quarta-feira, 13 de novembro de 2013

"Pecadores, sim. Corruptos, não"



Pelos muros da capela da Domus Sanctae Marthae, ressoou nesta segunda-feira (11) as palavras do Papa Francisco contra a corrupção
Por Salvatore Cernuzio

ROMA, 12 de Novembro de 2013 (Zenit.org) - Pelos muros da capela da Domus Sanctae Marthae, ressoou nesta segunda-feira (11) uma crítica contundente de Francisco, já manifestada em páginas escritas em 2005, quando Bergoglio ainda era o arcebispo de Buenos Aires, e recolhidas no livro "A cura da corrupção".
O cardeal Bergoglio falava então de uma corrupção que é "o joio do nosso tempo", que "se alimenta de aparência e de aceitação social, se ergue como medida da ação moral e pode consumir a partir de dentro", até causar uma "esclerose do coração" do homem ou da própria Igreja. Se as palavras do arcebispo de Buenos Aires já tinham abalado muitas consciências, sua reproposição, agora, na sua qualidade de Sumo Pontífice da Igreja Universal, assume um valor diferente: o valor de uma denúncia, alta e clara, contra uma atitude que é mais ínfima e desprezível do que o próprio pecado.
De fato, diz o papa, é quase melhor definir a nós próprios como pecadores do que como corruptos. Porque "aquele que peca e se arrepende pede perdão, se sente frágil, se sente filho de Deus, se humilha e pede a salvação de Jesus". Mas quem é corrupto "escandaliza" não pelas suas culpas, diz o Santo Padre, mas porque "não se arrepende", "continua a pecar, e, mesmo assim, finge que é cristão". É alguém que leva, enfim, uma "vida dupla". E isso "faz muito mal" para a Igreja, para a sociedade e para o próprio homem.
“É inútil que alguém diga ‘Eu sou um benfeitor da Igreja! Eu coloco a mão no bolso e ajudo a Igreja’, se depois, com a outra mão, rouba do Estado, rouba dos pobres [...] É injusto", diz Bergoglio, recordando o que diz Jesus no Evangelho de hoje sobre quem é causa de escândalo: "Mais vale a esse que lhe pendurem uma pedra de moinho ao pescoço e seja lançado ao mar!".
"Aqui não se fala de perdão", observa o papa, o que esclarece ainda mais a diferença entre corrupção e pecado. Jesus "não se cansa de perdoar", explica Francisco, e nos exorta a perdoar até sete vezes por dia o irmão que se arrepende. No mesmo Evangelho, porém, Cristo adverte: "Ai daquele que provoca escândalos!". Jesus "não está falando de pecado, mas de escândalo, que é outra coisa", ressalta o papa, "e acrescenta que é melhor que lhe coloquem no pescoço uma pedra de moinho e o joguem no mar do que causar escândalo a um só destes pequeninos".
Quem escandaliza engana, e "onde há engano não há o Espírito de Deus [...] Esta é a diferença entre o pecador e o corrupto": quem leva "vida dupla é corrupto"; quem "peca, mas gostaria de não pecar", é apenas "fraco": este "recorre ao Senhor" e pede perdão. "Deus o ama, o acompanha, está com ele".
Todos nós “devemos nos reconhecer pecadores. Todos nós". Mas "o corrupto está amarrado a um estado de suficiência, não sabe o que é a humildade". Jesus chamava esses corruptos de "hipócritas", ou, pior ainda, de "sepulcros caiados", que parecem "bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão".
Bergoglio vai fundo e afirma: "Uma podridão vernizada: esta é a vida dos corruptos. E um cristão que se gaba de ser cristão, mas que não leva vida de cristão, é um desses corruptos", acrescenta.
"Nós todos conhecemos alguém que está nesta situação: cristãos corruptos, padres corruptos... Quanto mal eles causam à Igreja, porque não vivem no espírito do Evangelho, mas no espírito da mundanidade". Mundanidade que é um perigo a respeito do qual São Paulo já alertava os cristãos de Roma, escrevendo: "Não se conformem com a mentalidade deste mundo". Comenta o Santo Padre: "Na verdade, o texto original é mais forte, porque nos diz para não entrarmos nos esquemas deste mundo, nos parâmetros deste mundo, ou no mundanismo espiritual".
As homilias do papa Francisco na Casa Santa Marta já não se limitam a usar metáforas simpáticas para aguçar as consciências embaçadas dos fiéis. Depois da dura homilia de hoje e do alerta feito na última sexta-feira aos devotos da "deusa tangente", as suas críticas se tornaram implacáveis, porque o que está em jogo é a vida e a alma das pessoas.
Como bom pastor, o papa tem o dever de guiar o seu rebanho pelo caminho que leva até Deus. Por isso, no final de um sermão que foi mais forte que o habitual até aqui, ele ressaltou a esperança e recordou que Cristo "não se cansa nunca de perdoar, mas com a condição de não querermos levar uma vida dupla, de irmos até Ele arrependidos: ‘perdoa-me, Senhor, eu sou um pecador’".. E conclui: "Peçamos hoje a graça do Espírito Santo, que foge de todo engano, a graça de nos reconhecermos pecadores: somos pecadores. Pecadores, sim. Corruptos, não".

