domingo, 8 de dezembro de 2013

Imaculada Conceição de Maria



O dogma da Imaculada Conceição de Maria é um dos dogmas mais queridos ao coração do povo cristão. Os dogmas da Igreja são as verdades que não mudam nunca, que fortalecem a fé que carregamos dentro nós e que não renunciamos nunca. 

A convicção da pureza completa da Mãe de Deus, Maria, ou seja, esse dogma foi definido em 1854 pelo Papa Pio IX, através da bula "Ineffabilis Deus", mas antes disso a devoção popular à Imaculada Conceição de Maria já era extensa. A festa já existia no oriente e na Itália meridional, então dominada pelos bizantinos, desde o século VII. 

A festa não existia oficialmente no calendário da Igreja. Os estudos e discussões teológicas avançaram através dos tempos sem um consenso positivo. Quem resolveu a questão foi um frade franciscano escocês e grande doutor em teologia, chamado Beato João Duns Scoto, que morreu em 1308. Na linha de pensamento de São Francisco de Assis, ele defendeu a Conceição Imaculada de Maria, como ínicio do projeto central de Deus: o nascimento do seu Filho feito homem para a redenção da humanidade. 

Transcorrido mais um longo tempo, a festa acabou sendo incluída no calendário romano em 1476. Em 1570 foi confirmada e formalizada pelo Papa Pio V, na publicação do novo ofício e, finalmente, no século XVIII, o Papa Clemente XI tornou-a obrigatória a toda a cristandade. 

Quatro anos mais tarde, as aparições de Lourdes foram as prodigiosas confirmações dessa verdade, do dogma. De fato, Maria proclamou-se explicitamente com a prova de incontáveis milagres: "Eu sou a Imaculada Conceição". 

Deus quis preparar ao seu Filho uma digna habitação. No seu projeto de redenção da humanidade, manteve a Mãe de Deus, cheia de graça, ainda no ventre materno. Assim, toda a obra veio da gratuidade de Deus miseriordioso. Foi Deus que concedeu à Ela o mérito de participar do seu projeto. Permitiu que nascesse de pais pecadores, mas, por preservação divina permanecesse incontaminada. 

Maria então foi concebida sem a mancha do orgulho e do desamor que é o pecado original. Em vista disso, a Imaculada Conceição foi a primeira a receber a plenitude da bênção de Deus, por mérito do seu Filho, e que se manifestou na morte e na Ressurreição de Cristo, para redenção da humanidade que crê e segue seus ensinamentos. 

Hoje não comemoramos a memória de um Santo, mas a solenidade mais elevada, maior e mais preciosa da Igreja: a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, a Rainha de todos os Santos, a Mãe de Deus.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Francisco de Assis e a reforma da Igreja por meio da santidade



Texto completo da primeira pregação de Advento do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.

