da vida humana

Reflexões de Dom Alberto Taveira, Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará
Por Dom Alberto Taveira Corrêa

BELéM DO PARá, 15 de Agosto de 2014 (Zenit.org) - 
A Virgem Maria, Nossa Senhora, chegou à plena realização de todas as potencialidades humanas. Pelos merecimentos de seu Filho amado, foi preservada da mancha do pecado original, viveu nesta terra conduzida pelo chamado de Deus, para depois, ser elevada ao Céu, como professa a fé da Igreja. Na Assunção de Maria, todas as realidades desta terra são assumidas e acolhidas para adquirirem valor de eternidade. Sua presença e seu exemplo resplandecem como sinal luminoso para todos, podendo nela encontrar conforto e força todas as vocações e estados de vida. Olhar para Nossa Senhora estimula a caminhar com segurança, certos de que fomos feitos para o alto e para a felicidade.
No mês das vocações, voltamos o olhar para a aventura humana e religiosa vivida por Maria. Nela vemos realizada a vocação fundamental de todos os seres humanos, pois, em Cristo, Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele, no amor (Cf. Ef 1, 4).. Toda a vida de Nossa Senhora se orienta para o seu Filho, Jesus, Verbo de Deus feito carne. Ela se esvazia de si mesma e de seus próprios projetos, para abraçar o caminho da santidade, tornando-se ícone do que todos somos chamados a viver, pois  convidados a percorrer a estrada da resposta fiel a Deus.
O Apóstolo São Paulo, convicto da escolha feita, apresenta-se diante de suas comunidades na inteireza de sua entrega a Deus. Pode, então, abraçar como próprias as atitudes do mesmo Senhor Jesus Cristo: "Pela fidelidade de Deus, eu vos asseguro: a nossa palavra junto de vós não é 'sim e não'. Pois o Filho de Deus, proclamado entre vós por mim, por Silvano e Timóteo, nunca foi 'sim e não', mas somente 'sim'. Ao contrário, é nele que todas as promessas de Deus têm o 'sim' garantido. Por isso, também, é por ele que dizemos 'amém' a Deus, para sua glória. É Deus que nos confirma, a nós e a vós, em nossa adesão a Cristo, como também é Deus que nos ungiu. Foi ele que imprimiu em nós a sua marca e nos deu como garantia o Espírito derramado em nossos corações" (2 Cor 2, 18-22). É com igual certeza que ousamos olhar para Maria, Nossa Senhora, a primeira na resposta ao plano de Deus. Que o seu sim se expresse também em nossa vida.
Maria deu o seu sim à vida. Sua existência, desde os primeiros passos e olhares, era voltada para a Palavra do Senhor e para uma vida humana saudável, na pobreza e no escondimento de Nazaré. Foi na escuta da mesma Palavra que se entregou, na oblação total de própria liberdade, tornando-se generosamente escrava da Palavra. Seu sim radical, dado a Deus e a seu plano de salvação, mudou a história da humanidade. "Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38). Responder com generosidade a Deus é o ato mais digno da vida humana. Todas as vezes que alguém dá sua resposta a Deus, atualizando a graça do Batismo, o Espírito Santo vem sobre a pessoa e realiza a sua obra, edificando o bem! Dela queremos aprender a dizer sim!
Quando as incontáveis angústias de nosso tempo tantas vezes nos preocupam, vale a pena tomar consciência de que a vida de Maria foi marcada pelas surpresas do cotidiano e pela dor, visita inconfundível do Senhor. Para que se repita o nosso sim diante das eventuais decepções experimentadas ou as dores e pecados pessoais e sociais,  a mulher do equilíbrio e da firmeza seja vista como sinal. A Igreja identifica sete situações dolorosas, muito semelhantes àquelas vividas por nós. Maria, elevada ao Céu em corpo e alma, levou as cicatrizes da dor, para que ninguém desanime no caminho da perfeição a que somos chamados.
Uma espada a transpassar o coração, na profecia de Simeão (Cf. Lc 2, 21-40). Se um anjo lhe anunciara sua vocação de mãe do Verbo de Deus feito carne, muito cedo entendeu, para cedo amadurecer, o alcance de sua resposta a Deus. Não voltou atrás e acolheu de pé, na obediência, o projeto de Deus em sua vida. De fato, o Senhor não nos engana, prometendo apenas consolações, mas nos abre o horizonte com realismo, para que todos aprendamos a viver.
Com José, Maria soube que seu filho poderia ser morto pelo ódio sanguinário de Herodes (Cf. Mt 2, 13-18). Doeu-lhe o exílio, mas aprendeu e ensina a todas as gerações de cristãos a coragem para manter a fé a qualquer custo. Não é difícil identificar em nossos dias, no mesmo oriente médio, levas de cristãos em fuga por serem cristãos, firmes diante da provação. O mundo parece o mesmo!
A Terceira espada transpassou o coração de Maria quando perdeu seu filho no templo. Teve que compreender que o Jesus de seu coração é Filho do Pai do Céu e tem uma missão que supera todos os laços e afetos humanos (Cf. Lc 2, 41-52). Em sua dor se encontram as perdas humanas e a liberdade com que os pais e mães hão de educar seus filhos, não para si, mas para Deus e para a vida, olhando para frente!
No caminho do Calvário, a Maria discípula se encontra com seu Filho que carrega a cruz. A multidão não entende a profundidade do olhar, santa cumplicidade daquela Mãe que se fez companheira e colaboradora do Redentor. Ali estava presente o silêncio e o assentimento corajoso de tantas pessoas que não se negam a dar a sua colaboração na realização do plano de Deus.
Aos pés da Cruz, quando o Filho único a entrega como Mãe à humanidade chagada, representada por João, Maria experimenta a desolação, dando sua resposta e pronunciando o seu segundo e definitivo sim (Cf. Jo 19, 1-41). Está de pé, mulher madura para o amor e o sofrimento! Testemunha a morte redentora de seu Filho! Em sua coragem resplandece a disposição de todos os que estão prontos a viver a palavra: "Completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo que é a Igreja" (Cl 1, 24). O que falta é a participação pessoal!
Aquela que recebera o anúncio de uma espada de dor, vê a lança do soldado transpassar o lado de seu Filho exangue, para depois acolher nos braços e conduzir à sepultura o seu corpo. Mais duas espadas, duas dores lancinantes, para se completar o caminho da perfeição e da maturidade!
Maria do sim nos ajude a percorrer a estrada da maturidade humana e cristã. Sua vida, assunta ao Céu, seja o sinal para nossa caminhada.