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quando Ele nos repreende, o faz com uma carícia




Papa Francisco em Santa Marta: Quando Ele nos repreende, o faz com uma carícia
Homilia desta terça-feira: "Confiemo-nos em Deus como uma criança confia nas mãos de seu pai
Por Redacao

ROMA, 12 de Novembro de 2013 (Zenit.org) - Confiemo-nos em Deus como uma criança confia nas mãos de seu pai. Esta é a mensagem proposta por Papa Francisco em sua homilia desta terça-feira, na Casa Santa Marta. O Santo Padre reiterou que o Senhor nunca nos abandona e ressaltou que também quando nos condena, Deus não nos dá um tapa, mas nos acaricia.
"Deus criou o homem para a incorruptibilidade", mas "pela inveja do diabo a morte entrou no mundo". Em sua reflexão, o Papa deteve-se na primeira leitura, retirada do Livro da Sabedoria que recorda a nossa criação. A inveja do diabo, disse o papa, tornou possível o início dessa guerra: "este caminho que termina com a morte". Esta, disse o papa, "entrou no mundo”. É uma experiência que todos nós fazemos:
"Todos nós devemos passar pela morte, mas uma coisa é passar por esta experiência com uma pertença ao diabo e outra coisa é passar por esta experiência nas mãos de Deus. E eu gosto de ouvir isto: "Estamos nas mãos de Deus desde o princípio.” A Bíblia nos explica a Criação usando uma bela imagem: Deus, com as suas mãos, nos faz do barro, da terra, à sua imagem e semelhança. Foram as mãos de Deus que nos criaram: o Deus artesão, hein? Como um artesão fez-nos. Estas mãos do Senhor ... mãos de Deus, que não nos abandona".
A Bíblia, continua o papa, conta como o Senhor diz ao seu povo: "Eu caminho contigo, como um pai com seu filho, tomando-o pela mão". São as mãos de Deus, ele acrescentou, “que nos acompanham ao longo do caminho".
"Nosso Pai, como um pai ao próprio filho, ensina-nos a caminhar. Ele nos ensina a seguir pelo caminho da vida e da salvação. São as mãos de Deus que nos acariciam nos momentos de tristeza, confortam-nos. Ele é o nosso Pai que nos acaricia! Nos quer ‘muito bem’. E nestas carícias, muitas vezes, está o perdão. Uma coisa que me ajuda é pensar nisso. Jesus, Deus, trouxe consigo as chagas: mostra-as ao Pai. Este é o preço: as mãos de Deus são mãos chagadas por amor! E isto nos consola muito".
Muitas vezes, continuou o papa, ouvimos as pessoas dizerem que não sabem em quem confiar: “Confiem nas mãos de Deus". Isto “é lindo" porque "ali estamos seguros”: é segurança máxima, porque é a segurança do nosso Pai, que nos quer `muito bem´". "As mãos de Deus, ele insistiu, também nos curam das nossas doenças espirituais".
"Pensemos nas mãos de Jesus quando tocava os enfermos e os curava ... são as mãos de Deus: Nos curam! Eu não posso imaginar Deus nos dando uma bofetada! Eu não posso imaginar. A repreender-nos sim, eu imagino. Mas nunca, nunca nos fere. Nunca! Fá-lo com uma carícia.
“Também quando Ele nos repreende, o faz com uma carícia, porque é Pai”. As almas dos justos estão nas mãos de Deus. “Pensemos nas mãos de Deus, que nos criou como um artesão, que nos deu a salvação eterna. São mãos chagadas e nos acompanham no caminho da vida. Confiemo-nos nas mãos de Deus, como uma criança confia nas mãos de seu pai. São mãos seguras".
(RED / Trad.:MEM)

