sábado, 15 de fevereiro de 2014

Cordeiros, nunca lobos, mas com a astúcia cristã



Nesta sexta-feira, dia dos santos Cirilo e Metódio, o Santo Padre recorda a identidade do cristão e o envio para pregar o Evangelho
ROMA, 14 de Fevereiro de 2014 (Zenit.org) - O cristão nunca para: ele caminha sempre para além das dificuldades. O papa Francisco nos reforçou essa atitude na homilia da missa de hoje, celebrada na residência de Santa Marta, nesta festa litúrgica dos santos padroeiros da Europa, Cirilo e Metódio.
O Evangelho, afirmou o papa, deve ser anunciado com alegria, pois quem se lamenta não ajuda o Senhor. E nos alertou contra a tentação de virarmos lobos em meio aos lobos.
Como deve ser um discípulo de Jesus? O papa Francisco apresentou como referência as figuras de Cirilo e Metódio para analisar a identidade do cristão. Comentando a primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, ele recordou que o cristão é um enviado. O Senhor envia os seus discípulos e pede que eles sigam em frente. “E isto quer dizer que o cristão é um discípulo do Senhor que caminha, que vai sempre adiante”.
“Não é possível pensar num cristão estático: um cristão que fica quieto está doente na sua identidade cristã, tem alguma enfermidade nessa identidade. O cristão é discípulo para caminhar, para avançar. Mas nosso Senhor, como escutamos no Salmo, na despedida do Senhor, também diz: ‘Ide pelo mundo inteiro e proclamai o Evangelho’. Vão! Caminhem! Esta é uma primeira atitude da identidade cristã, que é caminhar, e caminhar mesmo que existam dificuldades, para ir além das dificuldades”.
Sabemos que foi isto o que aconteceu com Paulo em Antioquia da Pisídia, onde havia dificuldades com a comunidade judaica e os pagãos ganhavam espaço. Jesus, comentou o papa, nos “exorta a ir para as encruzilhadas do mundo”, para convidar “a todos, bons e maus”. É o que diz o Evangelho: “também os maus”. O Evangelho, portanto, vai além, para anunciar o Reino de Deus que está próximo.
Um segundo aspecto da identidade do cristão é que “ele tem que ser sempre como o cordeiro” e “conservar essa identidade”, porque nosso Senhor nos envia “como cordeiros em meio aos lobos”.
Mas, perguntou o papa, por que não usar a força contra eles? Pensemos em Davi, “quando teve que lutar contra o filisteu: queriam vesti-lo com a armadura de Saulo e ele não conseguia nem se mexer”. E isto aconteceu porque, com aquela armadura, “Davi não era ele mesmo, não era humilde, não era aquele simples Davi. No fim, ele usou a funda e venceu a batalha”.
“Como cordeiros... Não como lobos. Porque, às vezes, a tentação existe: 'Mas isso é difícil, porque os lobos são muito vivos e eu vou ser mais vivo do que eles! Cordeiro. Não tolo: cordeiro. Com a astúcia cristã, mas sempre cordeiro. Porque se você é cordeiro, Ele o defende, mas, se você se sente forte como um lobo, Ele não o defende; você fica sozinho e os lobos o devoram vivo”.
O terceiro aspecto desta identidade é o “estilo do cristão”, que é “a alegria”. Os cristãos, afirmou o papa, “são pessoas que exultam porque conhecem o Senhor e transmitem o Senhor. O cristão não pode caminhar sem alegria, como um cordeiro sem alegria”. Mesmo “nos problemas, nas dificuldades, nos próprios erros e pecados, nós temos a alegria de Jesus que sempre nos perdoa e nos ajuda”.
O Evangelho “tem que ir para frente, levado pelos cordeiros que são enviados pelo Senhor que caminha com alegria”.
“Não ajudam nosso Senhor nem a Igreja aqueles cristãos ‘lentos e lamentosos’, que vivem sempre assim, se lamentando de tudo, tristes. Esse não é o estilo do discípulo. Santo Agostinho diz para o cristão: ‘Vai em frente, canta e caminha!’. A tristeza, assim como a amargura, nos leva a viver um cristianismo sem Cristo: a cruz deixa os cristãos vazios diante do sepulcro, chorando como Maria Madalena, mas sem a alegria de ter encontrado o Ressuscitado”.
Na festa dos dois discípulos cristãos, Cirilo e Metódio, a Igreja nos faz refletir sobre a identidade cristã. O cristão caminha para além das dificuldades e, como o cordeiro, sabe que as suas próprias forças não são suficientes.
“Por intercessão desses dois irmãos santos, padroeiros da Europa, nosso Senhor nos conceda a graça de viver como cristãos que caminham como cordeiros e com alegria”.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

São Valentim



A Igreja o considera padroeiro dos namorados por seu testemunho sacerdotal em defesa do matrimônio.