Experimentar Deus nos conflitos



Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)

Deus vem ao encontro do homem especialmente nos momentos de necessidade. O Deus dos profetas e de Jesus é aquele que toma a defesa dos pobres e dos fracos. Ele não está nos fenômenos naturais grandiosos e violentos, mas no sopro leve da brisa, como que significando a espiritualidade e intimidade das manifestações de Deus ao homem.
A comunidade cristã vive uma existência atormentada pela hostilidade das forças adversas, que se manifestam nas perseguições e dificuldades internas e externas. Unicamente com suas forças, ela não chegaria ao fim do caminho. Mas Jesus ressuscitado está presente no meio dos seus; embora invisível, ele os assiste.
A forma como Elias experimenta Deus é diferente da de Moisés: Javé não está no furacão que racha as montanhas e quebra os rochedos, nem no terremoto ou no fogo, elemento extraordinário das manifestações de Deus no Êxodo, mas no murmúrio de uma brisa suave quase imperceptível.
Elias tem que fazer uma experiência nova de Deus, que não mais se serve dos fenômenos espetaculares da natureza para se manifestar.
Elias sente que a experiência com Javé é totalmente diferente em relação às anteriores: a majestade de Deus se manifesta nas coisas quase imperceptíveis, como a brisa da manhã. Não é majestade que apavora e espanta, mas cativa e transmite serenidade. Aí reside a novidade da experiência de Deus. Ao fazê-la percebe-se que só Javé pode ser considerado Deus, pois só Ele “faz sair” da caverna para a comunhão e compromisso com Ele.
Vento e fogo estão associados à vida de Elias, homem impetuoso e fogoso por caráter. Sua missão anterior e posterior a essa experiência o demonstra: era um demolidor.
Contudo, encontra Deus na solidão da montanha e no silêncio da brisa mansa, longe do tumulto. Ouvindo o vento suave, ele cobre o rosto com o manto, pois aí percebe a presença de Javé.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Filhos: o futuro






Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Nesta  Semana  Nacional  da  Família,  em  que  a  espiritualidade  se coloca como imperativo para que se possa ser sinal de tempos novos neste mundo, e a  família cristã  seja  uma  proposta  feliz  para a  sociedade é  bom refletir sobre  a  beleza  e  a  importância  dos  filhos  e  a  busca  de  educá-los. 
A  vida  humana tem três  grandes  estágios.  O  primeiro  estágio  é  no útero da mãe, o segundo estágio é a vida humana neste mundo e o terceiro estágio é a vida eterna. Os três estágios estão intrinsecamente ligados entre si.  A  Biologia  esclarece  que  o  embrião  humano já  dispõe  de  um  sistema imunológico  e  patrimônio  genético  próprio.  Este  ser  humano  possui  o direito de ser respeitado na sua integridade e dignidade como a de qualquer pessoa  já  nascida.  O  dia  do  nascituro  nos  lembra  que  os  filhos  são  dons preciosos  de  Deus  e  que  a  geração  de  filhos  é  uma  das  finalidades  do Matrimônio. O filho é reflexo vivo do amor e sinal permanente da unidade conjugal. Na verdade, os filhos são testemunhas vivas do encontro amoroso do casal e profetas de um mundo que se renova na continuidade da vida e As  crianças  são  sinais  de  que  Deus  não  perdeu  a  esperança na  humanidade. 
As  crianças,  além  de  serem  os  artífices  do  futuro, são continuidades da vida dos Pais e de toda a humanidade. Portanto, elas são as grandes motivações das famílias. A Igreja louva e glorifica a Deus, e  se  encanta  com  os  avanços  e  as  maravilhas  das  conquistas  científicas. Entretanto,  o  que  a  Igreja  espera  é  que  todas  as  buscas  do  homem,  no campo  científico,  sejam  feitas  à  luz  da  ética  da  vida,  do  respeito  pela sacralidade  e  inviolabilidade  da  vida  humana. 
A  bioética,  uma  ciência relativamente  nova,  desencadeou  no  mundo,  sobretudo  na  comunidade cientifica,  um  processo  de  reflexão  sobre  os limites e  balizamentos éticos. A  bioética,  de  cunho  personalista,  que  é  a  corrente  adotada  pela Igreja, tem como objetivo indicar os limites e as finalidades da intervenção do  homem  sobre  a  vida  humana.  É  uma  nova  disciplina,  que  combina o  conhecimento  biológico  (científico)  com  o  conhecimento  dos  valores humanos.  Podemos  afirmar:  uma  “ponte”  entre  duas  culturas:  a  científica e  a  humanística.  E  o  princípio  fundamental  da  bioética  personalista  é  o princípio da defesa da vida física como valor fundamental, o qual ressalta a sacralidade e a inviolabilidade da vida humana.
O  respeito  pela  vida,  a  sua  defesa  e  a  sua  promoção  representam  o primeiro imperativo  ético  do  homem  diante  de  si mesmo  e  dos  outros. É muito oportuno ouvir as palavras do Apóstolo Paulo: “Não vos conformeis com este mundo” (Rom.12,2). A Igreja não deve concordar com tudo o que hoje se sustenta em nome do cientificismo.  Somos a Igreja do “Sim”. Sim ao direito de nascer e viver com dignidade! Sim ao direito de ser original e irrepetível! Sim à vida de todos, em todas as suas formas e manifestações! Sim  às  pesquisas  levadas  adiante  com  seriedade  e  serenidade,  sem sensacionalismo  e  vãs  promessas!  Sim  à  pesquisa  com  células  adultas (não embriões!) visando à terapia e respeitando as normas éticas! Sim aos empenhos da ciência por minorar os sofrimentos, inclusive de doenças de cunho genético, mas sem esconder o mistério do sofrimento e da cruz como caminhos  de  crescimento  humano!  Sim  às  infinitas  manifestações  dos milagres da vida! Sim para que os pais não se fechem a gerarem filhos para que a humanidade tenha continuidade!