O homem não é uma ilha



UNESCO: Mons. Francesco Follo afirma que homens e mulheres são feitos para "viver humanamente juntos" e para criar as condições que tornem esse viver juntos o mais feliz possível
Por Antonio Gaspari

ROMA, 11 de Novembro de 2013 (Zenit.org) - "A primeira tarefa que liga o ser humano ao seu próximo é a de querer o bem comum. Esta verdade é uma verdade capital". Com estas palavras, mons. Francesco Follo, chefe da delegação da Santa Sé, abriu nesta manhã o seu discurso na 37ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO, em Paris.
Falando da educação e da sua contribuição para o desenvolvimento sustentável, o prelado sublinhou a importância da partilha e explicou que "rico" não é aquele que possui, mas aquele que transmite e compartilha, enfatizando que todos "somos convidados a compartilhar".
A partilha material e espiritual não implica empobrecimento: "é um enriquecimento mútuo". E como disse o papa Francisco, "é só quando somos capazes de compartilhar que nos enriquecemos de verdade".
Mons. Follo abordou depois o reconhecimento da contribuição dos jovens. "Toda voz humana deve ser ouvida. Os jovens e os idosos constroem o futuro dos povos. Os jovens, porque levarão a história adiante; os idosos, porque transmitem a experiência e a sabedoria de vida. A voz dos jovens sempre nos lembrará do que nós precisamos dar a eles, mas também, e isso é igualmente importante, do que eles podem dar a nós [...] Os jovens são capazes de viver no amor e de ser solidários com todos os seus irmãos na humanidade, sem qualquer discriminação".
Follo afirmou que a Santa Sé apoia os objetivos da UNESCO, especialmente os de desenvolvimento social inclusivo e a sua articulação com o diálogo intercultural e a reconciliação das culturas.
O chefe da delegação da Santa Sé tratou em seguida do papel e da contribuição para o desenvolvimento social, explicando que "a educação, a vida na cidade, a paz e tantas outras realidades não podem dar fruto se as nossas preocupações não forem propriamente espirituais".
O monsenhor citou o magistério pontifício, o cardeal Jean Daniélou e o filósofo Jürgen Habermas para reiterar a dimensão social da vida espiritual e o "papel público que o cristianismo (e todas as religiões) podem desempenhar na promoção do ser humano e no bem comum de toda a humanidade, no respeito e na promoção das liberdades religiosas e civis de todos e de cada indivíduo".
Segundo o prelado, a capacidade de moldar o futuro de sociedades pacíficas cresce onde é permitida a experiência da transcendência. "Quando os homens compreendem que o mundo é muito mais do que a terra que eles trabalham com seus conceitos técnicos e econômicos, os seus horizontes estreitos se alargam para além das questões que os preocupam".
Mons. Follo concluiu a fala convidando a assembleia a "colocar a pessoa, o seu desenvolvimento integral e o bem comum no coração dos nossos pensamentos e das nossas ações". Só assim "a UNESCO será fiel à sua definição, à sua vocação e à sua missão no serviço da humanidade do homem".

