quarta-feira, 13 de agosto de 2014

DIREÇÃO ESPIRITUAL

A direção espiritual não pode ser conduzida pelo “respeito humano”, por isso é preciso discernir bem quem deve ser o diretor espiritual.
Quem deve ser o diretor espiritual?A direção espiritual toca na dimensão pessoal, por isso é importante que ela seja presencial. A distância sempre trará certa dificuldade à comunicação, impedindo vários fatores no contexto da direção. A não ser no caso de uma pessoa que já tenha começado esse caminho há um bom tempo e, por isso, pode continuá-lo via internet, devido ao tempo de conhecimento já adquirido entre o diretor e o dirigido. Mesmo assim, será necessário um momento presencial entre eles.
Esse trabalho de direção espiritual é a condução da alma para Jesus Cristo, porque ninguém segue esse caminho sozinho. Ninguém “se resolve” sozinho nem tem todas as respostas, não é autossuficiente. É preciso enxergar a vida, os conflitos e também os benefícios que precisam ser trilhados com a ajuda de alguém que nos leve ao crescimento e à vivência das virtudes. O diretor espiritual é aquele que ajuda a pessoa na descoberta da vontade de Deus para ela.
Não é necessário que seja somente um sacerdote para dirigi-la espiritualmente. Pode também ser um religioso, um monge, um consagrado e até mesmo um leigo. No entanto, é preciso que haja clareza e preparo nessa questão, além de outros requisitos.
São Francisco de Sales afirma que existem três qualidades fundamentais para o diretor espiritual: a caridade, a ciência e a prudência. A caridade consiste em dispensar tempo para atender a pessoa que precisa de direção. Ciência, porque requer conhecimento espiritual, estudo sobre a vida dos santos e sobre as realidades da alma, justamente para conseguir identificar as questões íntimas que a pessoa vive e discernir qual caminho ela deve seguir. A prudência também é necessária nesse caso, a fim de que a direção espiritual não se torne um “mero trato de dois amigos” que partilham algo.
Dirigir alguém espiritualmente não é simplesmente fazer uma partilha da alma, mas um momento no qual eu “abro” a minha alma para me deixar conduzir. Muitas vezes, essa condução não será de acordo com as nossa vontade. O diretor espiritual precisa ter o cuidado de não atrair a pessoa para si, ou seja, passar a ser referência na vida dela. Pelo contrário, ele precisa fazer a pessoa crescer em Jesus Cristo com elementos para que possa discernir a própria vida. O diretor espiritual não deve “decidir” a vida da pessoa, mas conceder esses elementos para que ela possa tomar suas próprias decisões.
O principal benefício dessa prática consiste em crescer na fé e na intimidade com Deus. Santo Agostinho afirma: “Eu quero conhecer-me para humilhar-me e quero conhecer-Te para amar-Te”. Então, na direção espiritual, há esses dois conhecimentos: quem somos nós e quem é Deus.
É importante que os atendimentos aconteçam, ao menos, uma vez por mês, dependendo da necessidade do dirigido. É evidente que se a pessoa estiver enfrentando conflitos mais sérios, ela talvez necessite de um tempo menor entre uma direção e outra.
Sempre será preciso que o diretor traga firmeza paterna para corrigir a pessoa nos seus defeitos e nas suas dificuldades. A direção espiritual não pode ser conduzida pelo “respeito humano”, quando o diretor não fala o que precisa ser realmente dito com receio de que o outro se sinta ofendido. Esse processo precisa acontecer com sinceridade e transparência.
Quem está sendo dirigido precisa ser obediente. Se não houver docilidade, as orientações não serão colocadas em prática. É preciso levar a sério os conselhos dados pelo diretor e comprometer-se com eles. Muitas vezes, ele toca nas feridas do coração, o que causa muita dor. Mas é melhor a dor que liberta do que a covardia da ferida escondida, que nunca é tocada, nunca é mexida, e que está ali doendo e influenciando a vida daquela pessoa. O diretor espiritual é um instrumento nas mãos do Espírito Santo. É importante também que ele seja sempre alguém discreto, que não exponha ninguém, saiba guardar sigilo e tratar o “sagrado” que as pessoas trazem dentro de si. Ele é um especialista na alma, nas coisas do espírito.
Peço a você, internauta, que traga, no seu coração, o desejo de rezar pelo sacerdote que o dirige e pelas pessoas que são referência para você. Reze por aquele que dirige a sua alma, que o aconselha nas situações, pois o dom da sabedoria se encontra sobre ele. Que Deus o favoreça nesse desejo de crescer espiritualmente e amadurecer na fé; desta forma, encontrar a fortaleza necessária para enfrentar certas coisas na vida. É importante buscar esse crescimento e mergulhar na espiritualidade profunda. Que o Senhor possa lhe providenciar um diretor espiritual, para que você realmente se comprometa com ele dentro desse processo de crescimento e amadurecimento.
Pela intercessão da Virgem Maria, abençoe-vos o Deus Todo-poderoso: Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
Padre Eliano -