Hoje é dia de São Valentim, santo conhecido por ser o protetor dos namorados, cujo nome e testemunho deu nome à tradição do Dia dos Namorados ou Dia de São Valentim (The Valentine's Day como é conhecido nos Estados Unidos).
Valentim era sacerdote em Roma no século III, durante o reinado do imperador Cláudio II, o Gótico.  O Imperador, durante seu governo, instituiu a proibição dos matrimônios em seu reino, pois tinha o objetivo de constituir e sedimentar um grande e poderoso exército e para que isso acontecesse julgava ser necessário os jovens não terem família. Isso os fariam alistarem-se mais facilmente. Daí a proibição dos casamentos.
Valentim contrariou as ordens do imperador e continuou a celebrar os casamentos ainda que secretamente. Ao saber da atitude de Valentim o imperador mandou prendê-lo e o levou à um interrogatório público. A sabedoria de Valentim lhe valeu o elogio do imperador que antes de lhe mandar prender exclamou: "Escutem a sábia doutrina deste homem".
Valentim ficou preso na casa do prefeito Astério, cuja filha era acometida de cegueira. Valentim pediu a Deus pela jovem que ficou curada e também foi responsável pela conversão de toda a sua família, fato este, que agravou sua condição diante do imperador que ordenou sua execução em 14 de fevereiro de 270 sendo decapitado.
A sepultura de Valentim foi encontrada em 346, numa capela subterrânea na via Flaminia e a maior parte de suas relíquias estão agora na igreja de Santa Praxedes. A Igreja o considera padroeiro dos namorados por seu testemunho sacerdotal em defesa do matrimônio.
Neste ano o Papa Francisco se reunirá em uma audiência na Praça de São Pedro com cerca de 20 mil namorados. O tema da audiência é “a alegria do sim para sempre”.
Que o testemunho de São Valentim nos impulsione a buscar, defender e viver a fé e o amor verdadeiro, fruto de uma amizade sincera e da busca da vontade de Deus no matrimônio aos que são chamados à este estado de vida.

Para além do que se crê, o mais importante é amar.