Por Redacao

ROMA, 06 de Dezembro de 2013 (Zenit.org) - Na manhã desta sexta-feira o pregador da casa pontifícia, Pe. Raniero Cantalamessa, OFM, Cap, dirigiu a primeira pregação de Advento. Publicamos a seguir o texto na íntegra:
***
Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.
Primeira pregação de Advento
FRANCISCO DE ASSIS E A REFORMA DA IGREJA POR MEIO DA SANTIDADE
O propósito destas três meditações do Advento é preparar-nos para o Natal na companhia de Francisco de Assis. Dele, nesta primeira meditação, gostaria de destacar a natureza do seu retorno ao Evangelho. O teólogo Yves Congar, em seu estudo sobre "Verdadeira e falsa reforma na Igreja” vê em Francisco o exemplo mais claro de reforma da Igreja pelo caminho da santidade[1]. Gostaríamos de procurar compreender em que consistiu a sua reforma pelo caminho da santidade e o que o seu exemplo implica para cada época da Igreja, inclusive a nossa.
1. A conversão de Francisco
Para entender um pouco da aventura de Francisco é preciso partir da sua conversão. Desse evento existem, nas fontes, diferentes descrições com notáveis diferenças entre si. Felizmente temos uma fonte absolutamente confiável que nos dispensa de escolher entre as várias versões. Temos o mesmo testemunho de Francisco no seu Testamento, a sua ipsissima vox, como se diz das palavras certamente ditas por Cristo no Evangelho. Diz:
«O Senhor concedeu a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer penitência assim: quando eu estava nos pecados parecia-me muito amargo ver os leprosos: e o próprio Senhor conduziu-me entre eles e fui misericordioso para com eles. E ao afastar-me deles, o que me parecia amargo foi-me trocado por doçura de alma e corpo. E, depois, demorei só um pouco e saí do mundo” » (FF 110).
É sobre esse texto que justamente se baseiam os historiadores, mas com um limite intransponível para eles. Os historiadores, mesmo os mais bem intencionados e mais respeitosos com as peculiaridades da vida de Francisco, como era, entre os italianos Raoul Manselli, não conseguem entender o porquê último da sua mudança radical. Detêm-se – e com razão, por causa do seu método - na porta, falando de um "segredo de Francisco", destinado a permanecer assim para sempre.
O que se consegue constatar historicamente é a decisão de Francisco de mudar o seu status social. De pertença à classe superior, que contava na cidade por nobreza e riqueza, ele escolheu colocar-se no extremo oposto, compartilhando a vida dos últimos, daqueles que não eram nada, os assim chamados “menores”, atingidos por todos os tipos de pobreza.
Os historiadores justamente insistem no fato de que Francisco não escolheu a pobreza e muito menos o pauperismo; escolheu os pobres! A mudança é motivada mais pelo mandamento; “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, que pelo conselho: “Se queres ser perfeito, vai’, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem e segue-me”. Era a compaixão pela pobre gente, mais do que a busca da própria perfeição que o movia, a caridade mais do que a pobreza.
Tudo isso é verdade , mas ainda assim não toca o fundo do problema. É o efeito da mudança, não a sua causa. A escolha verdadeira é muito mais radical: não se tratou de escolher entre riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres, entre a pertença a uma classe mais do que a outra, mas de escolher entre si mesmo e Deus, entre salvar a própria vida ou perdê-la pelo Evangelho.
Houve alguns (por exemplo, em tempos mais recentes, Simone Weil ), que chegaram a Cristo por meio do amor aos pobres e houve outros que chegaram aos pobres partindo do amor por Cristo. Francisco pertence a este segundo grupo. A razão profunda da sua conversão não é de natureza social, mas evangélica. Jesus tinha formulado a lei uma vez por todas com uma das frases mais solenes e mais certamente autênticas do Evangelho:
"Se alguém quer vir após mim , negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá , mas quem perder a sua vida por minha causa a encontrará " (Mt 16 , 24-25) .
Francisco, beijando o leproso, negou-se a si mesmo naquilo que era mais “amargo” e repugnante à sua natureza. Fez violência a si mesmo. O detalhe não escapou ao seu primeiro biógrafo que descreve assim o episódio:
"Um dia um leproso parou diante dele: fez violência a si mesmo, aproximou-se dele e o beijou. A partir daquele momento decidiu desprezar-se sempre mais, até que pela misericórdia do Redentor obteve plena vitória”[2].
Francisco não foi voluntariamente aos leprosos, motivado por humana e religiosa compaixão. “O Senhor, escreve, levou-me no meio deles”. É nesse pequeno detalhe que os historiadores não sabem – nem poderiam – dar um juízo, e de fato é a origem de tudo. Jesus tinha preparado o seu coração para que a sua liberdade, no momento certo, respondesse à graça. O sonho de Spoleto tinha servido para isso e a pergunta de se preferia servir o servo ou o patrão, a doença, a prisão em Perugia e aquele mal-estar estranho que não lhe permitia mais encontrar alegria nas diversões e lhe fazia procurar lugares solitários.
Embora sem pensar que se tratasse de Jesus em pessoa sob as aparências de um leproso (como mais tarde tentou-se fazer, pensando no caso análogo da vida de São Martinho de Tours[3]), naquele momento o leproso para Francisco representava em todos os aspectos Jesus. Não tinha ele dito: “O fizestes comigo”? Naquele momento escolheu entre si mesmo e Jesus. A conversão de Francisco é da mesma natureza daquela de Paulo. Para Paulo, em um certo momento, aquilo que antes tinha sido “lucro” mudou e tornou-se "perda", "por amor de Cristo" (Fil 3, 5ss); para Francisco aquilo que tinha sido amargo converteu-se em doçura, também aqui “por Cristo”. Depois deste momento, ambos podem dizer: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim".