Semana da Família 2014



Dom Alfredo Schaffler 
Bispo de Parnaíba (PI)
Em todo nosso Brasil estamos estes dias celebrando a SEMANA DA FAMÍLIA. O evento que até em certos municípios já colocaram no calendário de sua cidade para que em todas as escolas municipais seja ao longo desta semana abordado este assunto sobre a importância da família na vida da sociedade.

O Santo Padre Francisco mandou uma mensagem aos bispos que estão em cada país da América Latina animando a Pastoral Familiar. Nesta mensagem o Santo Padre Francisco faz a pergunta: O que é a família?
Para além de seus prementes problemas e de suas necessidades urgentes, a família é um CENTRO DE AMOR, onde reina a lei do respeito e da comunhão, capaz de resistir aos ataques da manipulação e da dominação dos centros de poderes mundanos.
Na casa familiar, a pessoa se integra natural e harmonicamente em um grupo humano, superando a falsa oposição entre indivíduo e sociedade. No seio da família, ninguém é descartado tanto o idoso como a criança são bem vindas. A cultura do encontro e do diálogo, a abertura à solidariedade e à transcendência tem nela o seu berço. Por isso a família constitui uma grande riqueza social.
O Papa está destacando duas contribuições primordiais: a estabilidade e a fecundidade. As relações baseadas no amor fiel, até a morte, como o matrimônio, a paternidade, a filiação ou a irmandade, aprendem-se e vivem-se no núcleo familiar. 
Quando estas relações formam o tecido básico de uma sociedade humana, dão–lhe coesão e consistência. Pois não é possível formar parte de um povo, sentir-se próximo, ter em conta os mais distantes e desfavorecidos, se no coração do homem estão quebradas estas relações básicas, que lhes oferecem segurança em sua abertura aos demais.
O amor familiar é fecundo, e não somente porque gera novas vidas, mas porque amplia o horizonte da existência, gera um mundo novo, faz nos acreditar, contra toda descrença e derrotismo que uma convivência baseada no respeito e na confiança é possível. Frente a uma visão materialista do mundo, a família não reduz o homem ao estéril utilitarismo, mas dá canal aos seus desejos mais profundos.
Por fim o Papa Francisco lembra que na experiência fundante do amor familiar, o homem cresce também em sua abertura a Deus como Pai. E aí continua dizendo: que a família não deva ser considerada só como objeto de evangelização, mas também agente evangelizadora.
Por fim o Papa lembra que o amor familiar precisa crescer e ser cultivado para que este crescimento possa acontecer: 
São três palavras que devem nortear a convivência família: Pedir licença, agradecer e dizer muito obrigado e por fim pedir perdão. Neste tripé o relacionamento familiar vai crescer. Não somente os filhos estão crescendo na família. Também o casal deve crescer na sua convivência. 
Cada dia que passa precisam se querer mais bem e se sentir mais feliz um ao lado do outro. Assim a vida familiar vai ser cada vez mais um dar e um receber.
A vida familiar está se construindo no dia a dia, nos pequenos gestos de atenção quando estamos pedindo licença, quando sabemos agradecer e quando sabemos pedir perdão.
O amor que temos por uma pessoa se mede na capacidade de perdoar.
Firme na fé e fiquem com Deus.