 Uma reflexão sobre a Pastoral da Saúde e a visitação aos doentes





             Para a Igreja Católica o cuidado que se deve aos enfermos é muito significativo. Ela, agindo em nome de Cristo, está sempre atenta às realidades marcadas pela doença, pois são momentos especiais em que as pessoas necessitam ser resgatadas, muitas vezes para dentro de si mesmas e do coração de Deus.
 No Brasil, de um modo muito especial, temos o encontro e a ligação entre muitas crenças religiosas, fato que nos permite perceber os diferentes modos de relacionar a saúde - ou a falta dela - com a fé.  Dentro desse contexto, muitos desafios se defrontam com a ação pastoral na área da saúde, porque esta requer um jeito de agir voltado especificamente à pessoa.
Sabemos que no decorrer da história da humanidade muitas coisas foram mudando: as vestes, os hábitos, as maneiras de pensar de cada sociedade. Mudanças ocorridas ao longo de séculos, por meio das quais muitos elementos foram se sobrepondo a outros, formando o conjunto de valores e crenças de cada povo e cultura. Um destes fortes elementos é a fé, constituída em suas várias faces que convergem em alguma forma de relação transcendental, favorecendo, assim, diferentes modos de religiosidade.
Portanto, uma consideração importante a ser feita é a de que as pessoas enfermas estão em uma condição de vulnerabilidade, devido ao processo de enfrentar – positiva ou negativamente – a doença. Porém, mesmo nesta situação, deve-se levar em conta que cada pessoa também tem a sua história, a sua fé, as suas formas de crer em algo superior a si mesma. Isto implica no fato de haver mais na pessoa do que unicamente sua enfermidade.
Nesse sentido, a Pastoral da Saúde, bem como seus agentes, deve estar atenta não só aos seus interesses doutrinais, mas principalmente ao que é importante para as pessoas enfermas. O ambiente hospitalar contém uma gama mesclada de culturas, religiões e crenças diversificadas. Assim, deve-se levar em conta que, muito embora a Igreja Católica tenha seu papel pioneiro na prática e no cuidado da saúde no Brasil, ela não pode se eximir em compreender, auxiliar e promover a vida a todos, independente de suas crenças. Afinal, não importa como a pessoa crê, e sim que ela será amada!
 O sofrimento decorrente de uma doença faz manifestar muitos modos de compreender a Deus. Há quem pense em Deus como alguém que predestina os outros a sofrer ou não. Outros O compreendem como aquele que pune ou abençoa de acordo com as atitudes que se têm. Também há aqueles que, mesmo em suas limitações, não conseguem crer em Deus, ou que perante o sofrimento passam a crer, reconhecendo que realmente existe um Ser superior. Por fim, existem os que só conseguem enfrentar a dor justamente porque creem em Deus.
Tudo isto pode ser muito relativo, considerando as diferentes imagens que se têm de Deus. Portanto e, reconhecendo as várias denominações religiosas, antes de se tentar convencer algum paciente a aceitar a fé cristã católica, é imprescindível que o agente da Pastoral da Saúde esteja bem preparado, não só tecnicamente e teoricamente, mas sensivelmente. Em outras palavras, a pessoa que realiza o trabalho pastoral da visitação não pode tentar impor uma fé sem saber do mundo interno do outro.
Desse modo, ser agente da Pastoral da Saúde requer uma postura de atenção, de diálogo e de sensibilidade para perceber o que realmente é importante para a pessoa visitada. Embora esteja indo em nome da Igreja Católica e de Cristo, não pode o agente invadir e desrespeitar um espaço pessoal que não lhe é conhecido. Assim, o mais importante para um visitador é que se configure em uma presença de amor, ternura, compaixão e esperança, sentimentos cristãos que podem ser transmitidos fora da esfera de qualquer fundamentalismo religioso.
O essencial para a pessoa enferma é que se sinta acolhida, compreendida, amada, cuidada e não julgada pelo que ela crê. Agir assim é agir como Cristo! Ele não se aproximava dos doentes por causa da religião, mas sim porque os amava!
Pe. Guilherme Schmidt de Lima. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Francisco faz o convite para que se viva a eucaristia de modo coerente