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

50 ANOS DA SACROSANCTUM CONCILIUM - I




Há 50 anos estava acontecendo o maior evento da Igreja no século XX: o Concílio Ecumênico Vaticano II. Mais de 2.500 bispos do mundo inteiro estavam reunidos em Roma para buscar novos caminhos para que a Igreja continuasse a ser, com maior evidência, sal da terra e luz do mundo (Mt 5, 13-16). Os caminhos da reforma iniciaram pela liturgia. A partir do início do século XX, alimentava-se na Igreja visível desejo de renovação teológica, espiritual e pastoral no campo da liturgia, pois esta continuava a sofrer o danoso fixismo e rubricismo de quatro séculos tridentinos, somados à forte influência das tendências litúrgicas de todo o IIº milênio, com seus acentuados “deslocamentos de eixo” na compreensão e vivência da liturgia.
A centralidade da liturgia, como celebração do mistério pascal, cedera lugar às devoções (Santíssimo Sacramento: ver e adorar; santos intercessores; novenas; promessas...). As devoções ocupavam o lugar central. Os sacramentos eram vistos muito como remédio para curar, para satisfazer outras necessidades e para livrar de castigos divinos. A dimensão eclesial e comunitária da liturgia cedera lugar ao individualismo religioso, pois o padre era considerado único celebrante: um especialista realizava a ação sagrada por todos. O povo já não era mais considerado assembléia orante, sujeito da celebração; não participava diretamente e por isso ocupava-se com devoções (assistia, sem entender a língua: perdera-se o valor da Palavra);o uso da língua e dos costumes dos povos na celebração dos mistérios da liturgia cedera lugar ao centralismo romano que obrigava a adotar os moldes medievais e pós-tridentinos de celebrar. O gênio romano puro (simplicidade, sobriedade e praticidade) fora substituído pela pompa barroca, triunfalista e luxuosa, com destaque exagerado aos elementos externos do culto, como afirma o liturgista Frei José Ariovaldo da Silva: passou-se “do essencial para aspectos acidentais, do teologal para o devocional, do eclesial-comunitário para o individualismo religioso, do mistério celebrado para o cumprimento meramente exterior dos ritos, da adaptação às culturas para a uniformidade rígida e obrigatória para todos”.
Desde o final do séc. XIX surgiram tentativas de mudança, as quais se fortaleceram durante o Movimento Litúrgico clássico do séc. XX. O Papa Pio XII chegou a afirmar no Congresso Eucarístico Internacional de Assis (1956): “O movimento litúrgico apareceu como um sinal das providenciais disposições divinas em nosso tempo, como uma passagem do Espírito Santo sobre sua Igreja, para aproximar muito mais os homens dos mistérios da fé e das riquezas de graça que provêm da participação ativa dos fiéis na vida litúrgica”.
Mesmo com algumas resistências, foi de todos os documentos o que causou menos dificuldades. Uma comissão pré-conciliar apresentou texto inicial, já em outubro de 1962, o qual, depois de emendado mais vezes e votado pelos Padres conciliares, foi aprovado e promulgado em sessão solene presidida pelo Papa Paulo VI, em 04 de dezembro de 1963, como primeiro documento do Concílio Ecumênico Vaticano II. Estava, assim, aberto o caminho do Concílio e da reforma (renovação) litúrgica na vida da Igreja. A Liturgia resgatara novamente a centralidade do Mistério pascal, em todas as suas formas celebrativas, como momento histórico da salvação, a fonte mais excelente de espiritualidade cristã. O desvio dos eixos acabara de ser identificado e ratificado.
No início de dezembro estaremos celebrando o cinqüentenário da aprovação da Constituição Dogmática Sacrosanctum Concilium, que trouxe e ainda deverá trazer tantos benefícios à Igreja, à medida que entendermos o seu verdadeiro espírito.