Tudo isso nos obriga a corrigir uma certa imagem de Francisco popularizada pela literatura posterior e aceita por Dante na Divina Comedia. A famosa metáfora das núpcias de Francisco com a Senhora Pobreza que deixou marcas profundas na arte e na poesia franciscanas pode ser enganosa. Não apaixona-se por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa. As núpcias de Francisco foram, como aquelas de outros místicos, um casamento com Cristo.
Aos companheiros que lhe perguntavam se ele pretendia ter uma mulher, vendo-o uma noite estranhamente ausente e brilhante, o jovem Francisco respondeu : "Terei a esposa mais nobre e bela que vocês jamais viram”. Esta resposta é muitas vezes mal interpretada. Do contexto aparece claro que a esposa não é a pobreza, mas o tesouro escondido e a pérola preciosa, ou seja, Cristo. “Esposa, comenta Celano que narra o episódio, é a verdadeira religião que ele abraçou; e o reino dos céus é o tesouro escondido que ele procurou”[4].
Francisco não se casou com a pobreza, nem sequer com os pobres; casou-se com Cristo e foi por amor a ele que se casou, por assim dizer “em segundas núpcias” com a Senhora pobreza. Assim será sempre na santidade cristã. Na base do amor pela pobreza e pelos pobres, ou está o amor por Cristo, ou os pobres serão, de um modo ou de outro, instrumentalizados e a pobreza se tornará facilmente um fato polêmico contra a Igreja, ou uma ostentação de maior perfeição com relação a outros na Igreja, como aconteceu, infelizmente, também em alguns dos seguidores do Poverello. Em ambos os casos, faz-se da pobreza a pior forma de riqueza, aquela da própria justiça.
2. Francisco e a reforma da Igreja
Como foi que aconteceu que a partir de um evento tão íntimo e pessoal, como foi a conversão do jovem Francisco, tenha começado um movimento que mudou ao mesmo tempo o rosto da Igreja e teve tanta influência na história, até os nossos dias?
É preciso dar uma olhada na situação da época. Na época de Francisco a reforma da Igreja era uma necessidade sentida mais ou menos conscientemente por todos. O corpo da Igreja vivia tensões e lacerações profundas. De um lado estava a Igreja institucional - papa, bispos, alto clero – desgastados pelos seus perenes conflitos e pelas suas alianças muito próximas com o império. Uma Igreja sentida muito distante, envolvida em assuntos muito acima dos interesses do povo. Em seguida, estavam as grandes ordens religiosas, muitas vezes prósperas pela cultura e espiritualidade após as várias reformas do século XI, entre as quais aquela Cisterciense, mas fatalmente identificadas com os grandes proprietários de terras, senhores feudais da época, vizinhos e ao mesmo tempo remotos também eles, por problemas e padrões de vida, do povo comum.
No lado oposto havia uma sociedade que começava a emigrar dos campos para as cidades em busca de maior liberdade das várias servidões. Esta parte da sociedade identificava a Igreja com as classes dominantes das quais se sentia a necessidade de libertar-se. Assim, se alinhavam de boa vontade com aqueles que a contradiziam e a combatiam: hereges, grupos radicais e pauperísticos, enquanto simpatizava com o baixo clero, muitas vezes não com a altura espiritual dos prelados, porém mais perto das pessoas.
Havia, portanto, fortes tensões que cada um procurava explorar em proveito próprio. A Hierarquia procurava responder a estas tensões melhorando a própria organização e reprimindo os abusos, tanto internamente (luta contra a simonia e concubinato dos padres) quanto externamente na sociedade. Os grupos hostis procuravam, pelo contrário, explodir as tensões, radicalizando o contraste com a Hierarquia dando origem a movimentos mais ou menos cismáticos. Todos brandiam contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica fazendo disso uma arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser vivido com humildade, chegando a questionar também o ministério da Igreja, o sacerdócio e o papado.
Estamos acostumados a ver Francisco como o homem providencial que capta essas demandas populares de renovação, as purifica de toda carga polêmica e as traz de volta ou as atua na Igreja em profunda comunhão e submissão a essa. Francisco, portanto, como uma espécie de mediador entre os hereges rebeldes e a Igreja institucional. Em um conhecido manual de história da Igreja é apresentada dessa forma a sua missão:
"Já que a riqueza e o poder da Igreja apareciam muitas vezes como uma fonte de graves males e os hereges do tempo a utilizavam como argumento para as principais acusações contra ela, em algumas almas piedosas surgiu o nobre desejo de restaurar a vida pobre de Jesus e da Igreja primitiva, para poder assim mais eficazmente, influenciar no povo com a palavra e o exemplo”[5].
Entre estas almas coloca-se naturalmente em primeiro lugar, juntamente com São Domingos, Francisco de Assis. O historiador protestante Paul Sabatier, embora tão benemérito dos estudos franciscanos, tornou quase canônica entre os historiadores, e não só entre aqueles leigos e protestantes, a tese segundo a qual o cardeal Ugolino (o futuro Papa Gregório IX) teria tido a intenção de captar Francisco para a Cúria, domesticando a carga crítica e revolucionária do seu movimento. Na prática é a tentativa de fazer de Francisco, um precursor de Lutero, ou seja, um reformador pela via de críticas, mais do que da santidade.
Não sei se esta intenção possa ser atribuída a algum dos grandes protetores e amigos de Francisco. Parece difícil atribuí-la ao card. Ugolino e menos ainda a Inocêncio III, conhecido pela ação reformadora e o apoio dado às várias formas novas de vida espiritual surgidas em seu tempo, incluído os Frades Menores, os dominicanos, os Humilhados Milaneses. Uma coisa, porém, é absolutamente certa: aquela intenção nunca passou pela mente de Francisco. Ele nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja.
