ROMA, 06 de Dezembro de 2013 (
Zenit.org) - Na manhã desta sexta-feira o pregador da
casa pontifícia, Pe. Raniero Cantalamessa, OFM, Cap, dirigiu a primeira pregação
de Advento. Publicamos a seguir o texto na íntegra:
***
Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.
Primeira pregação de Advento
FRANCISCO DE ASSIS E A REFORMA DA IGREJA POR MEIO DA SANTIDADE
O propósito destas três meditações do Advento é preparar-nos para o Natal na
companhia de Francisco de Assis. Dele, nesta primeira meditação, gostaria de
destacar a natureza do seu retorno ao Evangelho. O teólogo Yves Congar, em seu
estudo sobre "Verdadeira e falsa reforma na Igreja” vê em Francisco o exemplo
mais claro de reforma da Igreja pelo caminho da santidade
[1]. Gostaríamos de
procurar compreender em que consistiu a sua reforma pelo caminho da santidade e
o que o seu exemplo implica para cada época da Igreja, inclusive a nossa.
1. A conversão de Francisco
Para entender um pouco da aventura de Francisco é preciso partir da sua
conversão. Desse evento existem, nas fontes, diferentes descrições com notáveis
diferenças entre si. Felizmente temos uma fonte absolutamente confiável que nos
dispensa de escolher entre as várias versões. Temos o mesmo testemunho de
Francisco no seu Testamento, a sua
ipsissima vox, como se diz das
palavras certamente ditas por Cristo no Evangelho. Diz:
«O Senhor concedeu a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer
penitência assim: quando eu estava nos pecados parecia-me muito amargo ver os
leprosos: e o próprio Senhor conduziu-me entre eles e fui misericordioso para
com eles. E ao afastar-me deles, o que me parecia amargo foi-me trocado por
doçura de alma e corpo. E, depois, demorei só um pouco e saí do mundo” » (FF
110).
É sobre esse texto que justamente se baseiam os historiadores, mas com um
limite intransponível para eles. Os historiadores, mesmo os mais bem
intencionados e mais respeitosos com as peculiaridades da vida de Francisco,
como era, entre os italianos Raoul Manselli, não conseguem entender o porquê
último da sua mudança radical. Detêm-se – e com razão, por causa do seu método -
na porta, falando de um "segredo de Francisco", destinado a permanecer assim
para sempre.
O que se consegue constatar historicamente é a decisão de Francisco de mudar
o seu status social. De pertença à classe superior, que contava na cidade por
nobreza e riqueza, ele escolheu colocar-se no extremo oposto, compartilhando a
vida dos últimos, daqueles que não eram nada, os assim chamados “menores”,
atingidos por todos os tipos de pobreza.
Os historiadores justamente insistem no fato de que Francisco não escolheu a
pobreza e muito menos o pauperismo; escolheu os pobres! A mudança é motivada
mais pelo mandamento; “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, que pelo conselho:
“Se queres ser perfeito, vai’, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem
e segue-me”. Era a compaixão pela pobre gente, mais do que a busca da própria
perfeição que o movia, a caridade mais do que a pobreza.
Tudo isso é verdade , mas ainda assim não toca o fundo do problema. É o
efeito da mudança, não a sua causa. A escolha verdadeira é muito mais radical:
não se tratou de escolher entre riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres,
entre a pertença a uma classe mais do que a outra, mas de escolher entre si
mesmo e Deus, entre salvar a própria vida ou perdê-la pelo Evangelho.
Houve alguns (por exemplo, em tempos mais recentes, Simone Weil ), que
chegaram a Cristo por meio do amor aos pobres e houve outros que chegaram aos
pobres partindo do amor por Cristo. Francisco pertence a este segundo grupo. A
razão profunda da sua conversão não é de natureza social, mas evangélica. Jesus
tinha formulado a lei uma vez por todas com uma das frases mais solenes e mais
certamente autênticas do Evangelho:
"Se alguém quer vir após mim , negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e
siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá , mas quem perder a sua
vida por minha causa a encontrará " (Mt 16 , 24-25) .