Ele é o Deus de cada um de nós!



Palavras do Papa Francisco durante o Angelus

ROMA, 10 de Novembro de 2013 (Zenit.org) - Publicamos a seguir as palavras do Papa pronunciadas aos fieis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, hoje às 12hs durante a tradicional oração do Angelus.
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Caros irmãos e irmãs, bom dia!
O Evangelho deste domingo nos apresenta Jesus com os saduceus, que negavam a ressurreição. E é justamente sobre este tema que eles fazem uma pergunta a Jesus, para coloca-lo em dificuldade e ridicularizar a fé na ressurreição dos mortos. Partem de um caso imaginário: “Uma mulher teve sete maridos, mortos um depois do outro”, e perguntam a Jesus: “De quem será esposa esta mulher depois da sua morte?”. Jesus, sempre humilde e paciente, primeiramente responde que a vida depois da morte não tem os mesmos parâmetros daquela terrena. A vida eterna é uma outra vida, em uma outra dimensão onde, entre outras coisas, não existirá mais o matrimônio, que está ligado à nossa existência neste mundo. Os ressuscitados – disse Jesus – serão como os anjos, e viverão em um estado diferente, que agora não podemos experimentar e nem sequer imaginar. E assim explica Jesus.
Mas, depois, Jesus, por assim dizer, passa ao contra ataque. E o faz citando a Sagrada Escritura, com uma simplicidade e uma originalidade que nos deixam cheios de admiração pelo nosso Mestre, o único Mestre! A prova da ressurreição, Jesus a encontra no episódio de Moisés e da sarça ardente (cf. Ex 3, 1-6), lá onde Deus se revela como o Deus de Abrão, de Isaque e de Jacó. O nome de Deus está ligado aos nomes dos homens e das mulheres com os quais Ele se liga, e esta ligação é mais forte do que a morte.. E nós podemos falar também da relação de Deus conosco, com cada um de nós: Ele é o nosso Deus! Ele é o Deus de cada um de nós! Como se Ele tivesse o nosso nome. Ele gosta de dizer, e esta é a aliança. Eis porque Jesus afirma: “Deus não é dos mortos, mas dos vivos; porque todos vivem por ele” (Lc 20, 38). E esta é a ligação decisiva, a aliança fundamental, a aliança com Jesus: Ele mesmo é a Aliança, Ele mesmo é a Vida e a Ressurreição, porque com o seu amor crucificado venceu a morte. Em Jesus Deus nos dá a vida eterna, a dá a todos, e todos, graças a Ele têm a esperança de uma vida ainda mais verdadeira do que esta. A vida que Deus nos prepara não é um simples embelezamento desta atual: essa supera a nossa imaginação, porque Deus nos surpreende continuamente com o seu amor e com a sua misericórdia.
Portanto, o que acontecerá é justamente o contrário do que esperavam os fariseus. Não é esta vida que é referência para a vida eterna, para a outra vida, aquela que nos espera, mas é a eternidade – aquela vida – que ilumina e dá esperança à vida eterna de cada um de nós! Se olhamos somente com olhos humanos, somos levados a dizer que o caminho do homem vai da vida à morte. Isso se vê! Mas somente é assim se o olhamos com olhos humanos. Jesus muda esta perspectiva e afirma que a nossa peregrinação vai da morte à vida: a vida plena! Nós estamos em caminho, em peregrinação em direção à vida plena, e aquela vida plena é aquela que nos ilumina no nosso caminho! Portanto, a morte está atrás, nas costas, não diante de nós. Diante de nós está o Deus dos vivos, o Deus da aliança, o Deus que traz o meu nome, o nosso nome, como Ele disse: “eu sou o Deus com o meu nome, com o teu nome, com o teu nome..., com o nosso nome. Deus dos vivos!... Eis a derrota definitiva do pecado e da morte, o começo de um novo tempo de alegria e de luz sem fim. Mas já nessa terra, na oração, nos Sacramentos, na fraternidade, nós encontramos Jesus e o seu amor, e assim podemos degustar algo da vida ressuscitada. A experiência que fazemos do seu amor e da sua fidelidade acende como um fogo no nosso coração e aumenta a nossa fé na ressurreição. De fato, se Deus é fiel e ama, não pode sê-lo por tempo limitado: a fidelidade é eterna, não pode mudar. O amor de Deus é eterno, não pode mudar! Não é ao mesmo tempo limitado: é para sempre! É para seguir adianta! Ele é fiel para sempre e Ele nos espera, cada um de nós, acompanha a cada um de nós com esta fidelidade eterna.
(Tradução Thácio Siqueira)