É preciso ter cuidado para não tirar conclusões erradas das famosas palavras do Crucifixo de São Damião “Vai’, Francisco e repara a minha Igreja que, como vês, está em ruínas”. As fontes mesmas nos asseguram que ele compreendeu aquelas palavras no sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a igrejinha de São Damião. Foram os discípulos e os biógrafos que interpretaram – e, é preciso dizer, não sem razão - aquelas palavras como se referindo à Igreja instituição e não só à Igreja edifício. Ele permaneceu sempre na sua interpretação literal e de fato continuou a reparar outras igrejinhas nos arredores de Assis que estavam em ruínas.
Também o sonho em que Inocêncio III teria visto o Poverello sustentar com as suas costas a Igreja de Latrão desmoronando não diz nada de mais. Supondo que o fato seja histórico (um fato análogo também é narrado sobre São Domingos), o sonho foi do papa, não de Francisco! Ele nunca foi visto como o vemos hoje no afresco de Giotto. Isto significa ser reformador pelo caminho da santidade: sê-lo, sem sabê-lo!
3. Francisco e o retorno ao Evangelho
Se não quis ser um reformador, o que foi que quis ser e fazer Francisco? Também aqui temos a sorte de ter o testemunho direto do Santo no seu Testamento:
"E depois que o Senhor me deu irmãos , ninguém me mostrou o que eu deveria fazer; mas o mesmo Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu com poucas palavras e simplesmente o fiz escrever, e o senhor Papa mo confirmou”.
Fala do momento no qual, durante uma Missa, escutou a passagem do evangelho onde Jesus envia os seus discípulos dizendo: "Enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos. E disse-lhes: «Nada leveis para o caminho, nem bastão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro; tampouco tenhais duas túnicas” (Lc 9, 2-3)[6]. Foi uma revelação impressionante daquelas que orientam toda uma vida. Daquele dia em diante foi clara a sua missão: um retorno simples e radical ao evangelho real, aquele vivido e pregado por Jesus. Restaurar no mundo a forma e o estilo de vida de Jesus e dos apóstolos descrito nos evangelhos. Escrevendo a Regra para os seus frades começará assim:
"A regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo".
Francisco não teorizou esta sua descoberta, tornando-a o programa para a reforma da Igreja. Ele realizou em si a reforma e assim indicou tacitamente à Igreja o único caminho para sair da crise: reaproximar-se do evangelho, reaproximar-se dos homens e especialmente dos humildes e dos pobres.
Este retorno ao Evangelho reflete-se em primeiro lugar na pregação de Francisco. É surpreendente, mas todos notaram: o Poverello fala quase sempre de "fazer penitência". A partir de então, diz o Celano, com grande fervor e exultação, ele começou a pregar a penitência, edificando todos com a simplicidade de suas palavras e a generosidade de seu coração. Onde quer que fosse, Francisco dizia, recomendava, suplicava que fizessem penitência[7].
O que é que Francisco compreendia com esta palavra que ele trazia tanto no coração? Neste sentido caímos (pelo menos eu caí por muito tempo) em erro. Reduzimos a mensagem de Francisco a uma simples exortação moral, a um bater-se no peito, angustiar-se e mortificar-se para expiar os pecados, enquanto que tem toda a vastidão e o ar do evangelho de Cristo. Francisco não exortava a fazer “penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que, veremos, é totalmente outra coisa.
O Poverello, exceto nos poucos casos que conhecemos, escrevia em latim.. E o que encontramos no texto latino, do Testamento, quando escreve: “O Senhor deu a mim, frade Francisco, começar a fazer penitência assim”? Encontramos a expressão “poenitentiam agere”. Sabe-se que ele amava expressar-se com as mesmas palavras de Jesus. E esta palavra – fazer penitência – é a palavra com a qual Jesus começou a pregar e que repetia em cada cidade e aldeia onde ia:
“Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galiléia proclamando o Evangelho de Deus: cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).
A palavra que hoje se traduz com “convertei-vos” ou “arrependei-vos”, no texto da Vulgata usado pelo Poverello, soava “poenitemini” e em Atos 2, 37 ainda mais literalmente “poenitentiam agite”, fazei penitência. Francisco nada fez além de relançar o grande apelo à conversão com o qual se abre a pregação de Jesus no Evangelho e aquela dos apóstolos no dia de Pentecostes. O que ele quis dizer com a palavra "conversão" não precisa explicá-lo: sua vida, ele mostrou.
Francisco fez no seu tempo aquilo que no tempo do Concílio Vaticano II tentou-se fazer com o lema: “quebrar as muralhas”: quebrar o isolamento da Igreja, trazê-la de novo para o contato com o povo. Um dos fatores de escuridão do evangelho era a transformação da autoridade compreendida como serviço, em autoridade compreendida como poder que tinha produzido infinitos conflitos dentro e fora da Igreja. Francisco, por sua vez, resolve o problema em senso evangélico. Na sua Ordem, novidade absoluta, os superiores se chamarão ministros, ou seja, servos, e todos os outros frades, ou seja, irmãos.
Outro muro de separação entre a Igreja e o povo era a ciência e a cultura da qual o clero e os monges tinham o monopólio na prática. Francisco sabe disso e, portanto, assume a posição drástica que sabemos sobre este ponto. Ele não é contrário à ciência-conhecimento, mas à ciência-poder; aquela que favorece aqueles que sabem ler sobre aqueles que não sabem ler e lhes permite comandar com altivez ao irmão: "Traga-me o breviário". Durante o famoso Capítulo das Esteiras a alguns dos seus irmãos que queriam empurrá-lo a adequar-se à atitude das “ordens” cultas do tempo, respondeu com palavras de fogo que deixaram, lê-se, os frades tomados de temor:
"Irmãos, meus irmãos, Deus me chamou para trilhar o caminho da simplicidade e o mostrou para mim. Não quero, portanto que me citem outrsa Regras, nem aquela de Santo Agostinho, nem aquela de São Bernardo ou de São Bento. O Senhor revelou -me ser sua vontade que eu fosse um idiota no mundo: esta é a ciência à qual Deus quer que nos dediquemos! Ele vos confundirá por meio da vossa mesma ciência e sabedoria”[8].