Ser pai: dom e responsabilidade



Dom Murilo S.R. Krieger

Arcebispo de São Salvador da Bahia (BA) e Primaz do Brasil

Vão multiplicar-se hoje, em nossos lares, gestos de carinho e de amor. Por um dia, o pai será o rei de cada família. Receberá presentes e abraços, ouvirá o tradicional “Parabéns a você” e se emocionará ao saber que o filho distante está lhe telefonando. Todo presente será recebido com grande alegria: o desenho futurista do filho de cinco anos, a camisa que o mais velho comprou com economias do dinheiro da mesada e o prato de porcelana pintado pela filha.

Bem que, diante das homenagens, cada pai gostaria de expressar sua alegria e gratidão. Contudo, a maioria não tentará. Afinal, onde buscar palavras? Melhor mesmo é ficar quieto, sorrir e dizer um “Obrigado!”, mesmo que desajeitado.
No meio desse clima de festa, talvez não lhe sobre tempo para um momento de reflexão. Se tivesse condições de fazer uma rápida revisão de sua vida, possivelmente esbarraria logo na primeira pergunta: O que é mesmo “ser pai”? Ficaria um tanto perplexo ao constatar que a realidade que está enfrentando está longe dos ideais sonhados no tempo da juventude, do noivado ou dos primeiros anos de casado. Afinal, onde ficaram seus sonhos? Que vida é essa que impede a realização de nossos projetos e torna tão duro o dia a dia? Onde ficaram suas promessas de um diálogo constante e profundo com os filhos que teria?
Se parasse para refletir, constataria que quase nem os viu crescer. É difícil acreditar que eles tenham crescido tão rapidamente e já estejam com essa idade... Os problemas multiplicaram-se. O salário foi sempre inferior à soma das necessidades e dos desejos de todos. E as ideias e pontos de vista diferentes que, não poucas vezes, criam divisões dentro da própria família? E as discussões que se renovam diariamente em sua casa? Não é agradável perceber que não é o único a fazer a cabeça dos filhos. Há muito já constatou que enfrenta uma concorrência imensa, de forças desproporcionais. Aí está a televisão e a internet, os livros e as revistas, os professores e os amigos a disputarem com ele o domínio da cabeça dos filhos. Qual a influência que, como pai, tem realmente sobre eles? De que valerão suas preocupações e trabalhos? O que ficará no coração de seus filhos?
Se nesse dia conseguisse conversar e, particularmente, ouvir seus filhos, talvez percebesse que seu papel é muito mais importante do que imagina. Saberia que eles precisam muito dele. E que, justamente por causa desse mundo que os cerca e busca influenciá-los, mais do que nunca eles sentem uma necessidade imensa de seu carinho, de sua atenção e de seu sorriso de pai. Descobriria, especialmente, que seus filhos anseiam por gestos concretos de seu amor: um beijo, um abraço, um passar a mão na cabeça ou perguntas do tipo: Como está indo na escola? É verdade que você está namorando? Posso te ajudar?...
Mais tempo tivesse para refletir e concluiria que sua missão é uma participação direta no mistério do próprio Deus. Afinal, segundo a revelação de Jesus Cristo, Deus é Pai - Pai nosso. É nele que cada pai deve espelhar-se para aprender a ser um dom total, renovado e constante para seus filhos.
A reflexão poderia continuar. Interrompo-a para lembrar-lhe que há outros pais. Há aqueles que, neste e em todos os dias, estão preocupados é com a falta de alimento, de casa, de roupa e de remédios para seus filhos. Esses nem pensam mais em seus sonhos.
Colocado diante do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, cada pai pode, neste dia, pedir com confiança: “Senhor, é possível que eu não seja o pai que deveria ser. Mas tu me conheces e sabes o quanto eu quero ser melhor. Do fundo do meu coração, eu te peço: Dá-me um pouco de teu jeito de tratar teus filhos e filhas. Não te peço para ser o pai que sonhei ser, mas que eu seja um pai como tu queres que eu seja. Olha cada um dos meus filhos. Sabes o quanto eles são importantes para mim. Ajuda-me a manifestar isso com gestos e palavras que eles entendam. E, acima de tudo, sejas tu a acompanhá-los com teu amor. Afinal, antes de serem meus, são teus filhos e filhas, Pai!”