domingo, 10 de novembro de 2013

Eutanásia: uma definição em três pontos



Glossário de Bioética: a "doce morte" acabou significando também "dar morte a uma pessoa com prognóstico negativo"; uma "morte rápida", porém, não é sinônimo de "morte digna".

Roma,  (Zenit.orgCarlo Bellieni 

A “morte doce” acabou significando "dar morte a uma pessoa com prognóstico negativo", embora a "morte rápida" não seja sinônimo de "morte com dignidade": pode ser entendida como "morte doce”, afinal, aquela que é vivida com coragem e na companhia dos entes queridos; facilitar a morte de alguém é um ato prejudicial ao corpo social, diferentemente da suspensão de cuidados desnecessários, dos quais ela deve ser bem diferenciada.
Realismo

Literalmente, eutanásia significa "morte doce"; na linguagem comum, ela significa "morte provocada (a fim de evitar o sofrimento grave)", que mal se distingue do suicídio assistido de uma pessoa que consente nessa prática. Dentro do contexto da eutanásia, inclui-se a suspensão da assistência médica voltada a salvar a vida, ou seja, a determinação de não reanimar o paciente caso haja risco urgente para a vida, ou de suprimir os medicamentos e até mesmo a hidratação e a alimentação. Fala-se, assim, de eutanásia ativa e passiva (ou omissiva).
A razão
A eutanásia realmente preserva a dignidade da pessoa? Seu objetivo declarado é duplo: evitar o sofrimento e a possível diminuição da dignidade da pessoa. Entretanto, para combater o sofrimento existem excelentes medicamentos; já a questão da dignidade da pessoa é mais complexa: haverá mesmo algo que diminua a dignidade de uma pessoa? Morrer de velhice é mais digno que morrer de câncer?
A dignidade humana é inerente à pessoa, em qualquer situação, em qualquer idade, em qualquer estado de saúde ou de desenvolvimento sócio-econômico. É um mito a ideia de que seja preciso criar situações para preservá-la, já que nada a elimina, nem mesmo o pior dos algozes. Ao contrário: é obrigação moral de todos respeitá-la. Esse mito vem da ideia de que ser dependente dos outros, principalmente em casos extremos de dependência, não seria "digno do ser humano", que, na sociedade pós-moderna, é visto como aquele que tem uma característica fundamental e suprema: a autonomia, a independência. Qualquer coisa que diminua ou elimine a autonomia é hoje considerado como um ataque contra o status do ser humano, levando-o inclusive a perder o título de "pessoa": seria o caso da criança, do embrião, do ancião ou do doente mental que depende dos outros.
O que deve ser assegurado de todas as maneiras é que a pessoa receba todos os cuidados a que tem direito, incluindo os paliativos, e que transcorra a etapa final da vida nas condições mais serenas possíveis. A questão, assim, é “ajudar a morrer bem”, o que não significa "decidir quando", mas "como": isto é, no melhor ambiente e com o melhor atendimento e companhia. A eutanásia é apenas um atalho para não se abordar o problema dos direitos reais do moribundo.
De que tipo de cultura nasce a ideia de escolher quando morrer? O slogan "Eu decido quando e onde morrer" é um exagero com propósitos polêmicos. Pouquíssima gente ficará paralisada sem poder expressar a própria opinião e precisando de alguém que lhe escolha o tratamento médico adequado. Esse slogan nasce também de uma cultura de autonomia extrema, na qual o meu valor reside na minha capacidade de me autogerir: é claro que isto é bom, mas não diminui o valor da pessoa que precisa ser cuidada até nas necessidades mais simples. Suspender o tratamento é válido apenas se o tratamento é insuportável ​​ou não é eficaz.
O sentimento
Não se pode supor que qualquer um vá decidir antecipadamente o que escolher quando estiver doente. Mas há um aspecto social que precisa ser levado em conta: o cuidado das pessoas gravemente doentes deve ser uma exigência legal das autoridades locais e do Estado, que devem facilitar a situação das famílias e dos indivíduos. Hipocrisia é falar contra a eutanásia fingindo-se que a pessoa deprimida ou idosa não é abandonada pela sociedade. Ao mesmo tempo, é muito fácil para o Estado simplesmente permitir a eutanásia em vez de dar o melhor das suas possibilidades para ajudar os doentes.