Sempre a mesma atitude coerente. Ele quer para si e para os seus irmãos a mais rígida pobreza, mas na Regra, exorta-os a “não desprezar e a não julgar os homens que vêm vestidos com hábitos finos e coloridos e usar comida e bebida delicadas, mas sim cada um julgue e despreze a si mesmo”[9]. Escolhe ser um iletrado mas não condena a ciência. Uma vez assegurado que a ciência não extinga “o espírito da santa oração e devoção”, será ele mesmo a permitir a frade Antonio de dedicar-se ao ensino da teologia e São Boaventura não pensa que está traindo o espírito do fundador, abrindo a ordem aos estudos nas grandes universidades. Yves Congar vê nisso uma das condições essenciais da “verdadeira reforma” na Igreja, a reforma, ou seja, que permanece tal e não se transforma em cisma: isto é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas permanecer solidário com o todo que é a Igreja[10]. A convicção, diz o Papa Francisco, na sua recente Exortação apostólica Fidei gaudium, que “o todo é superior à parte”.
4. Como imitar Francisco
O que diz a nós hoje a experiência de Francisco? O que podemos imitar dele, todos e rápido? Sejam aqueles que Deus chama a reformar a Igreja pelo caminho da santidade, sejam aqueles que se sentem chamados a renová-la pelo caminho da crítica, sejam aqueles que ele mesmo chama a reformá-la pelo caminho do cargo que ocupam?  A mesma coisa com a qual se começou a aventura espiritual de Francisco: a sua conversão do eu a Deus, a sua negação de si. É assim que nascem os verdadeiros reformadores, aqueles que mudam realmente algo na Igreja. Os mortos a si mesmos. Melhor, aqueles que decidem seriamente morrer a si mesmos, porque se trata de uma empresa que dura toda a vida e também além, se, como dizia brincando santa Teresa de Ávila, o nosso amor próprio morre vinte minutos depois de nós.
Dizia um santo monge ortodoxo, Silvano do Monte Athos: “Para ser verdadeiramente livres, é necessário começar a ligar a si mesmo”. Homens como estes são livres com a liberdade do Espírito; nada os para e nada os espanta mais. Tornam-se reformadores pelo caminho da santidade, e não somente pelo caminho do ofício.
Mas o que significa a proposta de Jesus de negar-se a si mesmo? É ainda possível propô-la a um mundo que fala somente de auto-realização, auto-afirmação? A negação nunca é fim em si mesmo, nem um ideal em si. A coisa mais importante é aquela positiva: Se queres seguir-me; É o seguir Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer sim a Cristo é o fim. Paulo a apresenta como uma espécie de lei do espírito: “Se com a ajuda do Espírito fazes morrer as obras da carne, vivereis” (Rom 8, 13). Isso, como se pode ver, é um morrer para viver; é o oposto da visão filosófica que diz que a vida humana é “um viver para morrer” (Heidegger)..
Trata-se de saber qual fundamento queremos dar à nossa existência: se o nosso “eu” ou “Cristo”; na linguagem de Paulo, se queremos viver “para nós mesmos”, ou “para o Senhor” (cf. 2 Coríntios 5, 15, Rom 14 , 7-8). Viver “para si mesmos” significa viver para a própria comodidade, a própria glória, o próprio progresso; viver “para o Senhor” significa recolocar sempre em primeiro lugar, nas nossas intenções, a glória de Cristo, os interesses do Reino e da Igreja. Cada “não”, pequeno ou grande, falado a si mesmo por amor, é um sim dito a Cristo.
Somente deve-se evitar a ilusão. Não se trata de saber tudo sobre a negação cristã, sua beleza e necessidade; trata-se de passar ao ato, de praticá-la. Um grande mestre de espírito da antiguidade dizia: “É possível despedaçar dez vezes a própria vontade em um brevíssimo tempo; e vos digo como. A pessoa está passeando e vê algo; o seu pensamento lhe diz: “Olha lá”, mas ele responde ao seu pensamento: “Não, não olho”, e despedaça assim a própria vontade. Depois encontra outros que estão falando (leia falando mal de alguém) e o seu pensamento lhe diz: “Fale’ também você aquilo que sabe”, e despedaça a sua vontade calando”[11].
Este antigo Padre traz, como se vê, exemplos tirados todos da vida monástica. Mas eles podem ser atualizados e adaptados facilmente para a vida de cada um, clérigos e leigos. Encontros, se não com um leproso como Francisco, com um pobre que você sabe que vai lhe pedir algo; o seu homem velho te empurra a passar do lado oposto do caminho, e você pelo contrário, se faz violência e lhe vai ao encontro, talvez presenteando-lhe somente com uma saudação e um sorriso, se não pode fazer outra coisa. Oferecem a você a ocasião para um lucro ilícito: e você diz não e negou a si mesmo. Foi contestado em uma ideia; toca o ponto sensível, gostaria de responder com força, cala e espera: despedaçou o seu eu. Acredita ter sido passado pra trás, um tratamento, ou um destino não adequado aos seus merecimentos: gostaria de contar para todos, fechando-se em um silêncio cheio de tácita reprovação. Diz não, quebra o silêncio, sorri e reabre o diálogo. Negou a si mesmo e salvou a caridade. E assim por diante. Um sinal que prova uma boa luta contra o próprio eu, é a capacidade ou ao menos o esforço de alegrar-se pelo bem feito ou a promoção recebida de outro, como se acontecesse consigo mesmo:
 “Bem aventurado aquele servo – escreve Francisco em uma das suas Admoestações – que não se orgulha pelo bem que o Senhor diz e obra por meio dele, mas sim pelo bem que diz e obra por meio de outro”.
Uma meta difícil (eu não falo certamente como quem já a alcançou!), mas a história de Francisco, nos mostra o que pode nascer de uma negação de si feita em resposta à graça. A meta final é poder dizer com Paulo e com Ele: “Não mais eu que vivo, Cristo vive em mim”. E haverá alegria e paz plenas, já sobre esta terra. Francisco, em sua "perfeita alegria", é um exemplo vivo da "alegria que vem do Evangelho," do Evangelii gaudium!