Francisco, beijando o leproso, negou-se a si mesmo naquilo que era mais
“amargo” e repugnante à sua natureza. Fez violência a si mesmo. O detalhe não
escapou ao seu primeiro biógrafo que descreve assim o episódio:
"Um dia um leproso parou diante dele:
fez violência a si mesmo,
aproximou-se dele e o beijou. A partir daquele momento
decidiu desprezar-se
sempre mais, até que pela misericórdia do Redentor obteve plena vitória”
[2].
Francisco não foi voluntariamente aos leprosos, motivado por humana e
religiosa compaixão. “O Senhor, escreve, levou-me no meio deles”. É nesse
pequeno detalhe que os historiadores não sabem – nem poderiam – dar um juízo, e
de fato é a origem de tudo. Jesus tinha preparado o seu coração para que a sua
liberdade, no momento certo, respondesse à graça. O sonho de Spoleto tinha
servido para isso e a pergunta de se preferia servir o servo ou o patrão, a
doença, a prisão em Perugia e aquele mal-estar estranho que não lhe permitia
mais encontrar alegria nas diversões e lhe fazia procurar lugares
solitários.
Embora sem pensar que se tratasse de Jesus em pessoa sob as aparências de um
leproso (como mais tarde tentou-se fazer, pensando no caso análogo da vida de
São Martinho de Tours
[3]), naquele momento o
leproso para Francisco representava em todos os aspectos Jesus. Não tinha ele
dito: “O fizestes comigo”? Naquele momento escolheu entre si mesmo e Jesus. A
conversão de Francisco é da mesma natureza daquela de Paulo. Para Paulo, em um
certo momento, aquilo que antes tinha sido “lucro” mudou e tornou-se "perda",
"por amor de Cristo" (Fil 3, 5ss); para Francisco aquilo que tinha sido amargo
converteu-se em doçura, também aqui “por Cristo”. Depois deste momento, ambos
podem dizer: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim".
Tudo isso nos obriga a corrigir uma certa imagem de Francisco popularizada
pela literatura posterior e aceita por Dante na Divina Comedia. A famosa
metáfora das núpcias de Francisco com a Senhora Pobreza que deixou marcas
profundas na arte e na poesia franciscanas pode ser enganosa. Não apaixona-se
por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa. As núpcias
de Francisco foram, como aquelas de outros místicos, um casamento com
Cristo.
Aos companheiros que lhe perguntavam se ele pretendia ter uma mulher, vendo-o
uma noite estranhamente ausente e brilhante, o jovem Francisco respondeu :
"Terei a esposa mais nobre e bela que vocês jamais viram”. Esta resposta é
muitas vezes mal interpretada. Do contexto aparece claro que a esposa não é a
pobreza, mas o tesouro escondido e a pérola preciosa, ou seja, Cristo. “Esposa,
comenta Celano que narra o episódio, é a verdadeira religião que ele abraçou; e
o reino dos céus é o tesouro escondido que ele procurou”
[4].
Francisco não se casou com a pobreza, nem sequer com os pobres; casou-se com
Cristo e foi por amor a ele que se casou, por assim dizer “em segundas núpcias”
com a Senhora pobreza. Assim será sempre na santidade cristã. Na base do amor
pela pobreza e pelos pobres, ou está o amor por Cristo, ou os pobres serão, de
um modo ou de outro, instrumentalizados e a pobreza se tornará facilmente um
fato polêmico contra a Igreja, ou uma ostentação de maior perfeição com relação
a outros na Igreja, como aconteceu, infelizmente, também em alguns dos
seguidores do
Poverello. Em ambos os casos, faz-se da pobreza a pior
forma de riqueza, aquela da própria justiça.
2. Francisco e a reforma da Igreja
Como foi que aconteceu que a partir de um evento tão íntimo e pessoal, como
foi a conversão do jovem Francisco, tenha começado um movimento que mudou ao
mesmo tempo o rosto da Igreja e teve tanta influência na história, até os nossos
dias?