Texto completo da catequese desta quarta-feira durante a audiência geral
Por Redacao
ROMA, 12 de Fevereiro de 2014 (Zenit.org) - Queridos irmãos e irmãs, bom dia,
Na última catequese, destaquei como a Eucaristia nos introduz na comunhão real com Jesus e o seu mistério. Agora podemos nos colocar algumas perguntas sobre a relação entre a Eucaristia que celebramos e a nossa vida, como Igreja e como cristãos individualmente. Como vivemos a Eucaristia? Quando vamos à Missa aos domingos, como a vivemos? É somente um momento de festa, é uma tradição consolidada, é uma ocasião para se encontrar ou para sentir-se bem, ou é algo a mais?
Há alguns sinais muito concretos para entender como vivemos tudo isso, como vivemos a Eucaristia; sinais que nos dizem se nós vivemos bem a Eucaristia ou não a vivemos tão bem. O primeiro indício é o nosso modo de olhar e considerar os outros. Na Eucaristia, Cristo realiza sempre novamente o dom de si que fez na Cruz. Toda a sua vida é um ato de total partilha de si por amor; por isso Ele amava estar com os discípulos e com as pessoas que tinha oportunidade de conhecer. Isto significava para Ele partilhar os desejos deles, os seus problemas, aquilo que agitava as suas almas e suas vidas. Agora nós, quando participamos da Santa Missa, encontramo-nos com homens e mulheres de todo tipo: jovens, idosos, crianças, pobres e ricos; originários do lugar ou de fora; acompanhados por familiares ou sozinhos… Mas a Eucaristia que celebro leva-me a senti-los todos, realmente, como irmãos e irmãs? Faz crescer em mim a capacidade de alegrar com quem se alegra, de chorar com quem chora? Impele-me a seguir rumo aos pobres, aos doentes, aos marginalizados? Ajuda-me a reconhecer neles a face de Jesus? Todos nós vamos à Missa porque amamos Jesus e queremos partilhar, na Eucaristia, a sua paixão e a sua ressurreição.. Mas amamos, como quer Jesus, aqueles irmãos e irmãs mais necessitados? Por exemplo, em Roma, nestes dias vimos tantos problemas sociais ou pela chuva que fez tantos danos a bairros inteiros, ou pela falta de trabalho, consequência da crise econômica em todo o mundo. Pergunto-me, e cada um de nós se pergunte: eu que vou à Missa, como vivo isto? Preocupo-me de ajudar, de aproximar-me, de rezar por aqueles que têm este problema? Ou sou um pouco indiferente? Ou talvez me preocupo de fofocar: viu como está vestida aquela, ou como está vestido aquele? Às vezes se faz isso, depois da Missa, e não se deve fazer! Devemos nos preocupar com os nossos irmãos e irmãs que têm necessidade por causa de uma doença, de um problema. Hoje, fará bem a nós pensar nestes nossos irmãos e irmãs que têm este problema aqui em Roma: problemas pela tragédia provocada pela chuva e problemas sociais e de trabalho. Peçamos a Jesus, que recebemos na Eucaristia, que nos ajude a ajudá-los.
Um segundo indício, muito importante, é a graça de sentir-se perdoados e prontos a perdoar. Às vezes alguém pergunta: “Por que se deveria ir à igreja, visto que quem participa habitualmente da Santa Missa é pecador como os outros?”. Quantas vezes ouvimos isso! Na realidade, quem celebra a Eucaristia não o faz porque se acredita ou quer parecer melhor que os outros, mas propriamente porque se reconhece sempre necessitado de ser acolhido e regenerado pela misericórdia de Deus, feita carne em Jesus Cristo. Se algum de nós não se sente necessitado da misericórdia de Deus, não se sente pecador, é melhor que não vá à Missa! Nós vamos à Missa porque somos pecadores e queremos receber o perdão de Deus, participar da redenção de Jesus, do seu perdão. Aquele “Confesso” que dizemos no início não é “pro forma”, é um verdadeiro ato de penitência!  Eu sou pecador e o confesso, assim começa a Missa! Não devemos nunca esquecer que a Última Ceia de Jesus aconteceu “na noite em que foi traído” (1 Cor 11, 23). Naquele pão e naquele vinho que oferecemos e em torno do qual nos reunimos se renova toda vez o dom do corpo e do sangue de Cristo para a remissão dos nossos pecados. Devemos ir à Missa humildemente, como pecadores e o Senhor nos reconcilia.
Um último indício precioso nos vem oferecido pela relação entre a celebração eucarística e a vida das nossas comunidades cristãs. É necessário sempre ter em mente que a Eucaristia não é algo que fazemos nós; não é uma comemoração nossa daquilo que Jesus disse e fez. Não. É propriamente uma ação de Cristo! É Cristo que age ali, no altar. É um dom de Cristo, que se torna presente e nos acolhe em torno de si, para nutrir-nos da sua Palavra e da sua vida. Isto significa que a missão e a identidade própria da Igreja surge dali, da Eucaristia, e ali sempre toma forma. Uma celebração pode ser também impecável do ponto de vista exterior, belíssima, mas se não nos conduz ao encontro com Jesus Cristo arrisca não levar alimento algum ao nosso coração e à nossa vida. Através da Eucaristia, em vez disso, Cristo quer entrar na nossa existência e permeá-la pela sua graça, de forma que em toda comunidade cristã haja coerência entre liturgia e vida.
O coração se enche de confiança e esperança pensando nas palavras de Jesus reportadas no Evangelho: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). Vivamos a Eucaristia com espírito de fé, de oração, de perdão, de penitência, de alegria comunitária, de preocupação pelos necessitados e pelas necessidades de tantos irmãos e irmãs, na certeza de que o Senhor cumprirá aquilo que nos prometeu: a vida eterna. Assim seja!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Leis dos homens e lei de Deus




A vida em sociedade se torna cada vez mais complexa, exigindo uma série de leis e normas para regular o comportamento das pessoas e dos grupos. Não é novidade saber que um emaranhado de leis tantas vezes confunde os cidadãos, dificultando-lhes até manter-se em dia com suas obrigações. Para dar um exemplo, basta conversar com as pessoas que devem estar atualizadas quanto à legislação tributária e ver o quanto lhes é trabalhoso saber das ultimíssimas mudanças. Que se preparem os que devem preparar suas declarações de renda!