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Santa Clara de Assis


Clara nasceu em Assis, no ano 1193, no seio de uma família da nobreza italiana, muito rica, onde possuía de tudo. Porém o que a menina mais queria era seguir os ensinamentos de Francisco de Assis. Aliás, foi Clara a primeira mulher da Igreja a entusiasmar-se com o ideal franciscano. Sua família, entretanto, era contrária à sua resolução de seguir a vida religiosa, mas nada a demoveu do seu propósito.

No dia 18 de março de 1212, aos dezenove anos de idade, fugiu de casa e, humilde, apresentou-se na igreja de Santa Maria dos Anjos, onde era aguardada por Francisco e seus frades. Ele, então, cortou-lhe o cabelo, pediu que vestisse um modesto hábito de lã e pronunciasse os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

Depois disso, Clara, a conselho de Francisco, ingressou no Mosteiro beneditino de São Paulo das Abadessas, para ir se familiarizando com a vida em comum. Pouco depois foi para a Ermida de Santo Ângelo de Panço, onde Inês, sua irmã de sangue, juntou-se a ela.

Pouco tempo depois, Francisco levou-as para o humilde Convento de São Damião, destinado à Ordem Segunda Franciscana, das monjas. Em agosto, quando ingressou Pacífica de Guelfúcio, Francisco deu às irmãs sua primeira forma de vida religiosa. Elas, primeiramente, foram chamadas de "Damianitas", depois, como Clara escolheu, de "Damas Pobres", e finalmente, como sempre serão chamadas, de "Clarissas".

Em 1216, sempre orientada por Francisco, Clara aceitou para a sua Ordem as regras beneditinas e o título de abadessa. Mas conseguiu o "privilégio da pobreza" do papa Inocêncio III, mantendo, assim, o carisma franciscano. O testemunho de fé de Clara foi tão grande que sua mãe, Ortolana, e mais uma de suas irmãs, Beatriz, abandonaram seus ricos palácios e foram viver ao seu lado, ingressando também na nova Ordem fundada por ela.

A partir de 1224, Clara adoeceu e, aos poucos, foi definhando. Em 1226, Francisco de Assis morreu e Clara teve visões projetadas na parede da sua pequena cela. Lá, via Francisco e os ritos das solenidades do seu funeral que estavam acontecendo na igreja. Anteriormente, tivera esse mesmo tipo de visão numa noite de Natal, quando viu, projetado, o presépio e pôde assistir ao santo ofício que se desenvolvia na igreja de Santa Maria dos Anjos. Por essas visões, que pareciam filmes projetados numa tela, santa Clara é considerada Padroeira da Televisão e de todos os seus profissionais.

Depois da morte de são Francisco, Clara viveu mais vinte e sete anos, dando continuidade à obra que aprendera e iniciara com ele. Outro feito de Clara ocorreu em 1240, quando, portando nas mãos o Santíssimo Sacramento, defendeu a cidade de Assis do ataque do exercito dos turcos muçulmanos.

No dia 11 de agosto de 1253, algumas horas antes de morrer, Clara recebeu das mãos de um enviado do papa Inocêncio IV a aguardada bula de aprovação canônica, deixando, assim, as sua "irmãs clarissas" asseguradas. Dois anos após sua morte, o papa Alexandre IV proclamou santa Clara de Assis.

Só quando Cristo se torna tesouro.