Recordo  também  das  palavras  de  Madre  Tereza  de  Calcutá:  “Se aceitamos que uma mãe pode matar sua criança, como podemos dizer para outras pessoas que não matem uns aos outros?”. Pensei muito nisso quando vimos  nos  noticiários  quantas  crianças  mortas  nos  combates  violentos. E,  outro  pensamento  de  Santa  Gianna  Beretta  Molla  (Itália):  “Entre  a minha vida e a do meu filho, salvem a criança”. Por isso, amemos a vida e digamos “Não ao aborto!” A humanidade já está pagando muito caro pela opção de não respeitar a vida! Além do envelhecimento do Ocidente, a falta de respeito à vida em todas as demais circunstâncias, longe e perto de nós. E  para  que a  vida  seja  protegida,  necessitamos  da  família,  que é a  base e protetora  da  vida  humana,  e,  também,  fonte  de  paz,  alegria,  felicidade e serenidade pessoal.
Disse  ainda  o  Papa  São  João  Paulo  II:  “A  tarefa  fundamental  da família  é  o  serviço  à  vida.  É  realizar,  na  história,  a  bênção  originária  do Criador,  transmitindo a imagem divina pela geração de homem a homem. Fecundidade  é  o  fruto  e  o  sinal  do  amor  conjugal,  o testemunho  vivo  da plena doação recíproca dos esposos” (Familiaris Consortio, 28).
Todos  esses  ensinamentos  nos  levam  ao  que  a  Igreja  afirma constantemente: “O amor conjugal deve ser plenamente humano, exclusivo e aberto à nova vida” (GS,50; HV,11; FC,29). A situação social e cultural dos nossos tempos dificulta a compreensão dessa verdade. A comunicação contrária  à  vida  procura  enganar  e  seduzir,  a  cada momento,  o  povo,  que continua  firme  em  valorizar  a  vida. Vale  a  pena  reler  o  que  disse  o  Papa.
“Alguns  se  perguntam  se  viver  é  bom  ou  se  não  teria  sido  melhor nem  sequer  ter  nascido.  Outros  pensam  que  são  os  únicos  destinatários da  técnica  e  excluem  os  demais,  impondo-lhes  meios  contraceptivos  ou técnicas  ainda  piores.  Nasceu,  assim,  uma  mentalidade  contra  a  vida (“anti-life  mentality”),  como  emerge  de  muitas  questões  atuais.  Pense- se,  por  exemplo,  num  certo  pânico  derivado  dos  estudos  dos  ecólogos e  dos  futurólogos  sobre  a  demografia,  que  exageram,  às  vezes,  o  perigo do  incremento  demográfico  para  a  qualidade  da  vida.  Mas  a  Igreja  crê, firmemente,  que  a  vida  humana,  mesmo  se  débil  e  com  sofrimento,  é sempre  um  esplêndido  dom  do  Deus  da  bondade.  Contra  o  pessimismo e  o  egoísmo  que  obscurecem  o  mundo,  a  Igreja  está  do  lado  da  vida”.
Infelizmente,  os  pais  de  hoje  se  recusam  a ter  filhos.  Eu  pergunto: sem  filhos,  como  caminhará  a  humanidade?  Muitos  têm  medo  de  não educar  bem  os  filhos,  pois  eu lhes  digo  que  com  Deus  é  possível  educá-los;  basta  que  o  casal  se  ame,  crie  um lar  saudável  e  viva  para  os  filhos com  todas  as  suas  forças  e  com  toda  dedicação.  Muitas  vezes  eu  me pergunto  como  meus  pais  conseguiram  nos  educar  a  todos,  e  hoje  as coisas  aparentam  tão  difíceis?  Serão  situações  criadas  para  dificultar  ou mentalidade  que  nos  são  impostas?  E,  na  criação  dos  filhos,  a  educação católica  deve  ser  dada  primeiramente  pelo  testemunho  pastoral  dos  pais e avós. O resto, Deus e eles farão. Faça do seu filho um homem de bem e eduque-o na fé para a santidade, depois ele saberá enfrentar o futuro.