É preciso dar uma olhada na situação da época. Na época de Francisco a
reforma da Igreja era uma necessidade sentida mais ou menos conscientemente por
todos. O corpo da Igreja vivia tensões e lacerações profundas. De um lado estava
a Igreja institucional - papa, bispos, alto clero – desgastados pelos seus
perenes conflitos e pelas suas alianças muito próximas com o império. Uma Igreja
sentida muito distante, envolvida em assuntos muito acima dos interesses do
povo. Em seguida, estavam as grandes ordens religiosas, muitas vezes prósperas
pela cultura e espiritualidade após as várias reformas do século XI, entre as
quais aquela Cisterciense, mas fatalmente identificadas com os grandes
proprietários de terras, senhores feudais da época, vizinhos e ao mesmo tempo
remotos também eles, por problemas e padrões de vida, do povo comum.
No lado oposto havia uma sociedade que começava a emigrar dos campos para as
cidades em busca de maior liberdade das várias servidões. Esta parte da
sociedade identificava a Igreja com as classes dominantes das quais se sentia a
necessidade de libertar-se. Assim, se alinhavam de boa vontade com aqueles que a
contradiziam e a combatiam: hereges, grupos radicais e pauperísticos, enquanto
simpatizava com o baixo clero, muitas vezes não com a altura espiritual dos
prelados, porém mais perto das pessoas.
Havia, portanto, fortes tensões que cada um procurava explorar em proveito
próprio. A Hierarquia procurava responder a estas tensões melhorando a própria
organização e reprimindo os abusos, tanto internamente (luta contra a simonia e
concubinato dos padres) quanto externamente na sociedade. Os grupos hostis
procuravam, pelo contrário, explodir as tensões, radicalizando o contraste com a
Hierarquia dando origem a movimentos mais ou menos cismáticos. Todos brandiam
contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica fazendo disso uma
arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser vivido com humildade,
chegando a questionar também o ministério da Igreja, o sacerdócio e o
papado.
Estamos acostumados a ver Francisco como o homem providencial que capta essas
demandas populares de renovação, as purifica de toda carga polêmica e as traz de
volta ou as atua na Igreja em profunda comunhão e submissão a essa. Francisco,
portanto, como uma espécie de mediador entre os hereges rebeldes e a Igreja
institucional. Em um conhecido manual de história da Igreja é apresentada dessa
forma a sua missão:
"Já que a riqueza e o poder da Igreja apareciam muitas vezes como uma
fonte de graves males e os hereges do tempo a utilizavam como argumento para as
principais acusações contra ela, em algumas almas piedosas surgiu o nobre desejo
de restaurar a vida pobre de Jesus e da Igreja primitiva, para poder assim mais
eficazmente, influenciar no povo com a palavra e o exemplo”[5].
Entre estas almas coloca-se naturalmente em primeiro lugar, juntamente com
São Domingos, Francisco de Assis. O historiador protestante Paul Sabatier,
embora tão benemérito dos estudos franciscanos, tornou quase canônica entre os
historiadores, e não só entre aqueles leigos e protestantes, a tese segundo a
qual o cardeal Ugolino (o futuro Papa Gregório IX) teria tido a intenção de
captar Francisco para a Cúria, domesticando a carga crítica e revolucionária do
seu movimento. Na prática é a tentativa de fazer de Francisco, um precursor de
Lutero, ou seja, um reformador pela via de críticas, mais do que da
santidade.
Não sei se esta intenção possa ser atribuída a algum dos grandes protetores e
amigos de Francisco. Parece difícil atribuí-la ao card. Ugolino e menos ainda a
Inocêncio III, conhecido pela ação reformadora e o apoio dado às várias formas
novas de vida espiritual surgidas em seu tempo, incluído os Frades Menores, os
dominicanos, os Humilhados Milaneses. Uma coisa, porém, é absolutamente certa:
aquela intenção nunca passou pela mente de Francisco. Ele nunca pensou ser
chamado para reformar a Igreja.
É preciso ter cuidado para não tirar conclusões erradas das famosas palavras
do Crucifixo de São Damião “Vai’, Francisco e repara a minha Igreja que, como
vês, está em ruínas”. As fontes mesmas nos asseguram que ele compreendeu aquelas
palavras no sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a
igrejinha de São Damião. Foram os discípulos e os biógrafos que interpretaram –
e, é preciso dizer, não sem razão - aquelas palavras como se referindo à Igreja
instituição e não só à Igreja edifício. Ele permaneceu sempre na sua
interpretação literal e de fato continuou a reparar outras igrejinhas nos
arredores de Assis que estavam em ruínas.