E podemos ir além, ao tomar consciência de que vivemos num estado laico, no qual todos os setores da sociedade, incluindo as diversas convicções religiosas, devem encontrar seu espaço, na superação de eventuais privilégios. Curioso é que a crescente laicização do Estado encontra meios e verbas para eventos no mínimo duvidosos, considerados manifestações culturais, relegando ao espaço privado a relação com Deus, da qual o ser humano não pode fugir, sob pena de perder o rumo e o sentido de sua existência. Nem é necessário fazer uma lista dos gastos correntes em nosso país, nos quais bilhões de reais são despendidos, inclusive com obras cuja utilidade prática posterior aos eventos programados é altamente questionável. Entende-se assim a revolta que jovens e menos jovens manifestam em nossas ruas, mesmo se os métodos e gritos se confundam com grupos violentos infiltrados em suas ações.

Bastam as leis e o laicismo do Estado? Quais serão as consequências do alijamento dos grupos religiosos da educação ou do cuidado com a saúde, pelas dificuldades encontradas para manter obras sociais correspondentes às convicções cristãs que os movem? Pode ficar tudo aparentemente certo, mas o que está por trás? E uma sociedade que perdeu as estribeiras quanto à moralidade dos atos públicos ou a exposição contínua de atos de esperteza ou de corrupção, para onde vai? Para onde foi a moral familiar? E as leis, podem ser simplesmente acolhidas, mesmo quando é patente sua iniquidade?

Jesus, Senhor e Salvador, enfrentou uma sociedade repleta de leis e mandamentos, sendo diante de muitos um violador das normas vigentes. No entanto, seu comportamento e seu ensinamento realizam e superam toda a lei. “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir. Antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo aconteça. Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar os outros, será considerado o menor no Reino dos Céus. Quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus. Eu vos digo: Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 17-20).

Nasce então a pergunta: como superar as normas dos escribas e dos fariseus, ou como ir além das constituições, leis, normas técnicas ou regulamentos existentes em cada época? “Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem. Ele conhece todas as obras do ser humano. Não mandou ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença para pecar” (Eclo 15, 20-21). Começamos com radicalidade! Acomodar-se com a maldade e ajeitar a consciência é princípio de desastre! Ninguém foi destinado ao crime ou à corrupção, ninguém foi feito para andar errado ou afundar-se na lama da impureza! Não há um destino cego que obrigue à iniquidade. Acreditar que fomos feitos para o bem e para o que é certo e não admitir qualquer relaxamento de consciência é primeira resposta.

O grande Apóstolo São Paulo (Rm 13, 1-10) ajudou a enfrentar estas questões, ensinando que todos se submetam às autoridades que exercem o poder, pois não existe autoridade que não venha de Deus. Fez até uma pergunta provocante, com a correspondente resposta: “Queres não ter medo da autoridade? Pratica o bem, e serás por ela elogiado... É preciso obedecer, não somente por medo do castigo, mas por motivo de consciência. Pela mesma razão, pagais impostos. Dai a cada um o que lhe é devido: seja imposto, seja taxa, ou, também, o temor e o respeito”. O cristão há de ser exemplar no cumprimento dos próprios deveres de cidadania!

Entretanto, o caminho de superação das leis é justamente o cumprimento da lei maior, o amor, “pois quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei... O amor é o cumprimento perfeito da Lei”. (Rm 13, 8.10). O mesmo apóstolo, escrevendo aos Gálatas, numa frase breve, estupenda e lapidar, diz outra vez que “toda a lei se resume neste único mandamento: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5,14). É verdade! Quem ama não rouba, não mata. E não só evita o mal, mas se abre aos outros, deseja o bem, pratica o bem, sabe doar-se, chega a dar a vida pela pessoa amada. Por isso Paulo escreve que, amando o próximo, não só se cumpre a lei, mas se cumpre “toda a lei”. Os outros mandamentos são meios para nos iluminar e guiar a fim de sabermos encontrar, nas complexas situações da vida, o caminho para amar os outros. E por que o Apóstolo não fala também do amor a Deus? É que o amor a Deus e o amor ao próximo não competem entre si. Um deles, o amor ao próximo, é até mesmo expressão do outro, do amor a Deus. Com efeito, amar a Deus significa fazer a sua vontade, e a sua vontade é que amemos o próximo (Cf. Chiara Lubich, Comentário à Palavra de Vida, Roma, 25 de maio de 1983).