Rezar é incomodar a Deus até que ele nos escute





Por Redacao

ROMA, 06 de Dezembro de 2013 (Zenit.org) - Durante a homilia desta manhã na Casa Santa Marta, o santo padre nos convidou a rezar com insistência e com a certeza de que Deus escutará a nossa oração. Ele explicou que a oração tem duas características: a "necessidade" e ao mesmo tempo a "certeza" de que Deus, no seu tempo e do seu jeito, satisfará a nossa necessidade.
Quando é verdadeiramente cristã, a oração oscila entre a necessidade e a certeza de ser atendida, embora não se saiba exatamente quando. Quem reza não teme “incomodar” a Deus e nutre uma confiança cega em seu amor de Pai. Confiança como a dos dois cegos da passagem do evangelho de hoje, que gritam atrás de Jesus para mostrar a sua necessidade de cura. Ou como o cego de Jericó, que invoca a intervenção do Mestre gritando mais alto que aqueles que o mandam calar a boca. O santo padre recorda que o próprio Jesus nos ensinou a rezar como "o amigo incômodo", que mendiga comida à meia-noite, ou como "a viúva que procura o juiz corrupto".
Francisco afirmou: "Não sei se isto soa mal, mas rezar é mais ou menos como incomodar a Deus até que ele nos escute. Mas é nosso Senhor quem diz: como o amigo à meia-noite, como a viúva diante do juiz... É atrair os olhos, atrair o coração de Deus para nós... E os leprosos que foram falar com ele também fizeram isto: 'Se quiseres, podes me curar'. Eles agiram com um grau de certeza. É assim que Jesus nos ensina a rezar. Quando nós rezamos, pensamos às vezes: 'Mas eu falo desta necessidade, eu falo para Deus uma, duas, três vezes, mas não com muita força. Depois me canso de pedir e me esqueço de pedir'. Eles não: eles gritavam e não se cansavam de gritar. Jesus nos diz: 'Peçam’, mas também nos diz: 'Batam à porta'. E quem bate à porta incomoda, perturba".
Insistir a ponto até de incomodar, mas com uma certeza inquebrantável: o santo padre observou que "a oração tem essas duas atitudes: a necessidade e a certeza. Oração de necessidade sempre: a oração, quando pedimos algo, é de necessidade: 'Eu tenho esta necessidade, Senhor, escuta'. Mas também, quando é verdadeira, ela tem certeza; 'Escuta, Senhor! Eu acredito que tu podes fazer isso porque tu prometeste".
"Ele prometeu": esta é a pedra angular em que se apoia a certeza de uma oração. Francisco recordou que, "com esta certeza, nós contamos para Deus as nossas necessidades, convictos de que Ele pode atender". E completou: rezar é sentir que Jesus nos dirige a pergunta dos dois cegos: ‘tu acreditas que eu posso fazer isso?’.
Para terminar, o santo padre explicou que "Deus pode. Quando e como, não sabemos. Esta é a certeza da oração. A necessidade de dizer a verdade a Deus. 'Sou cego, Senhor. Tenho esta necessidade. Tenho esta doença. Tenho este pecado. Tenho este sofrimento...', mas sempre a verdade, do jeito que ela é. E ele sente a necessidade, mas sente que nós pedimos a sua ajuda com certeza. Vamos pensar nisto: se a nossa oração é de necessidade e de certeza. De necessidade porque nos dizemos a verdade para nós mesmos, e de certeza porque acreditamos mesmo que Deus pode fazer aquilo que pedimos".

São Nicolau



Nicolau - se lê na Lenda Áurea - nasceu de ricas e santas pessoas. No dia que tomou o primeiro banho, levantou-se sozinho na bacia"... menino de excelentes qualidades e já inclinado à ascese, pois conforme acrescenta a Lenda, nas quartas e nas sextas-feiras rejeitava o leite materno. Ficando um pouquinho maior desprezava os divertimentos e vaidades e freqüentava mais a Igreja. De São Nicolau, bispo de Mira (Lícia) no século IV, temos várias notícias incluindo algumas lendas que germinaram em torno desta Santo muito popular, cuja imagem todos os anos é reproposta pelos comerciantes nas vestes de Papai Noel (Nikolaus na Alemanha e São Claus nos países anglo-saxões), um velho coroado de barba branca, trazendo nas costas um saco cheio de presentes.

Sua devoção difundiu-se na Europa quando as suas supostas relíquias, roubadas de Mira por 62 soldados de Bari, e trazidas a salvo, substraindo-as aos invasores turcos, foram colocadas com grandes honras na catedral de Bari a 09 de Maio de 1807. O Santo pastor teve cuidado do seu rebanho, distinguindo-se pela sua generosa caridade. "Um vizinho seu chegou a tal extremo de pobreza que mandou suas três filhas virgens venderem o próprio corpo para assim não morrerem de fome..." Para que fosse evitado esse pecado, São Nicolau, passando três vezes à noite diante da casa do pobrezinho deixou cada vez uma bolsa cheia de moedas de ouro e com esse dote cada uma das filhas teve um bom marido. Conta-se ainda que invocado por alguns marinheiros durante furiosa tempestade no mar, ele lhes apareceu e no mesmo instante o furacão se acalmou. Parece mesmo que com os marinheiros tinha conta aberta: durante uma carestia obteve de um navio de trigo uma grande porção para seus fiéis e depois, quando controlaram a carga, nada faltava. Na Idade Média os dramas e os jogos tiveram como protagonista o santo Taumaturgo.

Hoje, sob as falsas vestes do Papai Noel, São Nicolau nos lembra o grande comandante do amor.

A confissão cura a alma



Cardeal Mauro Piacenza convida todos os fiéis a viverem o sacramento da reconciliação, a começar pelos sacerdotes
Por Antonio Gaspari