Também o sonho em que Inocêncio III teria visto o Poverello sustentar com as
suas costas a Igreja de Latrão desmoronando não diz nada de mais. Supondo que o
fato seja histórico (um fato análogo também é narrado sobre São Domingos), o
sonho foi do papa, não de Francisco! Ele nunca foi visto como o vemos hoje no
afresco de Giotto. Isto significa ser reformador pelo caminho da santidade:
sê-lo, sem sabê-lo!
3. Francisco e o retorno ao Evangelho
Se não quis ser um reformador, o que foi que quis ser e fazer Francisco?
Também aqui temos a sorte de ter o testemunho direto do Santo no seu
Testamento:
"E depois que o Senhor me deu irmãos , ninguém me mostrou o que eu
deveria fazer; mas o mesmo Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a
forma do santo Evangelho. E eu com poucas palavras e simplesmente o fiz
escrever, e o senhor Papa mo confirmou”.
Fala do momento no qual, durante uma Missa, escutou a passagem do evangelho
onde Jesus envia os seus discípulos dizendo: "Enviou-os a pregar o reino de Deus
e a curar os enfermos. E disse-lhes: «Nada leveis para o caminho, nem bastão,
nem alforje, nem pão, nem dinheiro; tampouco tenhais duas túnicas” (Lc 9, 2-3)
[6]. Foi uma revelação
impressionante daquelas que orientam toda uma vida. Daquele dia em diante foi
clara a sua missão: um retorno simples e radical ao evangelho real, aquele
vivido e pregado por Jesus. Restaurar no mundo a forma e o estilo de vida de
Jesus e dos apóstolos descrito nos evangelhos. Escrevendo a Regra para os seus
frades começará assim:
"A regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho
de nosso Senhor Jesus Cristo".
Francisco não teorizou esta sua descoberta, tornando-a o programa para a
reforma da Igreja. Ele realizou em si a reforma e assim indicou tacitamente à
Igreja o único caminho para sair da crise: reaproximar-se do evangelho,
reaproximar-se dos homens e especialmente dos humildes e dos pobres.
Este retorno ao Evangelho reflete-se em primeiro lugar na pregação de
Francisco. É surpreendente, mas todos notaram: o Poverello fala quase sempre de
"fazer penitência". A partir de então, diz o Celano, com grande fervor e
exultação, ele começou a pregar a penitência, edificando todos com a
simplicidade de suas palavras e a generosidade de seu coração. Onde quer que
fosse, Francisco dizia, recomendava, suplicava que fizessem penitência
[7].
O que é que Francisco compreendia com esta palavra que ele trazia tanto no
coração? Neste sentido caímos (pelo menos eu caí por muito tempo) em erro.
Reduzimos a mensagem de Francisco a uma simples exortação moral, a um bater-se
no peito, angustiar-se e mortificar-se para expiar os pecados, enquanto que tem
toda a vastidão e o ar do evangelho de Cristo. Francisco não exortava a fazer
“penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que, veremos, é totalmente
outra coisa.
O Poverello, exceto nos poucos casos que conhecemos, escrevia em latim.. E o
que encontramos no texto latino, do Testamento, quando escreve: “O Senhor deu a
mim, frade Francisco, começar a fazer penitência assim”? Encontramos a expressão
“poenitentiam agere”. Sabe-se que ele amava expressar-se com as mesmas
palavras de Jesus. E esta palavra – fazer penitência – é a palavra com a qual
Jesus começou a pregar e que repetia em cada cidade e aldeia onde ia:
“Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galiléia proclamando o
Evangelho de Deus: cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo.
Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).
A palavra que hoje se traduz com “convertei-vos” ou “arrependei-vos”, no
texto da Vulgata usado pelo Poverello, soava
“poenitemini” e em Atos 2,
37 ainda mais literalmente
“poenitentiam agite”, fazei penitência.
Francisco nada fez além de relançar o grande apelo à conversão com o qual se
abre a pregação de Jesus no Evangelho e aquela dos apóstolos no dia de
Pentecostes. O que ele quis dizer com a palavra "conversão" não precisa
explicá-lo: sua vida, ele mostrou.