Enfim, faz ainda parte da vida cristã saber lutar contra as leis injustas, denunciar o mal. Nos dias que correm, uma das mais importantes bandeiras dos cristãos, ainda que venham leis ou normas contrárias, é a da valorização da vida. Mesmo que sejam leis civis a permitir práticas abortivas ou outras violações da absoluta dignidade humana, não seremos obrigados a cumpri-las. Nasce a corajosa objeção de consciência, que vem também a ser praticada quando se recusa a sujar as mãos e o coração com a corrupção e o roubo. Em ano eleitoral, aqui se encontram preciosas referências para engajamento político, participação e voto! Se necessário, trata-se de nadar contra a correnteza, para vencer a torrente de maldade existente também em nosso tempo.

Dom Alberto Taveira Corrêa

Analfabetismos


Ilustração

.A notícia de que o Brasil tem 13,9 milhões de adultos analfabetos, segundo o Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos, divulgado pela Unesco, é social e politicamente instigadora. O número é muito alto e revela um sério comprometimento da cidadania. Embora não haja lei que obrigue o adulto a estar na escola para superar o grande mal do analfabetismo, é preciso acender uma chama de grande sensibilidade social e política, com força de articulação de instituições governamentais, educacionais, de igrejas e tantas outras entidades, no enfrentamento dessa chaga terrível na sociedade brasileira. 

O fato de o Brasil estar entre os dez países do mundo que concentram o maior número de analfabetos deve ferir nossa consciência cidadã. Todos precisam intuir ações que se configurem numa mobilização geral, capitaneada pelas responsabilidades primeiras governamentais, para garantir aos analfabetos um passo adiante na sua condição cidadã. Não se pode descansar diante do atual quadro que perpetua prejuízos. As ações de combate ao analfabetismo têm suas complexidades e exigências de investimentos. Por isso, é preciso disponibilizar recursos profissionais, instalações e métodos para que cidadãos de várias condições e segmentos deem sua contribuição para que, em mutirão, se possa mudar esse cenário comprometedor da cidadania. 

Importante sublinhar que existe um agravante no que se refere ao analfabetismo existente no Brasil. Especialistas consideram que o próprio sistema educacional brasileiro forma analfabetos, pessoas com dificuldades de alcançar conquistas e viver a cidadania com liberdade. O analfabetismo das letras incide, para além delas mesmas, na capacidade de compreensão e interpretação da própria realidade. O resultado é uma deficiência na participação social e política, a incapacidade para ajudar a corrigir os rumos da sociedade, monitorar os políticos e fazer nascer a lucidez corajosa para as grandes reformas institucionais. Assim, ignorar esse grave problema é condenar a sociedade a estar enterrada na corrupção, na desigualdade, na injustiça e na convivência pacífica com o mal. 

A alfabetização é um passo indispensável para a arte de ler, consequentemente interpretar, discernir e escolher o que deve pautar a vida de cada cidadão. É preciso dar a todos a condição necessária para participar, de maneira cidadã, dos processos de interpretação, entendimento e escolhas que mudam os rumos da sociedade. A contramão disso, o analfabetismo, é um sistema escravocrata que perpetua hegemonias e dominações, privilegiando grupos políticos e empresariais, em detrimento do bem comum e da justiça intocável que deve presidir a sociedade. Portanto, é preciso um mutirão, com velocidade própria, considerando metodologias adequadas, um envolvimento de todos, impelindo particularmente o poder público, para desenhar novos cenários. As igrejas de diferentes confissões, com sua capilaridade, seus espaços, seus membros, podem se aliar às instituições de ensino e, em cooperação com outros segmentos, desenhar um projeto de ação, simples, incidente e com força de mudar este cenário. 