Salomão, o filho predileto de Davi, estava pronto para assumir o Reino de Israel. Na véspera de sua posse, ele experimentou um profundo encontro com Deus. Ele ouviu quando o Senhor lhe disse: “Pede-me o que desejas para o teu reinado e eu te darei” (1 Rs, 3,5).
Foi então que Salomão fez esta bonita oração: “Senhor meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso, que não se pode contar ou calcular. Dá, pois ao teu servo um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário quem poderá governar este teu povo tão numeroso?” (1 Rs, 3,7-9).
O próprio texto depois comenta que o Senhor Deus gostou muito desta oração de Salomão porque ele não pediu longos anos de vida, nem riqueza, nem a morte dos inimigos, mas sim, muita sabedoria para governar o seu povo e para praticar a justiça.
No tempo em que Salomão viveu e era o rei de Israel, tornou-se mundialmente famosa a sabedoria de Salomão. Era fenomenal o modo como este homem conseguiu praticar a justiça. Era realmente um dom de Deus, concedido a um jovem rei que começou o seu reinado, em oração, pedindo sabedoria.
Já o evangelho deste domingo nos apresenta a parábola do tesouro escondido. Trata-se, na verdade de algo muito precioso, tanto que aquele homem vende todos os seus bens e compra o campo em que este tesouro está escondido.
É claro que isto é uma linguagem simbólica. Evidentemente não se trata de um tesouro material, mas uma motivação interior, uma descoberta fenomenal, que traz um novo horizonte para a vida.
São Paulo nos revela inúmeras vezes que na vida dele, o encontro com Jesus Cristo foi um verdadeiro tesouro que, de um momento para outro, lhe trouxe um novo sentido para a vida e um novo rumo a ser tomado. A partir do encontro de Damasco e partir da descoberta de Jesus Cristo era na verdade o Salvador prometido, Paulo tinha uma grande certeza que ele resumia assim: “Para mim, viver é Cristo”.
O Documento de Aparecida, fruto da V Conferência dos Bispos em Aparecida, no ano 2007, fala ao todo 97 vezes na necessidade de se ter um encontro pessoal com Jesus Cristo. E fala especialmente a respeito dos missionários e de todos aqueles que trabalham na missão. Todos eles, o bispo, o padre, o seminarista, o religioso, o cristão leigo, o catequista, todos precisam experimentar o encontro pessoal com Jesus Cristo e depois podem testemunhá-lo.SÓ QUANDO CRISTO SE TORNA TESOURO
Dom Zeno
Diocese de Novo Hamburgo

Espetáculo e aberração




Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte
O dom da vida não pode pendular entre espetáculo e aberração no cotidiano da sociedade, da vida familiar e no dia a dia de cada um. Este movimento mata a cultura da simplicidade que revela, de maneira completa e autêntica, a glória do amor, razão única para empenhar-se na aventura de viver. Merece atenção o predomínio da perversa dinâmica pendular entre espetáculo e aberração, que infelizmente confere tônica à comunicação, ao funcionamento das relações interpessoais, ao jeito de fazer política e, até mesmo, ao modo de se usufruir da liberdade religiosa. Essa preocupação é pertinente porque tal dinâmica compromete a cidadania e é determinante na desestruturação da cultura. Não raramente, contribui para a deterioração de tradições, tão necessárias para o avanço da sociedade. A tendência de se rifar tudo o que se pode neste tempo, em razão de conquistas tecnológicas e conceitos reduzidos sobre liberdade, a partir da lógica perversa entre o espetáculo e a aberração, produz uma subcultura.  A grave consequência é a despersonalização das relações sociais que marcam a sociedade contemporânea.