Francisco fez no seu tempo aquilo que no tempo do Concílio Vaticano II
tentou-se fazer com o lema: “quebrar as muralhas”: quebrar o isolamento da
Igreja, trazê-la de novo para o contato com o povo. Um dos fatores de escuridão
do evangelho era a transformação da autoridade compreendida como serviço, em
autoridade compreendida como poder que tinha produzido infinitos conflitos
dentro e fora da Igreja. Francisco, por sua vez, resolve o problema em senso
evangélico. Na sua Ordem, novidade absoluta, os superiores se chamarão
ministros, ou seja, servos, e todos os outros frades, ou seja, irmãos.
Outro muro de separação entre a Igreja e o povo era a ciência e a cultura da
qual o clero e os monges tinham o monopólio na prática. Francisco sabe disso e,
portanto, assume a posição drástica que sabemos sobre este ponto. Ele não é
contrário à ciência-conhecimento, mas à ciência-poder; aquela que favorece
aqueles que sabem ler sobre aqueles que não sabem ler e lhes permite comandar
com altivez ao irmão: "Traga-me o breviário". Durante o famoso Capítulo das
Esteiras a alguns dos seus irmãos que queriam empurrá-lo a adequar-se à atitude
das “ordens” cultas do tempo, respondeu com palavras de fogo que deixaram,
lê-se, os frades tomados de temor:
"Irmãos, meus irmãos, Deus me chamou para trilhar o caminho da
simplicidade e o mostrou para mim. Não quero, portanto que me citem outrsa
Regras, nem aquela de Santo Agostinho, nem aquela de São Bernardo ou de São
Bento. O Senhor revelou -me ser sua vontade que eu fosse um idiota no mundo:
esta é a ciência à qual Deus quer que nos dediquemos! Ele vos confundirá por
meio da vossa mesma ciência e sabedoria”[8].
Sempre a mesma atitude coerente. Ele quer para si e para os seus irmãos a
mais rígida pobreza, mas na Regra, exorta-os a “não desprezar e a não julgar os
homens que vêm vestidos com hábitos finos e coloridos e usar comida e bebida
delicadas, mas sim cada um julgue e despreze a si mesmo”
[9]. Escolhe ser um
iletrado mas não condena a ciência. Uma vez assegurado que a ciência não extinga
“o espírito da santa oração e devoção”, será ele mesmo a permitir a frade
Antonio de dedicar-se ao ensino da teologia e São Boaventura não pensa que está
traindo o espírito do fundador, abrindo a ordem aos estudos nas grandes
universidades. Yves Congar vê nisso uma das condições essenciais da “verdadeira
reforma” na Igreja, a reforma, ou seja, que permanece tal e não se transforma em
cisma: isto é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas
permanecer solidário com o todo que é a Igreja
[10]. A convicção, diz o
Papa Francisco, na sua recente Exortação apostólica
Fidei gaudium, que
“o todo é superior à parte”.
4. Como imitar Francisco
O que diz a nós hoje a experiência de Francisco? O que podemos imitar dele,
todos e rápido? Sejam aqueles que Deus chama a reformar a Igreja pelo caminho da
santidade, sejam aqueles que se sentem chamados a renová-la pelo caminho da
crítica, sejam aqueles que ele mesmo chama a reformá-la pelo caminho do cargo
que ocupam? A mesma coisa com a qual se começou a aventura espiritual de
Francisco: a sua conversão do eu a Deus, a sua negação de si. É assim que nascem
os verdadeiros reformadores, aqueles que mudam realmente algo na Igreja. Os
mortos a si mesmos. Melhor, aqueles que
decidem seriamente morrer a si
mesmos, porque se trata de uma empresa que dura toda a vida e também além, se,
como dizia brincando santa Teresa de Ávila, o nosso amor próprio morre vinte
minutos depois de nós.
Dizia um santo monge ortodoxo, Silvano do Monte Athos: “Para ser
verdadeiramente livres, é necessário começar a ligar a si mesmo”. Homens como
estes são livres com a liberdade do Espírito; nada os para e nada os espanta
mais. Tornam-se reformadores pelo caminho da santidade, e não somente pelo
caminho do ofício.