Importante é também olhar o conjunto da sociedade e identificar as outras formas de analfabetismo, que ajudam a explicar a atual carência dos processos formais de educação básica eficiente. Ajuda neste exercício escutar o Papa Francisco, quando fala de três males que estão corroendo a contemporaneidade: as misérias moral, material e espiritual. A miséria material é, sem dúvida, consequência das misérias espiritual e moral. A sociedade moderna está padecendo de um completo analfabetismo moral. Tudo é negociado, ameaçado, disputado e dividido. Infelizmente, valem os interesses que atendem demandas do que o Papa Francisco aponta como “idolatria do dinheiro”, levando a qualquer efeito, desde que o próprio interesse seja atendido, muitas vezes até com aparências de religiosidades e de comprometimento político. O analfabetismo moral está conduzindo a humanidade a um nível intolerável de prejuízos, muitos irreversíveis. Ele só será corrigido pela superação da miséria espiritual. 

Esse analfabetismo, consequência da miséria espiritual, é o conjunto que reúne ganhos salariais exorbitantes, o consumo desarvorado e doentio, o desejo de poder que negocia tudo e os medos que fazem perder a serenidade na busca pelas correções necessárias. Para superar esses males e, consequentemente, desenvolver a imprescindível sensibilidade social, é preciso caminhar junto com os pobres e sofredores, buscar o caminho da espiritualidade como prática no seguimento de Jesus Cristo. Assim, serão encontradas as dinâmicas para promover atitudes de ruptura e novas escolhas, capazes de efetivamente combater o analfabetismo educacional e, particularmente, o analfabetismo moral. Todo cidadão deve se comprometer no fortalecimento das bases de uma sociedade mais solidária, travando uma grande luta contra todos esses tipos de analfabetismo. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Papa convida a redescobrir sentido do sagrado na Missa



Redescobrir o sentido do sagrado, o mistério da presença real de Deus na Missa. Este foi o convite do Papa Francisco, durante a Missa, nesta segunda-feira, 10, na Casa Santa Marta. 

A Primeira Leitura do dia fala de uma teofania (manifestação) de Deus nos tempos do rei Salomão. O Papa comentou que o Senhor fala ao Seu povo de vários modos: por meio de profetas, sacerdotes, da Sagrada Escritura; mas a manifestação do Senhor, na Missa, é uma presença mais próxima, sem mediações. 

“Isto acontece na Celebração Litúrgica. Esta não é um ato social, não é uma reunião de crentes para rezar juntos. É uma outra coisa. Na liturgia, Deus está presente, é uma presença mais próxima. Na Missa, de fato, a presença do Senhor é real, propriamente real”. 

Francisco explicou que a celebração da Missa não é uma representação da Última Ceia, é propriamente a Última Ceia. É viver outra vez a Paixão e a Morte redentora do Senhor. Ele se faz presente, no altar, para ser oferecido ao Pai para a salvação do mundo. 

“Nós ouvimos ou dizemos: ‘Mas eu não posso, agora preciso ir à Missa, preciso ouvir a Missa’. A Missa não se ‘ouve’, participa-se deste mistério da presença do Senhor entre nós”. 

O Papa lembrou que, infelizmente, muitas vezes, as pessoas olham para o relógio na Missa, “contam os minutos”, o que não é uma atitude que a liturgia pede. “A liturgia é tempo de Deus e espaço d’Ele, e nós devemos nos colocar ali, no tempo de Deus, no espaço d’Ele, e não olharmos o relógio”. 

Entrar no mistério de Deus é o significado da liturgia, explicou o Santo Padre. “Por exemplo, tenho certeza de que todos vocês estão aqui para entrar no mistério, porém, talvez alguém diga: ‘Ah, eu devo ir à Missa na Santa Marta, porque, na agência turística de Roma, está visitar o Papa na Santa Marta todas as manhãs. É um lugar turístico, não? (risos). Todos vocês vêm aqui, nós nos reunimos aqui para entrar no mistério: é esta a liturgia”. 

O Papa concluiu a homilia dizendo que todos peçam a Deus a graça do sentido do sagrado, sentido que faz o homem entender que uma coisa é rezar em casa, rezar na Igreja, ler a Bíblia, e outra coisa é a Celebração Eucarística. 

“Na Celebração nós entramos no mistério de Deus, naquele caminho que nós não podemos controlar: somente Ele é o único, Ele é a alegria, o poder, Ele é tudo. Peçamos esta graça: que o Senhor nos ensine a entrar no mistério de Deus”.

Com informações de Canção Nova Notícas
Da redação do Portal Ecclesia.