A justiça é a primeira forma de caridade



Papa destaca a importância do "Defensor do vínculo" matrimonial, convidando o Tribunal da Assinatura Apostólica a conciliar as disposições do Código de Direito Canônico com as situações concretas da Igreja e da sociedade

Roma,  (Zenit.orgAntonio Gaspari 

"O exercício da justiça é um compromisso com a vida apostólica: precisa ser exercitado com os olhos fixos no ícone do Bom Pastor, que se inclina para as ovelhas perdidas e feridas”. Por isso, "encorajo todos vocês a perseverar na busca de um exercício claro e reto da justiça na Igreja, em resposta aos legítimos desejos que os fiéis dirigem aos Pastores, especialmente quando confiantes exigem esclarecimentos rigorosos sobre opróprio status".
Estas foram as palavras que o Papa Francisco dirigiu à Plenária do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, em audiência no Vaticano. Depois de manifestar seu reconhecimento "pela promoção da reta administração da justiça na Igreja" e pelo apoio a "responsabilidade dos bispos na formação de idôneos ministros da justiça", o Pontífice deteve-se na importância da figura do "Defensor do vínculo" especialmente "no processo de nulidade do matrimônio”.
O Bispo de Roma recordou as significativas contribuições feitas pela"Assinatura Apostólica" na instrução do Dignitas connubii, queorganiza aaplicação denormas processuais, e agradeceu por ter colocado ao centro dos trabalhos "a promoção de uma eficaz defesa do vínculo matrimonial nos processos canônicos de nulidade”.
Neste contexto, Francisco também enfatizou a importância do Defensor do vínculo, a fim que “possa facilitar a obtenção da verdade na sentença definitiva, a favor do bem pastoral das partes envolvidas". Mais precisamente, o Santo Padre destacou o seu papel nas causas de nulidade por incapacidade psíquica, que em alguns tribunais constitui o único responsável pela nulidade.
O Papa, então, convidou a uma avaliação diligente na análise da mesma. "Portanto - destacou- o Defensor do vínculo que deseja realizar um bom serviço não pode se limitar a uma leitura apressada dos atos, nem a respostas burocráticas e genéricas". " Em sua delicada tarefa - acrescentou - é chamado a procurar conciliar as disposições do Código de Direito Canônico com as situações concretas da Igreja e da sociedade".
Mesmo porque, o Defensor do vínculo não está em oposição ao juiz, na verdade - disse o Papa - "os juízes podem encontrar no trabalho cuidadoso de quem defende o vinculo matrimonial, uma ajuda para a própria atividade".
Por fim, o papa Francisco recordou que "o Concílio Vaticano II definiu a Igreja como comunhão". E é nesta perspectiva que deve ser observado "seja o serviço do Defensor do vínculo, bem como a consideração que a esse deve ser dada, em um respeitoso e atento diálogo". Ao final, o pontífice invocou Maria Santissima para que toda a Igreja caminhe "na via da justiça, que é a primeira forma de caridade".
(Trad.:MEM)