ROMA, 05 de Dezembro de 2013 (Zenit.org) -  "Todos os grandes santos confessores, como o Cura d'Ars, São Leopoldo Mandic, São Pio de Pietrelcina, também analisavam cuidadosamente o seu próprio estado de saúde espiritual, utilizando-se muitas vezes do confessionário", explicou o cardeal Mauro Piacenza na abertura da 3ª Semana Internacional da Reconciliação, realizada no final de novembro em San Giovanni Rotondo.
O cardeal afirmou que a frase "Creio na remissão dos pecados" é uma antiga profissão de fé, de origem romana, tradicionalmente ligada o anúncio dos próprios apóstolos, e que atingiu a sua formulação definitiva já no século II, embora pequenas variações no texto possam ter ocorrido no período carolíngio.
Em sua raiz, o Credo dos Apóstolos é uma forma extraordinária de professar a fé, afirmou o cardeal, recordando que "Cristo derramou o dom do Espírito Santo sobre os apóstolos vinculando-o à remissão dos pecados cometidos pelos homens".
Apontando no batismo "a primeira e principal forma de remissão dos pecados por obra do Espírito Santo", Piacenza declarou que o batismo e a penitência estão intimamente ligados, já que esta última é referida muitas vezes como um “segundo batismo" ou até mesmo como a "segunda penitência", reconhecendo o batismo como a primeira.
O papa Francisco, recentemente, perguntou aos fiéis se eles sabiam o dia em que foram batizados, para comemorá-lo como se comemora o aniversário de nascimento. Disse o papa: "Quando vamos confessar as nossas fraquezas, os nossos pecados, nós pedimos o perdão de Jesus e também renovamos o batismo com esse perdão. E isso é bonito, é como comemorar o dia do nosso batismo em cada confissão".
De acordo com o penitenciário-mor, o batismo e a confissão reabrem as portas que estavam fechadas por causa das nossas fraquezas. "Deixar-se perdoar por Deus, deixar-se amar pelo amor divino que purifica, é um aspecto fundamental do nosso ser cristãos e, em particular, do nosso ser sacerdotes", ressaltou, acrescentando que um padre "que não se reconcilia com Deus dificilmente será um bom reconciliador dos homens com Deus".
"Ao levantar a mão em bênção e pronunciar a fórmula prescrita de absolvição, o que o sacerdote faz é emprestar o seu corpo e a sua voz para o próprio Senhor, que banha a alma do penitente com o mérito do seu precioso sangue expiatório: aquele sangue que, juntamente com a água, símbolo batismal, fluiu do seu lado sagrado na cruz".
A confissão, prosseguiu o cardeal, não é um trabalho de rotina, muito menos um "aconselhamento", mas um "mistério da fé" e um "sinal sacramental". "É preciso lembrar que o padre, no confessionário, como em outros âmbitos do seu ministério, não fala em seu próprio nome, mas em nome de Cristo e da Igreja, da qual ele é humilde ministro". E esta mesma palavra, do latim minister, significa precisamente servo, "aquele que está a serviço".
Como humildes trabalhadores na vinha do Senhor, acrescentou Piacenza, "nós não somos chamados a reinventar a doutrina e a moral. O que nós temos é o dever de orientar as consciências à luz delas".
O cardeal exortou os sacerdotes a se manterem disponíveis para ouvir as confissões individuais dos fiéis: "É altamente desejável que todos os dias haja um padre no confessionário, inclusive em horários determinados, para que as pessoas possam vê-lo à espera das almas que precisam ser reconciliadas com Deus".
"A experiência ensina que os fiéis recebem este sacramento com alegria nos locais em que eles sabem e veem que há sacerdotes disponíveis. E não podemos nos esquecer da possibilidade de facilitar o recurso dos fiéis ao sacramento da reconciliação e da penitência também durante a celebração da Santa Missa".

Palavras cristãs sem Cristo enganam, fazem mal



Em Santa Marta, o Papa Francisco adverte para o perigo de falar palavras boas, não fundamentadas na rocha, e que nos torna soberbos
Por Salvatore Cernuzio

ROMA, 05 de Dezembro de 2013 (Zenit.org) - Enquanto, na sala ao lado, os oito cardeais davam prosseguimento aos trabalhos para a Reforma da Cúria romana, o Papa Francisco também continuava, na Capela Santa Marta, uma obra de reforma. Não dos Dicastérios, mas da consciência do cristão. Na missa celebrada esta manhã, o Santo Padre destacou um aspecto do ‘ser cristão’ que há alguns meses ele já havia admoestado durante suas homilias matutinas: “ser cristão sem Cristo”, ou seja, pronunciar palavras boas, mas não colocá-las em prática, fazendo mal a si mesmo e aos outros.
Em sua reflexão, citando a liturgia do dia, Francisco destacou que Jesus repreende os fariseus, que conheciam os mandamentos, mas não os praticavam em suas vidas. O que sai da boca dos fariseus "são palavras boas, mas se não são colocadas em prática não servem a nada e fazem mal, enganam, nos fazem acreditar que temos uma casa bonita, mas sem fundamento".
A figura da casa que não é construída sobre a rocha, explica Francisco, “se refere ao Senhor”. Isaías, na primeira leitura, afirma: Confiem no Senhor sempre, pois o Senhor é uma rocha eterna. A rocha é Jesus Cristo! A rocha é o Senhor! Exclama o Papa explicando que: “Uma palavra é forte, dá vida, pode ir em frente, pode resistir a todos os ataques, se tem suas raízes em Jesus Cristo. Uma palavra cristã que não tem suas raízes vitais, na vida de uma pessoa, em Jesus Cristo, é uma palavra cristã sem Cristo!” E as palavras cristãs sem Cristo enganam, fazem mal!”
O Papa aprofundou o conceito citando um escritor inglês que falando sobre heresias disse: “uma heresia é uma verdade, uma palavra, uma verdade que se tornou louca”. “Quando as palavras cristãs são sem Cristo iniciam a caminhar na estrada da loucura", destaca Bergolgio.
Com efeito, essa loucura nos conduz ao pecado de orgulho e soberba. "Uma palavra cristã sem Cristo leva à vaidade, à segurança de si mesmo, ao orgulho e ao poder pelo poder”.
“O Senhor derruba essas pessoas”. A história da salvação demonstra isso constantemente. E recorda ainda Bergolgio: “É o que diz Ana, a mãe de Samuel, diz Maria no Magnificat: o Senhor derrubou a vaidade, o orgulho daquelas pessoas que acreditam ser rocha”.
O Senhor humilha “essas pessoas que só vão atrás de uma palavra”, até mesmo uma palavra cristã, mas pronunciada “sem o relacionamento com Jesus Cristo, sem a oração com Jesus Cristo, sem o serviço a Jesus Cristo e sem o amor a Jesus Cristo”.
O Papa acrescenta que o “Senhor nos diz hoje para construir a nossa vida sobre esta rocha e a rocha é Ele". "Nos fará bem fazer um exame de consciência", para entender “como são as nossas palavras, se são palavras “que se consideram potentes, ou se são “palavras com Jesus Cristo"."Refiro-me às palavras cristãs, porque quando não há Jesus Cristo até mesmo essas palavras nos dividem, causam divisão na Igreja”..
Ao terminar a homilia, como de costume, o Papa indicou uma graça a ser pedida. “Hoje, peçamos ao Senhor a graça de nos ajudar nesta humildade que devemos ter sempre, de dizer palavras cristãs em Jesus Cristo e não sem Ele. Com a humildade de ser discípulos salvos e ir em frente não com palavras que, considerando-se poderosas, terminam na loucura da vaidade, na loucura do orgulho, mas de dizer palavras com Jesus Cristo, fundadas Nele."
(Trad.:MEM)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Creio na ressurreição da carne: verdade não simples e longe de ser óbvia