É assustador o grande interesse do cidadão, seu fascínio pelas situações aberrantes que ganham ares de espetacular e alimentam o lado sombrio da condição humana. Avançar, progredir, fazer, conquistar, inovar e outros verbos podem e precisam compor o vocabulário da cidadania contemporânea. No entanto, a simplicidade há de ser a tônica para que não se percam balizamentos importantes no direcionamento do que se escolhe fazer, projetar e construir. O que se deseja fazer não pode estar desconectado com o sentido inegociável de serviço dedicado à sociedade e à cultura, em fidelidade a valores e princípios. Caso contrário, a dinâmica do espetacular e da aberração alimentará o ego de pessoas e grupos. Seremos vítimas de síndromes muito perigosas. Estaremos sempre distantes do mais nobre sentido de cidadania, da autêntica vivência confessional, segundo a própria liberdade de escolha, com consequentes manipulações em vista de interesses que ferem a vida dos cidadãos, particularmente dos mais pobres, frágeis e indefesos. A síndrome da disputa, que acomete diversos segmentos da sociedade, é exemplo de prejuízo que resulta da falta da simplicidade como parâmetro. Essa síndrome é alimentada pelo desejo egoísta de ser considerado o mais, o primeiro, o melhor, uma necessidade que faz negar o outro pela desclassificação, muitas vezes forjada e mentirosa.
Infelizmente, muito do que se faz não é para atender necessidades históricas, o que a vida apresenta como demanda, como a busca pela superação das desigualdades sociais. Com frequência, os projetos são elaborados, nas diferentes áreas e campos do saber, simplesmente como busca de engrandecimento pessoal, no máximo grupal ou partidário. Ignora-se uma cultura consistente nos seus valores e princípios, capaz de alicerçar a cidadania. Assim, torna-se consolidado um contexto em que o espetacular e a aberração valem sempre mais, prejudicando a simplicidade que garante igualdade, profundidade e resultados cidadãos.
Funcionar segundo o pêndulo da dinâmica do espetáculo e da aberração impõe à sociedade uma necessidade de viver da criação de figuras idolatradas. Isto impede o alcance de conquistas que só são possíveis a partir de uma cidadania vivida na simplicidade, na qual as diferenças, no que se refere à importância social ou à excelência no que se faz, não têm o restrito sentido de superar os outros. Ao contrário, estas características constituem responsabilidade ainda maior de colaborar para construção cidadã do tecido social, cultural e religioso que sustenta substantivamente um povo.  É alto o preço a ser pago quando se segue no caminho contrário desta compreensão. Convive-se, por exemplo, com os atrasos na mudança de cenários abomináveis e com a espetacularização de feitos e fatos, que nada contribuem para superar a distância entre diferentes camadas da sociedade.
Só a simplicidade alimenta a coragem de uma postura cidadã, fazendo com que todos sintam vergonha das desigualdades sociais, do modo medíocre como se faz política no país e, a partir disso, sejam capazes de gestos mais efetivos.  Ela capacita cada um a ser o que é não por vaidade, mas em razão da urgente mobilização para se reconstruir a sociedade.  Refletir este tema - a dinâmica pendular que coloca o dom da vida entre espetáculo e aberração - é oportunidade para se cuidar, em tempo, do acelerado processo de desumanização em curso, um risco para todos, que provoca prejuízos irreversíveis. 