Mas o que significa a proposta de Jesus de negar-se a si mesmo? É ainda
possível propô-la a um mundo que fala somente de auto-realização,
auto-afirmação? A negação nunca é fim em si mesmo, nem um ideal em si. A coisa
mais importante é aquela positiva:
Se queres seguir-me; É o seguir
Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer sim a Cristo é o
fim. Paulo a apresenta como uma espécie de lei do espírito: “Se com a ajuda do
Espírito fazes morrer as obras da carne, vivereis” (Rom 8, 13). Isso, como se
pode ver, é um morrer para viver; é o oposto da visão filosófica que diz que a
vida humana é “um viver para morrer” (Heidegger)..
Trata-se de saber qual fundamento queremos dar à nossa existência: se o nosso
“eu” ou “Cristo”; na linguagem de Paulo, se queremos viver “para nós mesmos”, ou
“para o Senhor” (cf. 2 Coríntios 5, 15, Rom 14 , 7-8). Viver “para si mesmos”
significa viver para a própria comodidade, a própria glória, o próprio
progresso; viver “para o Senhor” significa recolocar sempre em primeiro lugar,
nas nossas intenções, a glória de Cristo, os interesses do Reino e da Igreja.
Cada “não”, pequeno ou grande, falado a si mesmo por amor, é um sim dito a
Cristo.
Somente deve-se evitar a ilusão. Não se trata de saber tudo sobre a negação
cristã, sua beleza e necessidade; trata-se de passar ao ato, de praticá-la. Um
grande mestre de espírito da antiguidade dizia: “É possível despedaçar dez vezes
a própria vontade em um brevíssimo tempo; e vos digo como. A pessoa está
passeando e vê algo; o seu pensamento lhe diz: “Olha lá”, mas ele responde ao
seu pensamento: “Não, não olho”, e despedaça assim a própria vontade. Depois
encontra outros que estão falando (leia falando mal de alguém) e o seu
pensamento lhe diz: “Fale’ também você aquilo que sabe”, e despedaça a sua
vontade calando”
[11].
Este antigo Padre traz, como se vê, exemplos tirados todos da vida monástica.
Mas eles podem ser atualizados e adaptados facilmente para a vida de cada um,
clérigos e leigos. Encontros, se não com um leproso como Francisco, com um pobre
que você sabe que vai lhe pedir algo; o seu homem velho te empurra a passar do
lado oposto do caminho, e você pelo contrário, se faz violência e lhe vai ao
encontro, talvez presenteando-lhe somente com uma saudação e um sorriso, se não
pode fazer outra coisa. Oferecem a você a ocasião para um lucro ilícito: e você
diz não e negou a si mesmo. Foi contestado em uma ideia; toca o ponto sensível,
gostaria de responder com força, cala e espera: despedaçou o seu eu. Acredita
ter sido passado pra trás, um tratamento, ou um destino não adequado aos seus
merecimentos: gostaria de contar para todos, fechando-se em um silêncio cheio de
tácita reprovação. Diz não, quebra o silêncio, sorri e reabre o diálogo. Negou a
si mesmo e salvou a caridade. E assim por diante. Um sinal que prova uma boa
luta contra o próprio eu, é a capacidade ou ao menos o esforço de alegrar-se
pelo bem feito ou a promoção recebida de outro, como se acontecesse consigo
mesmo:
“Bem aventurado aquele servo – escreve Francisco em uma das suas
Admoestações – que não se orgulha pelo bem que o Senhor diz e obra por meio
dele, mas sim pelo bem que diz e obra por meio de outro”.
Uma meta difícil (eu não falo certamente como quem já a alcançou!), mas a
história de Francisco, nos mostra o que pode nascer de uma negação de si feita
em resposta à graça. A meta final é poder dizer com Paulo e com Ele: “Não mais
eu que vivo, Cristo vive em mim”. E haverá alegria e paz plenas, já sobre esta
terra. Francisco, em sua "perfeita alegria", é um exemplo vivo da "alegria que
vem do Evangelho," do
Evangelii gaudium!