Palavras do Papa Francisco pronunciadas durante a Audiência Geral desta quarta-feira

CIDADE DO VATICANO, 04 de Dezembro de 2013 (Zenit.org) - Publicamos a seguir as palavras do Papa Francisco dirigidas aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro para a Audiência Geral desta quarta-feira, 04 de dezembro.
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje retorno ainda com a afirmação “Creio na ressurreição da carne”. Trata-se de uma verdade não simples e longe de ser óbvia, porque, vivendo imersos neste mundo, não é fácil compreender as realidades futuras. Mas o Evangelho nos ilumina: a nossa ressurreição está estreitamente ligada à ressurreição de Jesus; o fato de que Ele ressuscitou é a prova de que existe a ressurreição dos mortos. Gostaria, então, de apresentar alguns aspectos que dizem respeito à relação entre a ressurreição de Cristo e a nossa ressurreição. Ele ressuscitou e porque Ele ressuscitou também nós ressuscitaremos.
Antes de tudo, a própria Sagrada Escritura contém um caminho para a fé plena na ressurreição dos mortos. Esta se exprime como fé em Deus criador de todo o homem – alma e corpo – e como fé em Deus libertador, o Deus fiel à aliança com o seu povo. O profeta Ezequiel, em uma visão, contempla os sepulcros dos deportados que são re-abertos e os ossos secos voltando a viver graças à infusão de um espírito vivificante. Esta visão exprime a esperança na futura “ressurreição de Israel”, isso é, no renascimento do povo dizimado e humilhado. (cfr Ez 37,1-14).
Jesus, no Novo Testamento, cumpre esta revelação, e liga a fé na ressurreição à sua própria pessoa e diz: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11, 25). De fato, será Jesus o Senhor que ressuscitará no último dia quantos acreditaram Nele. Jesus veio entre nós, fez-se homem como nós em tudo, exceto no pecado; deste modo, levou-nos consigo em seu caminho de retorno ao Pai. Ele, o Verbo encarnado, morto por nós e ressuscitado, doa aos seus discípulos o Espírito Santo como penhor da plena comunhão no seu Reino glorioso, que esperamos vigilantes. Esta espera é a fonte e a razão da nossa esperança: uma esperança que, se cultivada e protegida – a nossa esperança, se nós a cultivamos e a protegemos – torna-se luz para iluminar a nossa história pessoal e também a história comunitária. Recordemos isso sempre: somos discípulos d’Aquele que veio, vem todos os dias e virá no final. Se conseguirmos ter mais presente essa realidade, estaremos menos cansados do cotidiano, menos prisioneiros do efêmero e mais dispostos a caminhar com coração misericordioso na via da salvação
Um outro aspecto: o que significa ressuscitar? A ressurreição de todos nós virá no último dia, no fim do mundo, por obra da onipotência de Deus, O qual restituirá a vida ao nosso corpo reunindo-o à alma, em força da ressurreição de Jesus. Esta é a explicação fundamental: porque Jesus ressuscitou, nós ressuscitaremos; nós temos a esperança na ressurreição porque Ele nos abriu a porta para esta ressurreição. E esta transformação, esta transfiguração do nosso corpo é preparada nesta vida de relacionamento com Jesus, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia. Nós, que nesta vida somos alimentados pelo seu Corpo e Sangue, ressuscitaremos como Ele, com Ele e por meio Dele. Como Jesus ressuscitou com o seu próprio corpo, mas não retornou a uma vida terrena, assim nós ressurgiremos com os nossos corpos que serão transfigurados em corpos gloriosos. Mas isto não é uma mentira! Isto é verdade. Nós acreditamos que Jesus ressuscitou, que Jesus está vivo neste momento. Mas vocês acreditam que Jesus está vivo? E se Jesus está vivo, vocês pensam que nos deixará morrer e não nos ressuscitará? Não! Ele nos espera, e porque Ele ressuscitou, a força da sua ressurreição ressuscitará todos nós.
Um último elemento: já nesta vida, temos em nós uma participação na Ressurreição de Cristo. Se é verdade que Jesus nos ressuscitará no fim dos tempos, é também verdade que, por um certo aspecto, com Ele já ressuscitamos. A vida eterna começa já neste momento, começa durante toda a vida, que é orientada para aquele momento da ressurreição final.. E já ressuscitamos, de fato, mediante o Batismo, fomos inseridos na morte e ressurreição de Cristo e participamos da vida nova, que é a sua vida. Portanto, à espera do último dia, temos em nós mesmos uma semente de ressurreição, aquela antecipação da ressurreição plena que receberemos por herança. Por isto, o corpo de cada um de nós é ressonância de eternidade, então deve ser sempre respeitado; e, sobretudo; deve ser respeitada e amada a vida de quantos sofrem, para que sintam a proximidade do Reino de Deus, daquela condição de vida eterna para a qual caminhamos. Este pensamento nos dá esperança: estamos em caminho rumo à ressurreição. Ver Jesus, encontrar Jesus: esta é a nossa alegria! Estaremos todos juntos – não aqui na praça, mas em outro lugar – mas alegres com Jesus. Este é o nosso destino!