Anciãos e jovens, o nosso tesouro e nossa esperança"

Em seu primeiro discurso oficial, no Palácio Presidencial de Seul, o Papa recordou que " Um povo grande e sábio não se limita a amar as suas tradições ancestrais, mas valoriza também os seus jovens "
Por Federico Cenci

CIDADE DO VATICANO, 14 de Agosto de 2014 (Zenit.org) -
 Jovem e antepassados. Em uma linha que corre ao longo do tempo acontece a visita apostólica do Papa Francisco na Coreia. Durante o seu primeiro discurso oficial - que começou às 4:45 da manhã, horário brasileiro, 16:45 no horário local - no Palácio Presidencial de Seul, o Santo Padre explicou que a sua presença no País asiático " tem lugar por ocasião da VI Jornada Asiática da Juventude, que reúne jovens católicos" de todo o continente "para uma jubilosa celebração da fé comum". E, no entanto, disse o Papa, durante a visita ele vai proclamar beatos "alguns coreanos que morreram como mártires da fé cristã: Paul Yunji-chung e os seus 123 companheiros".
Duas celebrações que - para usar as mesmas palavras usadas pelo Papa na manhã de hoje – “se completam mutuamente”. Para os católicos, de fato, é bem viva a importância que, em primeiro lugar, se deve à honra dos antepassados ​​que sofreram o martírio por causa da fé, “porque - disse Francisco - se prontificaram a dar a vida pela verdade em que acreditaram e de acordo com a qual procuraram viver ". Eles são, para nós hoje, um modelo de vida plenamente vivida "por Deus e para o bem dos demais".
No entanto, "um povo grande e sábio - disse o Papa - não se limita a amar suas antigas tradições, mas valoriza também os jovens", a quem transmite "a herança do passado que aplica aos desafios do presente". Um evento como a Jornada da Juventude é uma "oportunidade valiosa" para ouvir "as esperanças e as preocupações" dos jovens. E, dado o contexto histórico atual - acrescentou o bispo de Roma - é "muito importante" refletir sobre a necessidade de "transmitir aos nossos jovens o dom da paz."
Uma chamada de paz que “tem um significado todo especial aqui na Coreia”, terra que “sofreu por muito tempo por causa da falta de paz”. O Papa Francisco aproveitou assim a ocasião para manifestar o apreço "pelos esforços em favor da reconciliação e da estabilidade na península coreana"; esforços considerados "o único caminho seguro para uma paz duradoura". A qual teria implicações que transcenderiam as fronteiras Coreanas, uma vez que iria influenciar toda a área do Sudeste da Ásia e - disse o Papa - "todo o mundo cansado da guerra."
O coração do Papa está, neste momento, por causa dos muitos e graves conflitos em várias partes do mundo, “carregado e angustiado”, como ele mesmo escreveu na carta enviada ao secretário geral da Onu, Ban Ki-moon. É por isso que insiste no tema da paz, que ele chama de "um desafio para cada um de nós e, especialmente, para aqueles de vocês que têm a missão de ir atrás do bem comum da família humana através do paciente trabalho da diplomacia". Só através de seus esforços é possível "derrubar as paredes da desconfiança e do ódio" e promover "uma cultura da reconciliação e da solidariedade". Esforços que devem ser baseados em "escuta atenta e discreta" mais que em "críticas inúteis e demonstrações de força”.
É significativo que, algumas horas antes destas palavras, juntamente com a chegada do Papa a Seul, a Coréia do Norte lançou alguns mísseis que caíram no mar. Gestos que não confortam, mas como o Papa afirmou citando Isaias – “a paz não é simplesmente ausência de guerra, mas obra da justiça” (cf. Isaías 32, 17). E "a justiça, como virtude, apela para a tenacidade da paciência”. Justiça que se alimenta da capacidade de exercitar o “perdão”, e também a “tolerância e a cooperação”. É só assim que podem construir-se “os fundamentos do respeito mútuo, da compreensão e da reconciliação”.
O Papa dirigiu-se, portanto, às autoridades coreanas presentes na sala: “Queridos amigos, os vossos esforços como líderes políticos e civis visam, em última análise, construir um mundo melhor, mais pacífico, mais justo e próspero para os nossos filhos". A Coreia, no centro do discurso do Santo Padre: "A Coreia, como a maioria das nações desenvolvidas, enfrenta relevantes problemáticas sociais, divisões políticas, desigualdades económicas e preocupações na gestão responsável do meio ambiente". A admoestação do Papa é que seja ouvida “a voz de todos os membros da sociedade”. Igualmente importante, também, é dar "especial atenção aos pobres, àqueles que são vulneráveis e a quantos não têm voz, não somente indo ao encontro das suas necessidades imediatas mas também promovendo-os no seu crescimento humano e espiritual". A esperança do Papa é de que "a democracia coreana se há de fortalecer cada vez mais e que esta nação demonstrará primar também na «globalização da solidariedade» que é hoje particularmente necessária "
Finalmente, antes de cumprimentar a presidente da Coréia do Sul, Park Geun-hye, o Santo Padre rebobinou os fios do passado, traçando uma linha de continuidade com a visita do Papa João Paulo II na Coréia, em outubro de 1989, "O futuro Coreia – afirmou o Papa Wojtyla - vai depender da presença em seu povo de muitos homens e mulheres sábios, virtuosos e profundamente espirituais". Francisco quis fazer eco destas palavras, garantindo aos coreanos o “constante desejo da comunidade católica coreana de participar plenamente na vida da nação".
Voltando, portanto, às duas questões mencionadas no início do seu discurso - jovens e anciãos - o Bispo de Roma disse que "A Igreja deseja contribuir para a educação dos jovens e para o crescimento de um espírito de solidariedade para com os pobres e desfavorecidos, contribuir para a formação de jovens gerações de cidadãos prontos a oferecer a sabedoria e clarividência herdadas dos seus antepassados e nascidas da sua fé a fim de se enfrentarem as grandes questões políticas e sociais da nação". No final, o Papa invocou a bênção para "o querido povo coreano", e para "os idosos e os jovens que, preservando a memória e inspirando coragem, são o nosso maior tesouro e a nossa esperança para o futuro".