domingo, 10 de agosto de 2014

"A resposta confiante e pronta ao chamado do Senhor realiza coisas extraordinárias"

As palavras do Papa Francisco durante o Ângelus neste domingo
Por Redacao

CIDADE DO VATICANO, 10 de Agosto de 2014 (Zenit.org) - Publicamos a seguir as palavras que o Papa Francisco disse hoje às 12h, durante a recitação da oração do Angelus, aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro no Vaticano.
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[Antes do Angelus]
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho de hoje nos apresenta a história de Jesus caminhando sobre as águas do lago (cf. Mt 14,22-33). Depois da multiplicação dos pães e dos peixes, Ele convida os seus discípulos a entrar no barco e a ir na sua frente para o outro lado, enquanto ele se despede da multidão, e depois retira-se sozinho para rezar na montanha até tarde da noite. Enquanto isso, há uma forte tempestade no lago, e bem no meio da tempestade Jesus alcança o barco com os discípulos, caminhando sobre as águas. Quando eles o veem, assustados, pensam que é um fantasma, mas Ele os acalma: "Coragem, sou eu, não temais" (v. 27). Pedro, com seu zelo típico, pediu-lhe uma prova: "Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas"; e Jesus disse: "Vem!" (vv. 28-29). Pedro desce do barco e começa a andar sobre as águas; mas o vento bate forte e ele começa a afundar. Em seguida, grita: "Senhor, salva-me!" (v. 30), e Jesus estende a mão e o levanta.
Esta história é um belo ícone da fé do apóstolo Pedro. Na voz de Jesus dizendo-lhe: "Vem!", ele reconhece o eco do primeiro encontro na margem daquele mesmo lago, e rapidamente, mais uma vez, deixa o barco e vai para o Mestre. E caminha sobre a água! A resposta confiante e pronta ao chamado do Senhor realiza sempre coisas extraordinárias. Mas Jesus mesmo nos disse que somos capazes de fazer milagres com a nossa fé, a fé Nele, a fé na sua palavra, a fé na sua voz. Em vez disso, Pedro começa a afundar quando tira o olhar de Jesus e se deixa envolver pela adversidade que o circunda. Mas o Senhor está sempre ali, e quando Pedro o invoca, Jesus o salva do perigo. No personagem de Pedro, com os seus ímpetos e as suas fraquezas, se descreve a nossa fé: sempre frágil e pobre, inquieta e, porém, vitoriosa, a fé do cristão caminha rumo ao Senhor ressuscitado, em meio às tempestades e aos perigos do mundo.
É também muito importante a cena final. "Assim que ele entrou no barco, o vento cessou. Os que estavam no barco ajoelharam-se diante dele, dizendo: "Verdadeiramente tu és o Filho de Deus!" (vv. 32-33). No barco, estavam todos os discípulos, unidos pela experiência da fraqueza, da dúvida, do medo, da "pouca fé". Mas quando Jesus sobre no barco, o tempo muda rapidamente: Todos se sentem unidos na fé n’Ele. Todos pequenos e assustados, se tornam grandes quando se ajoelham e reconhecem no seu mestre o Filho de Deus. Quantas vezes também nos acontece o mesmo! Sem Jesus, distantes de Jesus, nos sentimos com medo e inadequados a ponto de pensar que não vamos conseguir. Falta a fé! Mas, Jesus está sempre conosco, escondido talvez, mas presente e pronto para nos sustentar.
Esta é uma imagem eficaz da Igreja: um barco que tem que enfrentar as tempestades e às vezes parece à beira de ser afundado. O que a salva não são as qualidades e a coragem dos seus homens, mas a fé, que permite caminhar também na escuridão, no meio das dificuldades. A fé nos dá a certeza da presença de Jesus sempre ao lado, da sua mão que nos segura para vencer o perigo. Todos nós estamos naquele barco, e aqui nos sentimos seguros apesar das nossas limitações e as nossas fraquezas. Estamos seguros principalmente quando sabemos colocar-nos de joelhos e adorar a Jesus, o único Senhor da nossa vida. Maria, nossa Senhora, sempre nos convida a isso. Nos dirigimos a ela confiantes.
[Depois do Angelus]
Queridos irmãos e irmãs,
Nos deixa incrédulos e desanimados as notícias que nos chegam do Iraque: milhares de pessoas, entre as quais tantos cristãos, expulsas de suas casas de forma brutal; crianças mortas de sede e fome durante a fuga; mulheres sequestradas; pessoas massacradas; violências de todo tipo; destruição por todas partes; destruição de casas, de patrimônios religiosos, históricos e culturais. Tudo isso ofende gravemente a Deus e ofende gravemente a humanidade. Não se leva o ódio no nome de Deus! Não se faz a guerra em nome de Deus! Todos nós, pensando nesta situação, nestas pessoas, façamos silêncio agora e rezemos.
(silêncio)
Agradeço aqueles que, com coragem, estão levando alívio para estes irmãos e irmãs, e confio que uma solução política eficaz a nível internacional e local possa parar com estes crimes e restabelecer o direito. Para melhor garantir a minha proximidade àqueles povos queridos, nomeei o meu enviado pessoal ao Iraque, o Cardeal Fernando Filoni, que amanhã partirá de Roma.
Também em Gaza, após uma trégua, recomeçou a guerra, que faz vítimas inocentes, crianças... e só faz piorar o conflito entre israelenses e palestinos.
Rezemos juntos ao Deus da paz, por intercessão da Virgem Maria: Dê a paz, Senhor, aos nossos dias, e faça-nos construtores da justiça e da paz. Maria, Rainha da Paz, rogai por nós.
Rezemos também pelas vítimas do vírus "Ebola" e por todos aqueles que estão lutando para pará-lo.
Saúdo todos os peregrinos e romanos, em particular os jovens de Verona, Cazzago San Martino, e Sarmeola Mestrino, e as jovens escoteiras de Treviso.
A partir da próxima quarta-feira até segunda-feira, 18, estarei fazendo uma viagem apostólica à Coréia: por favor, me acompanhem com a oração, eu preciso delas! Obrigado. E desejo a todos um bom domingo e um bom almoço. Até logo.